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Um caso prático para aprender sobre design de material eleitoral

Hoje, sem nenhum tipo de pregação política ou ideológica, eu vou usar aqui uma peça de propaganda eleitoral.

Abaixo, temos uma propaganda que circulava no Facebook. Ela é uma peça típica de candidato a vereador, neste caso, um contabilista aqui da cidade de Viamão que é meu amigo há muito tempo. Vamos utilizá-lo como caso de estudo.

Leandro original

Eu vi isso e resolvi redesenhar, só por brincadeira e para escrever este artigo. Prestem atenção: ele colocou o nome, o partido, o número, e alguns itens de sua biografia, além da foto. E tudo isso parece estar amontoado, como se faltasse espaço no tamanho determinado para a imagem (ou adesivo, não sei bem o que ele pretende fazer com esta arte).

Agora, veja como eu reorganizo tudo isso no mesmo espaço:

Leandro com cores carnavalescas

Ok, eu sei, não ficou uma obra de arte. A foto não é a melhor, também. Mas veja que agora as informações estão mais visíveis, mais destacadas, e em alguns pontos parece até sobrar espaço.

Quatro coisas são importantes, aqui, para fins de aprendizado:

1 – Maior nem sempre é mais visível. Na propaganda original, as letras foram esticadas para preencher todos os espaços possíveis. O resultado foi uma “selva de letrinhas” sem destaque nem fluidez, que tornou tudo menos chamativo.

2 – O espaço precisa respirar. Ainda na questão de espichar letras para cobrir tudo, temos uma prática muito feia: o amontoamento de objetos (textos, fotos, etc) e o preenchimento de todos os cantos. Isso é uma coisa que eu mesmo fazia antigamente em jornais, mas viver é aprender, então hoje posso dizer: os espaços vazios são indispensáveis para dar uma certa leveza e legibilidade à peça.

3 – Contraste, meus amigos, contraste. Você simplesmente não pode usar um fundo amarelo forte com letras vermelhas, muito menos azuis. Criar peças coloridas que devem chamar atenção (como é o caso dos adesivos eleitorais) é bem simples: transforme a imagem em preto-e-branco, ou tire um xerox da peça, e veja se ela continua legível. Se a resposta for NÃO, você errou.

4 – Evite serpentear elementos maiores. A peça original tem dois objetos gráficos: o logotipo do candidato a prefeito, e a foto do candidato a vereador. E basicamente há o resto todo do texto, que “flui” como um curso d’água que passa no meio de pedras. Isso raramente funciona. Veja que na minha versão, há uma distinção muito clara entre o espaço do vereador e o espaço do prefeito (que é pequeno, e fica embaixo, porque ele tem seu material próprio). No espaço do vereador as coisas parecem “conversar” entre si.

5 – Se você escolheu usar uma diagonal, seja fiel a ela. A peça original tem texto em pé e gráficos também. É uma escolha válida, e eu tenho amigos(as) que trabalham com design e odeiam diagonais. Mas eu adoro diagonais, e muitos de vocês também devem adorar.

Então, vamos lá: por questões de espaço e composição, fiz um “corte” em diagonal na parte de baixo, no qual coloquei a propaganda do prefeito. Depois, resolvi que o nome e número do Silva Leandro também seriam em diagonal.

Agora, pare e pense: se eu tivesse inclinado as letras para o OUTRO lado, não companhando o sentido de “subida” da parte inferior, esta peça ficaria parecendo trabalho escolar daqueles de colagem, que as crianças fazem. Ou panfleto de supermercado. Se você for usar diagonais, faça-as convergir para o mesmo sentido. No caso, tudo converge para o rosto do candidato, ou do rosto, dependendo de como se enxerga a coisa.

6 – Fluidez, meu amigo. Fluidez. O leitor precisa ser conduzido em sua leitura. Ele ai, naturalmente, começar pelo elemento mais chamativo e, dali, correr o olho para baixo e para a direita. Mas simplesmente dispôr as informações em forma de bloquinhos uniformes torna a peça muito monótona e não dá uma noção de para onde o leitor deve olhar primeiro, e para onde deve correr o olhar. Releia a parte final do item 5.

