Início » Posts do antigo blog » falecimentos

Tag: falecimentos

suzana

Suzana, a estrela da família, foi brilhar no céu

Hoje tenho uma coisa importante para dizer. Peço que leia até o final.

suzana

Se por acaso a minha mãe não fosse a minha mãe, então com certeza, a minha tia Suzana seria a minha mãe. Aliás, isso ficou sempre muito claro. Quando eu era pequeno, tinha brinquedos no apartamento dela, e um lugar próprio no quarto dela para dormir lá quando minha mãe precisava estudar ou fazer alguma coisa. Eu lembro de ter dado cartões ou pequenos presentes do Dia das Mães para a Suzana em quase todos os anos.

E agora ela se foi. Recebi a notícia há meia hora atrás.

Eu amo ela. Mas não fiquei surpreso com sua partida. O Hércules, seu cachorrinho incrivelmente longevo, foi-se uns dias antes. Foi uma espécie de sinal. Ontem ela entrou em coma. Até que durou.

Eu amo ela. Mas não fiquei triste. Para falar a verdade, fiquei bastante aliviado. Ninguém deveria ser obrigado a viver como ela vinha vivendo nos últimos anos. Me dava aflição vê-la presa. Plenamente consciente, presa dentro de um corpo que funcionava cada vez menos.

Na verdade, o falecimento foi hoje. Mas ele começou muitos anos atrás. Acho que logo depois que a vovó Maísa morreu. Nada mais foi como antes. Parte da família se mudou do prédio. As relações e ligações entre as partes do grupo ficaram diferentes. Não sei.

Prefiro lembrar de como as coisas eram antes.

A Suzana era aquela tia que ensinava palavrões para as crianças. Ensinava piadas. Ensinava que na vida, mais importante do que estar por cima ou por baixo, é saber rir do processo todo.

Este texto será um pouco longo, mas não é um texto exagerado: ele nem faz jus ao “tamanho” dessa minha tia na minha vida. Uma boa parte da minha formação como pessoa passou por ela. Eu lembro de tanta coisa…

Eu lembro de uma vez em que eu tinha um cabelo meio comprido e ela fez cachos nele, para que eu ficasse parecido com um super-herói da televisão.

Lembro de ela ter pintado meu rosto diversas vezes, com suas maquiagens. Me transformando em um índio. Em um zumbi com olheiras. Em um caipira com bigodinho e sobrancelhas grossas.

Lembro do quarto dela, grande, com muito espaço vazio para eu brincar. É uma lembrança vaga. Ela envolve gente, alegria, música, risadas. Fumaça. A Suzana fumava muito. Sempre fumou.

Aliás, essa história de fumar… Apesar de enxergar um pouco mal (como quase todos os irmãos), ela dirigia em alta velocidade, fumando, falando no celular, com o cachorro no colo. Nunca se acidentou.

Voltando ao fumo. Ela fumava muito. E brincava fazendo figuras no ar com a fumaça. Eu achava o máximo. Se eu soubesse…

… se eu soubesse… que a veria com uma bombinha tentando respirar enquanto seus pulmões se desfaziam… mas isso é o passado recente. Voltemos ao passado remoto. É dele que eu gosto. Lembro de tanta coisa.

Lembro de ter ganho brinquedos dela em todos os natais, aniversários, dias da criança. E de ela ter participado de momentos cruciais da minha vida. Essa foto, que achei aqui no computador, é da minha formatura. Ela já estava doente. Mas estava lá. Fazem nove anos.

Até meu gosto pela política eu acho que devo a ela. Já contei essa história. Do filme que tenho gravado na memória: eu via, de baixo (porque eu era baixinho), de dentro do carro (era uma carreata) aquele monte de bandeiras e de gente. Lembro que uma vez fomos à Assembleia Legislativa falar com ela em horário de expediente, eu e a mamãe. Ah… se alguém imaginasse que eu entraria naquele mesmo prédio uns vinte anos depois, com uma greve na rua… não só por isso o prédio tornou-se um lugar familiar para mim. As bandeiras e o barulho de campanha também. Ah, Suzana, se soubesse… talvez ela adivinhasse. Não sei. Acho que as pessoas às vezes cumprem um papel sem saber que estão cumprindo.

Eu conto as coisas, elas são banais. Mas são memórias que têm um valor sentimental para mim.

A Suzana tinha um frigobar no quarto. Ela cozinhava uns ovos, e os “molhava” em um pote cheio de sal enquanto comia. No frigobar sempre tinha água gelada, refrigerante, e uísque. Acho que o refrigerante era, em grande parte, para mim e para minha irmã. Não sei.

Ela deixava eu dar “bicadas” no uísque dela. Não virei alcoólatra. Na verdade, nunca gostei de uísque. Engraçado.

Ela tinha muitas amigas. Sempre. Elas apareciam, mas ela não me ignorava mesmo tendo muito papo para bater com sua turma. Na verdade, eu ficava ali, meio tratado como xodó daquela mulherada. Era legal. Sinto muita saudade. Não de ser criança, mas de ver Suzana rindo e contando piada. Totalmente enfeitada, arrumada, maquiada.

