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O que a capa diz sobre a identidade do seu jornal

Hoje, vou dizer a vocês que, sem sombra alguma de dúvida, o tipo de desenho DIZ MUITO SOBRE QUEM É O JORNAL E PARA QUEM ELE FOI ESCRITO.

Muitas pessoas no ramo da comunicação infelizmente ignoram isso, e acabam optando por um desenho simplesmente por ser bonito ou se parecer com o de outro veículo totalmente diverso, que o diretor gostou. Mas há alguma ciência por trás do design da primeira página de um jornal.

Um exemplo rápido, só para a gente começar:

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De um lado, temos o Correio do Povo, um jornal de 120 anos de idade, respeitado, histórico, focado em um público que considera-se educado e que lê notícias com mais de 10 linhas de texto. É um jornal que traz até coisas de literatura e cadernos sobre história (explico para quem não conhece). Note que há texto na capa, notas, e praticamente todo o espaço é branco, com letras pretas. Há uma fonte serifada daquelas clássicas, parecida com o Times New Roman, e tudo parece mais “sério” do que na capa do lado.

A outra é uma capa do Diário Gaúcho, o jornal mais barato e de maior circulação no Rio Grande do Sul. É um jornal popular, desses que os trabalhadores leem no ônibus, todo mundo dá aquela olhada, e faz grande sucesso entre guardinhas em geral. A capa tem muito menos texto, as fotos são maiores e em profusão, e a manchete principal é maior, mais berrante, e é uma frase de impacto (inclusive, usando o tempo do verbo incorreto, porque o sujeito em questão JÁ FOI para a cadeia). Gostosas seminuas, prisões, mortes, celebridades e futebol normalmente dominam a capa.


Tipologia

Nesses dois casos, além da distribuição das matérias (alinhadas em um, e “carnavalesca” no outro), das cores e tudo mais, precisamos também atentar para as FONTES escolhidas. A tipologia. Eu ainda vou falar muito sobre tipologia aqui no blog. Ela é importante, e é um assunto de grande interesse (meu, e deveria ser de vocês também). De fato, eu ia fazer minha monografia da faculdade sobre isso, mas por falta de literatura a respeito do assunto, optei por outra coisa.

De qualquer forma, minha teoria em 2004… e até hoje… é que a tipologia diz MUITO sobre o impresso. Notem como o jornal para pessoas mais “sérias” usa letras serifadas, parecendo algo feito há décadas. Parecendo um livro. Bom. Este tipo de letra favorece este tipo de jornal, porque ele vai ter textos longos e aprofundados.

Já o outro, o “popularzão” opta por fontes mais “modernas”, e provavelmente tem textos bem mais curtos e genéricos.


 

Assunto e linguagem

Também o texto que vai na capa e a ESCOLHA DAS MATÉRIAS DIGNAS DE CAPA diz muito sobre o jornal. Esses dois exemplos aí são do mesmo dia. Veja que um optou por botar uma matéria de economia, e o outro, sangue. Até a forma como as frases são escritas é diferente.

Não há uma fórmula perfeita para criar essas frases. Elas têm conexão com o público, com o tempo, com o uso da lingua. Um certo “feeling” do que combina ou não combina. E não é algo fixo. Veja abaixo essa capa dos anos 40:

capa_rompimento_com_o_eixo

A frase parece ter saído da boca do Mestre Yoda, com os elementos em ordem que hoje não se usa mais. Mas na época, passou seu recado.

Por isso composição das FRASES diferencia tudo.

A gente não pega um Correio do Povo, por exemplo, e lê nele uma manchete do tipo “Homem traído enfiou a cabeça do Ricardão no forno a lenha”. Mas no Diário Gaúcho, provavelmente já houve manchetes piores.

O jornal Meia Hora (que eu uso, sim, muito, como exemplo aqui no site – porque por mais que se possa questionar seus critérios jornalísticos, é um periódico que faz capas lendárias) é famoso por usar trocadilhos e frases de duplo sentido. Além de debochar dos sujeitos envolvidos em suas manchetes. Isso passa uma ideia de pouca seriedade e muito escracho… que é EXATAMENTE o que o jornal faz.

meia_hora_horrendo

Claro, não estou aqui dizendo que necessariamente um jornal SEJA aquilo que ele PARECE SER, mas, se queremos fazer um trabalho profissional, devemos ao menos saber o que estamos fazendo e qual imagem queremos passar.


Agora, falemos de uma coisa muito útil: O USO DAS CORES É ESSENCIAL, E NÃO PODE SER DESPERDIÇADO.

Se vocês estão fazendo um jornal COLORIDO, ou ao menos, com a CAPA COLORIDA, então NÃO diagramem uma capa “estilo preto e branco”, só com textos em preto, e fotos. Isso é desperdício do recurso.

Não saiam por aí colorindo as letras como um arco-íris, porque isso, claro, vai avacalhar a capa. Mas permitam-se usar cores de fundo. Elas são MUITO ÚTEIS.

O uso de cores de fundo e nas letras diz bastante sobre o TIPO DE EMOÇÃO que se quer despertar no leitor. Vou mostrar duas capas do lendário Meia Hora, só para a gente olhar:

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Aqui, vemos um fundo cor-de-rosa na matéria sobre o novo programa da Fátima Bernardes (claro que usaram um trocadilho besta, mas e daí?). Já na matéria policial horrível da outra capa, o fundo é preto. Dá a impressão de algo pesado, terrível.