7 – Não, você não está desenhando o arco-íris. A propaganda original usa todas as cores básicas. A minha versão também. Eu, pessoalmente, não gostei do fundo amarelo. Minha versão preferida é mais neutra, mais limpa. Veja aí:

Leandro com cores suaves

O fundo azul, no entanto, deixou o esquema gráfico parecido com o dos candidatos do PDT, e eu fiz esse aqui, meio bizarro:

Leandro com fundo de pedra

E agora, finalmente, vamos falar de arco-íris. Seu candidato concorre pelo PSDB, digamos. Então por quê diabos você precisa colocar um fundo (ou letra) vermelho na propaganda dele? Só porque algum manual da internet disse que a cor vermelha chama atenção? Só porque outros candidatos usam vermelho e fica lindo? O que esta cor dirá sobre o candidato?

Ou o seu candidato está concorrendo pelo PSTU. Daí você viu um tom de verde maravilhoso e resolveu usar como fundo da propaganda. E ele entra em conflito com o vermelho berrante do logotipo do partido. Por quê insistir?

As cores em uma propaganda dizem algo. Observando a coligação deste meu amigo, percebi que temos ali o PRTB e o PRB. Ou seja, estamos falando de um grupo centrista conservador e, no caso, de um candidato que casa bem com a ideia. Então, fiz o seguinte:

Leandro com cores mais fortes

Veja que agora, finalmente, tirando marcações e o texto em preto, a propaganda é basicamente verde, amarela e azul. Como a bandeira nacional. E a parte do vereador parece ter uma harmonia de cores com a propaganda do prefeito, o que sempre é desejável (a menos que você tenha sido obrigado a engolir uma coligação que odeia, e queira deixar isso claro já no design da sua propaganda).


E a regra de ouro: você não está desenhando só para voce.

Sim. Óbvio que desenhos clean, sem muito texto e sem muitas cores são lindos e elegantes. Mas neste caso, estamos diante de um material de campanha eleitoral. Ele deve ser chamativo, popular, e passar seu recado.

Antes de definir como será o desenho de alguma coisa, faça as seguintes perguntas:

a) Quem vai ver isso? Para quem será direcionado?

b) Quais itens, frases e coisas o contratante faz questão que não sejam cortados?

c) O papel e qualidade de impressão escolhidos nem sempre são ideais. Essa minha ideia genial vai ficar legal no meio físico disponível?

d) Isso vai causar estranheza no público e, causando, será que é o momento e a campanha para causar estranheza? Como isso trabalha a favor do cliente?

e) Esse recurso visual super legal que acabei de aprender a usar, e que tem uma aparência moderna além de ser um atestado a minha excelência técnica, ele vai ter função nessa peça, ou vai só poluí-la?


Pensar desenho é coisa para malucos. É algo abstrato, algo que, no fundo, é particular do artista. Mas deve seguir alguma lógica. E espero ter aproveitado a ocasião eleitoral para ajudar a esclarecer alguns conceitos.

Até a próxima!

 

 

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Hierarquia inter-edições de tamanho de letras de jornal

O assunto deste post pode parecer surpreendente para algumas pessoas, mas é importante: jornais impressos têm manchetes de capa de tamanhos variáveis, e estes tamanhos devem obedecer a algumas regras.

É preciso estabelecer uma HIERARQUIA DE TAMANHO DAS MANCHETES E CHAMADAS.

Claro, essa hierarquia, dentro de uma mesma edição, é algo simples de entender. É elementar: se em um mesmo dia o presidente da República comete suicídio, e um time de futebol conquista um título, eu vou colocar em letras enormes a tragédia, e uma chamada menor para o esporte.

Mas pouca gente se dá conta de que é preciso estabelecer uma hierarquia entre edições. Tem uma história curiosa dos anos 70, que teria ocorrido em um jornal qualquer… eu ouvi esse causo na faculdade, não lembro que jornal era. Mas era assim: um diagramador queria usar letras gigantes na capa para uma conquista do time do coração dele e do editor-chefe. Mas o chefe não deixou. “Esse corpo de letra aí eu estou guardando para noticiar a queda da ditadura militar”.