Porque a Suzana era vaidosa. E arrasava corações. Ouvia-se sempre “ah, o Fulano sempre foi apaixonado pela Suzana, mas ela nunca deu bola”. E eram pessoas importantes. Ela não dava bola. Tinha sua legião de admiradores. Sim. Vaidosa e bonita. E elegante.

Eu lembro de uma vez, não sei em qual ano, ter comprado brincos de presente do Dia das Mães. Para a minha mãe, a Marize, tinham que ser discretos. Para a tia Suzana, se possível eu devia comprar a luminária da loja para ela pendurar na orelha. Ela usava brincos enormes. Fazia bronzeamento artificial. E mudava a cor de cabelo. Era a única pessoa que eu conhecia na época que fazia essas coisas. Que figura.

E tinha as fotos. A Suzana tinha fotos no quarto. Montes delas. Muitas delas, dos sobrinhos. Outras, de momentos felizes com suas amigas.

Eu fui ficando adulto… minha mãe sempre foi muito aberta em conversar comigo qualquer assunto. A tia Suzana, apesar de dizer muita sacanagem em suas piadas, era menos aberta e não me entendia tão bem quanto a mamãe, mas me disse coisas que foram importantes. Tinha uma visão meio desencantada das coisas. Algo que para um adolescente bobalhão e idealista, era um bom contraponto.

Por anos ela me pegou no colo. Até que chegou o dia em que eu passei a pegá-la com muita facilidade. O tempo passa. O tempo de todos nós passa. Um dia, ele acaba.

Foi uma vida intensa. Com dramas intensos dos quais eu só ouvi falar ou adivinhei por trás dos sorrisos brilhantes. Não era uma pessoa perfeita. Mas teve uma grande vida, a vida de uma grande pessoa. Seguida de uma morte longa demais.

A música parou. A festa acabou. Só restaram as fotos no quarto vazio.

Ah. Eu nunca chamava a Suzana de Suzana. Eu a chamava de Títia. Assim, com acento no primeiro “i”. Quando pequeno eu não sabia fazer a pronúncia certa, todo mundo achava a tal “titia” uma palavra bonitinha, e ai, ficou assim mesmo.

Adeus Títia.

Vai em paz. Dá um beijo na vovó.

E no Xande, na Selma, em todos os que já se foram.

Ah. E no chatinho do Hércules também. Aquele cachorro pedante…

Um dia, lá bem adiante, a gente se reencontra.

suzana

miltom

Milton, um grande ser humano, entrou para as estatísticas da RS 040

miltom

Águas Claras acabou de perder, hoje, Milton Lima dos Santos, uma de suas figuras mais queridas. Não encontrei hoje uma pessoa sequer que não estivesse consternada.

A notícia já correu no rádio e nos jornais, naquele tom sóbrio e neutro do bom jornalismo: uma van (do transporte de trabalhadores da Brahma) colidiu com uma moto, no quilômetro 25 da RS 040 (ali pela parada 80, 81…). O motociclista, Milton Lima dos Santos, 44 anos, morreu na hora.

Foi uma morte idiota e desnecessária. Mais uma de tantas.

Algumas pessoas correram a culpar o motorista da van. Outros, a espalhar o boato de que Milton havia bebido. Não foi nada disso. A razão mais provável foi um mal súbito que o fez perder o controle da moto. Se a estrada tivesse um canteiro central, ele provavelmente se esborracharia contra a grama, e sobreviveria, se não morresse do próprio problema que o “apagou”. Enfim.

acidente_milton

A morte do Milton provocou uma enorme comoção aqui na comunidade de Águas Claras. Era um sujeito querido por todo mundo, simpático, prestativo, muito simples e muito trabalhador. O Milton trabalhou durante anos no Condomínio Fazenda Country Clube, e atualmente, atuava no Goufe II. Morava no assentamento.

Havia recém acabado de pagar as prestações da moto e havia finalmente adquirido um carro novo para chamar de seu. E havia ganho, há pouco tempo, uma netinha.

Eu o conheci há pouco menos de uma década atrás, quando cheguei a Águas Claras. Eu era um “bicho de apartamento”, e o Milton me ajudou em diversas enrascadas no começo. Jogávamos conversa fora, na entrada do condomínio, e às vezes, ele me vinha contar alguma “barbaridade”, dando origem a algumas boas matérias do nosso jornalismo local.

O Milton era um baita profissional. Quando ele saiu do Country, lembro de ter comentado: “acho que o condomínio perdeu uma das melhores figuras que já teve por aqui”. Ele não era só bom na hora de fazer seu trabalho, era também uma grande pessoa. E falava as coisas de uma maneira divertida, direta, usando um vocabulário característico dele.

A gente sabia que ele contava as coisas erradas com indignação, mas ele tinha ao mesmo tempo um certo ar de naturalidade com a crônica da dura realidade. Era um sujeito pouco instruído, mas imensamente vivido.

Não faz muito tempo, meu pai resolveu vir a Águas Claras por dentro do assentamento, para evitar um engarrafamento-monstro na RS 040. Encontrou com o Milton, que o convidou para “vir aí qualquer dia, assar uma carne”. Pena: agora, vamos ter que cancelar esse churrasco.

Adeus, meu velho.