Colocar uma foto, por exemplo, do “casal telejornal” com um fundo preto daria ao leitor a impressão de que a manchete é sobre algo terrível. Até poderia angariar um pouco mais de venda na banca, mas daria ao público a impressão de um embuste, destruindo qualquer chance de fidelização daquele leitor.

É importante não criar e destruir expectativas nas capas de um jornal, caso se pretenda fazê-lo durar. Jornais impressos ainda são vistos como veículos confiáveis e tradicionais, e brincar com a cara do leitor não é boa ideia.

O assunto “capa” ainda voltará a ser tratado. Aguardem!

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Como, e para quê, elaborar a capa de um jornal

Na verdade, não existem “segredos”, nem técnicas fixas para desenhar uma boa capa de jornal impresso. Não esperem, de mim, um tutorial. O que eu vou dar aqui são diretrizes universais para orientar este trabalho de criação.


Jornais são um universo variado, e cada um deve ser desenhado levando em conta as particularidades do público-alvo, e o tipo de imagem que o periódico quer passar.

Hoje, vamos ver o seguinte aspecto: A CAPA NÃO É, DE FORMA ALGUMA, A MESMA COISA QUE O INTERIOR DO JORNAL.

O que eu quero dizer é que, embora ela obedeça a alguns padrões do projeto gráfico (logotipo, cores principais, fontes, etc.), ela NÃO É uma página comum. Não segue a colunagem usada para as matérias, não deve ter textos longos e nem retrancas. A capa é um espaço mais livre, no qual o “lado artista” do diagramador pode sentir-se solto para desenhar uma pequena obra de arte.

Matérias inteiras na capa são desperdício de espaço. No máximo, notas rápidas, textos curtos, e que levem a “ganchos” para dentro do jornal. O leitor não pode sair satisfeito da capa, senão, ele não abre o exemplar. Se o sujeito cai na armadilha de escrever textos inteiros, ele transforma a capa em um tijolão sem “chamada” nenhuma.

Abaixo, uma “capa” do jornal russo Pravda, de algum tempo atrás. Os russos criaram tendências do design de impressos no século XX, mas o Pravda era normalmente medonho.

pravda

Claro, o Pravda era o jornal oficial do governo soviético. Então, ele tinha basicamente todo o povo como leitor mais ou menos obrigatório. Incrivelmente, as capas antigas, dos tempos socislistas, eram MENOS TIJOLESCAS do que essa aí. Traziam fotos grandes… de gente comunista importante… mas enfim.
Mesmo no mundo atual, jornais mais antigos, com uma base de leitores formada, às vezes optam por não usar a capa como “chamador”. É o caso do Estadão, que existe há décadas.

Mas nem mesmo ele abusa do “tijolismo” na capa:

estadao

Eu, pessoalmente, NÃO GOSTO de capas nesse estilo. Acho que capa é realmente um espaço para ser bonito, ter só chamadas, fotos enormes, muita cor e muita vida. Mas muita gente trabalha em outra linha, e isso realmente depende de uma visão muito clara sobre a finalidade da capa. Sintam-se livres. Só não façam o maldito tijolão!

Agora, a pergunta: qual a finalidade do desenho da capa?

Qual?


QUAL A FINALIDADE DE DESENHAR UMA BOA CAPA?

Ou melhor: o que devemos PERSEGUIR ao criar uma capa?

Em jornais que são vendidos em bancas ou distribuídos na rua, a capa deve ser pensada como um “cartaz”. A pessoa está passando, olha rapidamente na direção onde o impresso está exposto, e a capa deve levá-lo a caminhar naquela direção, e pegar um exemplar.

Assim, ESQUEÇA manchetes em letras discretas, ou frases muito longas. Se a foto é boa, ela deve ser grande. A manchete deve ser chamativa. Caso não hajam boas fotos para a frente, esqueça as fotos, use letras grandes. O importante é o sujeito bater o olho, ler uma frase ou ver alguma coisa, e “BUUUM!!!”, ter aquele impacto, aquela vontade de ir lá conferir a reportagem.

Um exemplo bem óbvio: imagine que você é um português, e está ali, acostumado com aquele governinho de sempre, aquela vidinha, andando pelas ruas de Lisboa, assobiando, olhando as gatinhas, quando de repente, na banca…

capa-forcas-armadas-portugal

“Como assim tomaram o poder? Toma aqui o dinheiro, me dá esse jornal, moço.”

Entenderam?

Já em impressos de circulação interna… é exatamente a mesma coisa!

O jornal estará em cima de uma mesinha, ou em um expositor, e o leitor tem que ser seduzido a abrí-lo. A diferença aqui é que, como ele será visto de perto, em um ambiente menos agitado, dá para colocar mais chamadas na frente. E essas chamadas devem cobrir, por cima, a variedade de assuntos que estão dentro. O leitor tem que ser fisgado por alguma coisa.

Esse é o ponto central de toda a ciência, teoria e arte das capas: elas são mais ou menos cartazes. Elas são placas. Elas são chamadores.

Uma capa tem que despertar interesse. Tem que fazer o cara abrir o jornal.
Isso é o central. O principal. O princípio, o fim e o meio.

Entendido?

Voltarei ao assunto “capa” em outras oportunidades, porque ainda temos que falar de tipologia, cores e propaganda.

Fiquem ligados!