O que quer dizer? Quero dizer que, se o jornal sempre usar letras monstruosas, coloridas, colossais, para tudo, os leitores vão começar a ver o destaque como algo banal. Então, estabeleça um limite, do qual as manchetes só passarão para noticiar fatos realmente marcantes. Assim, mesmo quem não é leitor contumaz de jornal (ou do SEU jornal), vai saber que NAQUELE DIA vale a pena ler.

Olhem o exemplo abaixo. O cara ocupou MEIA CAPA de um JORNAL STANDARD. Esse jornal aí, pendurado na banca, era pouco menos que um outdoor!

Mas a manchete justificava:

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O uso de letras monstruosamente grandes assim em QUALQUER manchete, o uso delas no dia a dia do jornal, inviabiliza que uma edição com algo realmente bombástico seja percebida desta forma pelos potenciais leitores.

Use com moderação.

capa confusa

Cinco erros comuns de diagramação de capas de jornal

Criar a capa de um jornal não é uma tarefa trivial, tanto é que vemos verdadeiras atrocidades, especialmente em jornais menores, do interior. Eu já falei sobre os segredos e dicas para fazer uma capa bem feita, primeiro esclarecendo para quê serva a capa, e depois, falando sobre a identidade visual que o jornal deve perseguir.

Embora o jornal impresso esteja, segundo os especialistas, com os dias contados, ele ainda é forte. O problema é que, hoje em dia, não temos mais um banco de profissionais dedicados à arte de montar páginas de jornais com excelência. Bons profissionais existem, mas vão progressivamente sumindo do mercado.

No interior, onde a imprensa de papel deve demorar mais tempo a morrer, às vezes o trabalho é feito por pessoas com pouca experiência. E é para elas que elaboro esta checklist de mancadas que precisam ser evitadas.

A lista não está em ordem de importância. É simplesmente uma maneira de torná-la compreensível.


1 – Confundir o leitor – Às vezes, temos na capa uma matéria meia-boca com uma bela foto, e outra matéria bombástica sem foto. Ou temos duas matérias que merecem capa. E é preciso, após desenhar a capa, dar uma parada para olhar e tentar imaginar o quê o leitor entenderá. 

Em um caso clássico de confusão PROPOSITAL, um jornal colocou uma manchete dizendo “Maluf eleito!”, com uma enorme foto do político. Abaixo, havia outra matéria, com uma enorme manchete: “É fogo!” Foi a forma de atacar o candidato vencedor sem levar processo.

Infelizmente, em 99% das vezes, as implicações e mal entendidos não são propositais. Abaixo, vemos um caso: há uma matéria sobre um festival de humor, e outra sobre abusadores de crianças. Considerando que boa parte dos transeuntes apenas dará uma olhada na capa, o palhaço que posou para a imagem provavelmente terá bastante dor de cabeça:

capa com mancada de combinado


2 – Não separar direito conteúdo de propaganda. É um erro mortal. Um pedaço da capa deve ter publicidade, e o outro, as manchetes e chamadas. Bem distintos. Jamais separe o conteúdo editorial em “quadrinhos” cercados de propaganda, nem vice-versa.


3 – Combinar cores que não combinam. Se sua manchete vai ser vermelha, o fundo não pode ser preto. Se o fundo for preto, a letra não pode ser marrom. Destaque. Nunca esqueça: destaque!

Abaixo, um jornal no qual eu mesmo colaborei, e no qual derrapamos na curva das cores. Perceba como ficou ruim para ler a manchete, e imagine que alguém tente ler isso na rua, com o jornal pendurado na banca, debaixo do sol que reflete o verde do fundo:

capa sem contraste


4 – Fotos minúsculas. Se a sua foto para a capa é ruim, não use-a. Bote a manchete em cima de um fundo com alguma cor, ou use outra imagem. Não dê ao leitor a impressão de que há um quadrinho borrado no canto ao lado do texto.

jornal com fotinho


5 – Manchetes-TCC. E por TCC estou falando de Trabalho de Conclusão de Curso, ou seja, um texto mega-longo que é praticamente uma matéria. Resuma. Frases curtas. Chamadas. Impacto! Abaixo, um exemplo de NÃO FAZER:

jornal com manchete grande


E por enquanto é só, pessoal!

