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empregado desanimado

Não deixe que o trabalho destrua sua autoimagem e seu sentido de profissão

Texto publicado originalmente no site Covil da Discórdia.


 

Faça um teste: pergunte “qual é o seu trabalho?” a algumas pessoas, e elas provavelmente te falarão sobre aquilo que fazem para pagar as contas. Depois, pergunte “qual sua profissão?”, e a conversa ficará bem menos simples: surgirão respostas do tipo “sou sociólogo e comerciário”, ou “sou publicitário e funcionário público”.

Vivemos em uma época de acesso facilitado às universidades, com instituições de ensino superior pipocando para todos os lados, e milhares de bacharéis saindo delas em levas cada vez maiores diante de um mercado cada vez mais encolhido. Em um cenário assim, não é incomum que pessoas com vocação, talento e vontade para fazer uma coisa acabem fazendo outra.

gordo do escritorio

Sociólogos, filósofos e historiadores, que deveriam estar dando aulas, por exemplo, acabam indo trabalhar com outra coisa por causa dos salários do magistério. Comunicadores, artistas e outras pessoas nascidas para trabalhos de renda instável e poucas oportunidades acabam em escritórios. Engenheiros que caem em escritórios de contabilidade.

Os órgãos públicos, em especial, são um grande cemitério de carreiras desviadas. E não há pecado nisso: todo mundo precisa sobreviver.


Se você está nesta situação, algumas coisas precisam ficar claras.

Você não pode definir sua profissão como uma lista de coisas em áreas absolutamente desconexas.

Esta é uma questão de autoimagem, de definir-se diante das pessoas mas, antes de mais nada, de definir-se para si mesmo. É a sua identidade. É o seu foco.

“A fórmula para a minha felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta.” (Nietzsche)

Se o seu trabalho do dia a dia não corresponde a sua formação, nem aos seus talentos e aspirações, ele pode até pagar suas contas, mas não é sua profissão. Ele é um desvio – que pode durar meses, anos, pode ir até sua aposentadoria – mas jamais será algo incrustado no fundo de sua personalidade.

As circunstâncias até podem redefinir suas atividades, mas não sua visão de si mesmo. Render-se e redefinir-se de forma acomodada aos revezes é um dos principais motivos de desmotivação no trabalho e na vida.

“Eu sou biólogo e oficial de justiça, quer dizer, me formei em biologia, mas acabei virando servidor do Judiciário…” – se você diz o final da frase com voz desanimada, então você é um biólogo. Está trabalhando como oficial de justiça, mas deve lutar para, daqui a cinco, dez, vinte anos, poder estar na sua área de interesse, apaixonado pelo trabalho, podendo dizer “em uma época difícil, cheguei até a atuar como oficial de justiça, era o meu trabalho, mas minha profissão é a biologia”. E mesmo que não consiga fazer essa transição, ao menos a perspectiva de estar lutando te manterá vivo e motivado. “Não tá morto quem peleia”, diz o gaúcho velho.


“Nenhum vitorioso acredita no acaso.” (Nietzsche)


Faça sua própria análise. Esqueça o salário, a estabilidade, o mercado, e pense: o que te motiva? O que gostaria de estar fazendo? Não estou dizendo para largar seu emprego, e ir aventurar-se no mercado de sua atividade-paixão. É apenas um exercício mental.

Este ato, por si só, é duro demais para algumas pessoas. Porque é duro admitir que não se está no lugar onde se gostaria de estar, e que não se está vivendo no melhor dos mundos possíveis. Gostamos de crer que estamos bem. Admitir que não estamos é o primeiro passo.

Nada é por acaso. Você não ficará feliz com o que faz pelo simples hábito, nem conseguirá ir para a atividade que gosta por força de eventos aleatórios. É preciso, primeiro, admitir que se quer outra coisa. E depois, trabalhar neste sentido. Fazer alguma atividade relacionada à profissão de vocação no horário livre.

Experimente, comece com algo pequeno. Os efeitos profissionais e econômicos certamente serão nulos, mas os psicológicos, enormes.

“Qualquer trabalho de certa importância exerce uma influência ética. O esforço de concentrar e formar harmonicamente dada matéria é uma pedra que cai em nossa vida psíquica; do peque­nino círculo, muitos outros mais amplos se propagam.” (Nietzsche)

Se a “brincadeira” no ramo de atividade sonhado te deu arrepios, fez sua alma vibrar e o sangue ferver, é porque o exercício de autodescoberta foi bem feito e apontou para o caminho certo.


O que virá a seguir é uma escolha de cada um. Eu mesmo, que aqui escrevo, não concluí esta etapa ainda.

“Eu tenho o meu caminho. Você tem o seu caminho. Portanto, quanto ao caminho direito, o caminho correto, e o único caminho, isso não existe.” (Nietzsche)

Ok, a imagem é apenas ilustrativa - persiga seus sonhos sem avacalhar com o espírito de ética para com seu trabalho atual.
Ok, a imagem é apenas ilustrativa – persiga seus sonhos sem avacalhar com o espírito de ética para com seu trabalho atual.


O fato é que, fazendo ou não a transição para uma atividade relacionada à verdadeira Profissão que escolhemos (ou que, para os mais espirituais, nos foi dada por Deus), aquela que fazemos com paixão e vontade, não podemos deixar que o trabalho – imposto pelas necessidades – nos faça esquecê-la.

A vida é grande, e seu percurso, inesperado. Em uma esquina qualquer da vida, podemos encontrar a oportunidade para pegar a outra via, aquela que conduz à realização dos sonhos que, no momento, estão sendo adiados. E é preciso estar pronto quando esta curva surgir no horizonte. O preparo para isso depende de termos a coragem de dizer para nós mesmos o que realmente somos e o que, afinal, verdadeiramente queremos da vida.