Ah, antes que eu me esqueça: uma dica que já dei em outro artigo, e que não cansarei de repetir até o fim dos meus dias (ou dos jornais impressos, o que vier primeiro): não cometa o erro supremo de enganar o leitor! Não faça na capa uma chamada mentirosa sobre uma matéria, que levará o coitado do público a abrir as páginas, com avidez nos olhos, para em seguida perceber-se vítima de um embuste. Em duas ou três edições, isso acaba com a credibilidade da publicação.

Agora, sim, agradeço a todos que leram mais este artigo até o final, e espero que ele tenha sido útil. Até o próximo!

 

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O que a capa diz sobre a identidade do seu jornal

Hoje, vou dizer a vocês que, sem sombra alguma de dúvida, o tipo de desenho DIZ MUITO SOBRE QUEM É O JORNAL E PARA QUEM ELE FOI ESCRITO.

Muitas pessoas no ramo da comunicação infelizmente ignoram isso, e acabam optando por um desenho simplesmente por ser bonito ou se parecer com o de outro veículo totalmente diverso, que o diretor gostou. Mas há alguma ciência por trás do design da primeira página de um jornal.

Um exemplo rápido, só para a gente começar:

dois_jornais

De um lado, temos o Correio do Povo, um jornal de 120 anos de idade, respeitado, histórico, focado em um público que considera-se educado e que lê notícias com mais de 10 linhas de texto. É um jornal que traz até coisas de literatura e cadernos sobre história (explico para quem não conhece). Note que há texto na capa, notas, e praticamente todo o espaço é branco, com letras pretas. Há uma fonte serifada daquelas clássicas, parecida com o Times New Roman, e tudo parece mais “sério” do que na capa do lado.

A outra é uma capa do Diário Gaúcho, o jornal mais barato e de maior circulação no Rio Grande do Sul. É um jornal popular, desses que os trabalhadores leem no ônibus, todo mundo dá aquela olhada, e faz grande sucesso entre guardinhas em geral. A capa tem muito menos texto, as fotos são maiores e em profusão, e a manchete principal é maior, mais berrante, e é uma frase de impacto (inclusive, usando o tempo do verbo incorreto, porque o sujeito em questão JÁ FOI para a cadeia). Gostosas seminuas, prisões, mortes, celebridades e futebol normalmente dominam a capa.


Tipologia

Nesses dois casos, além da distribuição das matérias (alinhadas em um, e “carnavalesca” no outro), das cores e tudo mais, precisamos também atentar para as FONTES escolhidas. A tipologia. Eu ainda vou falar muito sobre tipologia aqui no blog. Ela é importante, e é um assunto de grande interesse (meu, e deveria ser de vocês também). De fato, eu ia fazer minha monografia da faculdade sobre isso, mas por falta de literatura a respeito do assunto, optei por outra coisa.

De qualquer forma, minha teoria em 2004… e até hoje… é que a tipologia diz MUITO sobre o impresso. Notem como o jornal para pessoas mais “sérias” usa letras serifadas, parecendo algo feito há décadas. Parecendo um livro. Bom. Este tipo de letra favorece este tipo de jornal, porque ele vai ter textos longos e aprofundados.

Já o outro, o “popularzão” opta por fontes mais “modernas”, e provavelmente tem textos bem mais curtos e genéricos.


 

Assunto e linguagem

Também o texto que vai na capa e a ESCOLHA DAS MATÉRIAS DIGNAS DE CAPA diz muito sobre o jornal. Esses dois exemplos aí são do mesmo dia. Veja que um optou por botar uma matéria de economia, e o outro, sangue. Até a forma como as frases são escritas é diferente.

Não há uma fórmula perfeita para criar essas frases. Elas têm conexão com o público, com o tempo, com o uso da lingua. Um certo “feeling” do que combina ou não combina. E não é algo fixo. Veja abaixo essa capa dos anos 40:

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A frase parece ter saído da boca do Mestre Yoda, com os elementos em ordem que hoje não se usa mais. Mas na época, passou seu recado.

Por isso composição das FRASES diferencia tudo.

A gente não pega um Correio do Povo, por exemplo, e lê nele uma manchete do tipo “Homem traído enfiou a cabeça do Ricardão no forno a lenha”. Mas no Diário Gaúcho, provavelmente já houve manchetes piores.

O jornal Meia Hora (que eu uso, sim, muito, como exemplo aqui no site – porque por mais que se possa questionar seus critérios jornalísticos, é um periódico que faz capas lendárias) é famoso por usar trocadilhos e frases de duplo sentido. Além de debochar dos sujeitos envolvidos em suas manchetes. Isso passa uma ideia de pouca seriedade e muito escracho… que é EXATAMENTE o que o jornal faz.

meia_hora_horrendo

Claro, não estou aqui dizendo que necessariamente um jornal SEJA aquilo que ele PARECE SER, mas, se queremos fazer um trabalho profissional, devemos ao menos saber o que estamos fazendo e qual imagem queremos passar.


Agora, falemos de uma coisa muito útil: O USO DAS CORES É ESSENCIAL, E NÃO PODE SER DESPERDIÇADO.

Se vocês estão fazendo um jornal COLORIDO, ou ao menos, com a CAPA COLORIDA, então NÃO diagramem uma capa “estilo preto e branco”, só com textos em preto, e fotos. Isso é desperdício do recurso.

Não saiam por aí colorindo as letras como um arco-íris, porque isso, claro, vai avacalhar a capa. Mas permitam-se usar cores de fundo. Elas são MUITO ÚTEIS.

O uso de cores de fundo e nas letras diz bastante sobre o TIPO DE EMOÇÃO que se quer despertar no leitor. Vou mostrar duas capas do lendário Meia Hora, só para a gente olhar:

meia_hora_duas_capas

Aqui, vemos um fundo cor-de-rosa na matéria sobre o novo programa da Fátima Bernardes (claro que usaram um trocadilho besta, mas e daí?). Já na matéria policial horrível da outra capa, o fundo é preto. Dá a impressão de algo pesado, terrível.

Colocar uma foto, por exemplo, do “casal telejornal” com um fundo preto daria ao leitor a impressão de que a manchete é sobre algo terrível. Até poderia angariar um pouco mais de venda na banca, mas daria ao público a impressão de um embuste, destruindo qualquer chance de fidelização daquele leitor.

É importante não criar e destruir expectativas nas capas de um jornal, caso se pretenda fazê-lo durar. Jornais impressos ainda são vistos como veículos confiáveis e tradicionais, e brincar com a cara do leitor não é boa ideia.

O assunto “capa” ainda voltará a ser tratado. Aguardem!

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Promover políticos na capa é ruim para a publicação e para eles próprios

Este post é destinado especificamente para os diagramadores e editores de revistas, jornais e outras publicações impressas.

Na faculdade de Jornalismo, a gente aprende que o jornal deve ser imparcial, apolítico, e coisa e tal. E de fato, sempre que possível, é preciso manter distância de paixões e ideologias na hora de escrever. Mas, ninguém aqui é criança e vamos falar de uma coisa que existe: jornal com financiamento de políticos ou, ao menos, com simpatia por eles. Algo muito mais visível no caso da pequena imprensa das cidades do interior, mas que pode ocorrer em qualquer nível.


UM AVISO AOS INGÊNUOS

Só porque eu escrevo sobre alguma coisa, não quer dizer que eu a apoie ou ache que ela é o ideal. À medida que se fica adulto, passa-se a admitir que algumas coisas existem, e pronto, a gente gostando ou não. E às vezes a gente até acaba participando delas, por necessidade. Então, não me venham com discurso moralista do tipo “ah, é uma apologia ao mau jornalismo”. Não é apologia. É só uma lição sobre um jeito de trabalhar que existe e que está por aí, gostemos ou não. Ponto.


O QUE INTERESSA

Digamos que você esteja fazendo um jornal um pouco tendencioso (ou não), e que ele esteja (ou não) recebendo patrocínio de alguns políticos. Daí, você para e pensa: como melhor promover determinadas figuras apropriadamente?

O impulso publicitário/bajulatório natural de qualquer um nesta situação, seria dar CAPA para o figurão. O diretor do jornal pensa “ah, o cara vai ficar com a cara dele igual a um pôster pendurado na banca!”. Ledo engano.

O jornal que tem político, recebendo elogio ou sendo exaltado, na capa… é uma droga. Sério.

capa com presidente da camara

Se o felizardo for sempre o mesmo, tanto pior: o jornal logo ganhará a alcunha de “panfleto do Fulano”. Uma porcaria. Vocês, diretores de jornais assim, já devem ter notado que os exemplares “encalham” nos pontos de distribuição. E a razão é essa aí: o político na capa!

Jornal com político sendo “ensebado” na capa não presta. Porque ninguém pega ele para ler. Se for um jornal vendido nas bancas, tanto pior. Não vai vender nada. Os exemplares deixados em institutos de cabeleireiro e salas de espera vão mofar, porque as pessoas não terão interesse em abri-los.

Para quem está fazendo o jornal, é frustrante. Para quem está financiando ele, ou de alguma forma conta com a divulgação dada por ele, é um desperdício.

A única maneira admissível de termos políticos sendo promovidos na capa de um jornal ou revista é sob a forma de propaganda eleitoral paga, em época de campanha, em espaços destinados a este tipo de publicidade.


NUNCA ESQUEÇA O BÁSICO

Lá na faculdade de Jornalismo da PUC, aprendemos (não lembro com qual professor), que a capa não deve ser encarada apenas como mais uma página do jornal. Ela tem muito mais a ver com publicidade do que com jornalismo. É ela que “chama” o leitor. É ela que “vende” o jornal.

Mas eu já falei sobre isso.

Neste sentido, é sempre bom aprender com jornais que conseguem fazer capas lendárias (mesmo que sensacionalistas). Capas devem despertar curiosidade. 

meia hora

Então, obviamente, na capa, coloque uma manchete chamativa. Algo que faça as pessoas quererem abrir o jornal para olhar o que tem dentro. O assunto da manchete vai depender do tipo de jornal e do público-alvo no qual estamos mirando (eu falo disso em outra ocasião). O importante é que faça os leitores quererem ler o jornal.

“Mas o patrocinador e/ou amigo não vai ficar irritado?”, perguntarão alguns. E eu digo uma coisa bem certa: senhor político, o que o senhor acha melhor? Temos duas opções:

A – O jornal sai com a cara do político na capa. Dos 10 mil exemplares impressos, apenas uns 5 mil saem das bancas. Como a capa é desinteressante, eles são lidos por no máximo umas 15 mil pessoas e depois postos no lixo.

B – O jornal não mostra o político na capa. Mas tem uma matéria dele, lá dentro. A capa fica para o assunto mais bombástico e absurdamente interessante disponível. Os 10 mil exemplares impressos vendem feito água no deserto, e são lidos por 40 mil pessoas.

E aí? É melhor ser visto na capa por menos gente, ou nas páginas internas por muito mais gente? Qualquer pessoa sensata sabe que a segunda opção é a melhor, sob qualquer ponto de vista. E com isso espero estar contribuindo para a sobrevivência de quem, infelizmente, tem que fazer jornal tendencioso a mando de grupo político. Não é o ideal, mas acontece.

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Como, e para quê, elaborar a capa de um jornal

Na verdade, não existem “segredos”, nem técnicas fixas para desenhar uma boa capa de jornal impresso. Não esperem, de mim, um tutorial. O que eu vou dar aqui são diretrizes universais para orientar este trabalho de criação.


Jornais são um universo variado, e cada um deve ser desenhado levando em conta as particularidades do público-alvo, e o tipo de imagem que o periódico quer passar.

Hoje, vamos ver o seguinte aspecto: A CAPA NÃO É, DE FORMA ALGUMA, A MESMA COISA QUE O INTERIOR DO JORNAL.

O que eu quero dizer é que, embora ela obedeça a alguns padrões do projeto gráfico (logotipo, cores principais, fontes, etc.), ela NÃO É uma página comum. Não segue a colunagem usada para as matérias, não deve ter textos longos e nem retrancas. A capa é um espaço mais livre, no qual o “lado artista” do diagramador pode sentir-se solto para desenhar uma pequena obra de arte.

Matérias inteiras na capa são desperdício de espaço. No máximo, notas rápidas, textos curtos, e que levem a “ganchos” para dentro do jornal. O leitor não pode sair satisfeito da capa, senão, ele não abre o exemplar. Se o sujeito cai na armadilha de escrever textos inteiros, ele transforma a capa em um tijolão sem “chamada” nenhuma.

Abaixo, uma “capa” do jornal russo Pravda, de algum tempo atrás. Os russos criaram tendências do design de impressos no século XX, mas o Pravda era normalmente medonho.

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Claro, o Pravda era o jornal oficial do governo soviético. Então, ele tinha basicamente todo o povo como leitor mais ou menos obrigatório. Incrivelmente, as capas antigas, dos tempos socislistas, eram MENOS TIJOLESCAS do que essa aí. Traziam fotos grandes… de gente comunista importante… mas enfim.
Mesmo no mundo atual, jornais mais antigos, com uma base de leitores formada, às vezes optam por não usar a capa como “chamador”. É o caso do Estadão, que existe há décadas.

Mas nem mesmo ele abusa do “tijolismo” na capa:

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Eu, pessoalmente, NÃO GOSTO de capas nesse estilo. Acho que capa é realmente um espaço para ser bonito, ter só chamadas, fotos enormes, muita cor e muita vida. Mas muita gente trabalha em outra linha, e isso realmente depende de uma visão muito clara sobre a finalidade da capa. Sintam-se livres. Só não façam o maldito tijolão!

Agora, a pergunta: qual a finalidade do desenho da capa?

Qual?


QUAL A FINALIDADE DE DESENHAR UMA BOA CAPA?

Ou melhor: o que devemos PERSEGUIR ao criar uma capa?

Em jornais que são vendidos em bancas ou distribuídos na rua, a capa deve ser pensada como um “cartaz”. A pessoa está passando, olha rapidamente na direção onde o impresso está exposto, e a capa deve levá-lo a caminhar naquela direção, e pegar um exemplar.

Assim, ESQUEÇA manchetes em letras discretas, ou frases muito longas. Se a foto é boa, ela deve ser grande. A manchete deve ser chamativa. Caso não hajam boas fotos para a frente, esqueça as fotos, use letras grandes. O importante é o sujeito bater o olho, ler uma frase ou ver alguma coisa, e “BUUUM!!!”, ter aquele impacto, aquela vontade de ir lá conferir a reportagem.

Um exemplo bem óbvio: imagine que você é um português, e está ali, acostumado com aquele governinho de sempre, aquela vidinha, andando pelas ruas de Lisboa, assobiando, olhando as gatinhas, quando de repente, na banca…

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“Como assim tomaram o poder? Toma aqui o dinheiro, me dá esse jornal, moço.”

Entenderam?

Já em impressos de circulação interna… é exatamente a mesma coisa!

O jornal estará em cima de uma mesinha, ou em um expositor, e o leitor tem que ser seduzido a abrí-lo. A diferença aqui é que, como ele será visto de perto, em um ambiente menos agitado, dá para colocar mais chamadas na frente. E essas chamadas devem cobrir, por cima, a variedade de assuntos que estão dentro. O leitor tem que ser fisgado por alguma coisa.

Esse é o ponto central de toda a ciência, teoria e arte das capas: elas são mais ou menos cartazes. Elas são placas. Elas são chamadores.

Uma capa tem que despertar interesse. Tem que fazer o cara abrir o jornal.
Isso é o central. O principal. O princípio, o fim e o meio.

Entendido?

Voltarei ao assunto “capa” em outras oportunidades, porque ainda temos que falar de tipologia, cores e propaganda.

Fiquem ligados!