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polauto

Polauto, mais uma “gauchada” automobilística

Antigamente, o governo registrava veículos modificados, normalmente feitos a partir de chassi e motor da Fusca e seus assemelhados. Assim, surgiram clássicos como o Puma “boxer”, o Miura, e os mais diversos Buggys.

E nesse clima de oba-oba, uma empresa de Porto Alegre criou o Polauto, fabricado nas décadas de 1970 e 1980. Trata-se de uma pequena pick-up cabine dupla, com caçamba aberta, e muitas bizarrices. Há exemplares de caçamba fechada.

polauto fechado

Esse carro é um Frankenstein. Chassi, mecânica, portas e para-brisa de Brasília, carroceria de fibra com janelões mega-grandes ao lado dos bancos de trás e o teto com um “degrau” no meio. Na frente, há uma réplica de uma grade, completamente inútil. Os faróis traseiros variavam conforme a época, mas eram sempre “emprestados” de modelos consagrados de carros contemporâneos.

Hoje, o visual dessa verdadeira “gauchada” parece aleatório e sem sentido. Não era. Os janelões eram uma imitação da F-1000 (e alegria dos demais motoristas quando meninas de shorts viajavam no banco de trás). O degrau no teto e a grade não tinham qualquer função prática, eram só “boniteza”.

polauto bonitinho

Eu já andei em uma Polauto (claro, por que não?), e é um utilitariozinho bem resistente e prático. Infelizmente, o espaço interno é de chorar. Outra bizarreira é o ruído do motor, reverberando na fibra.

Existiram modelos diferenciados de “Polauto” (Look, Pagus, acho que Emis), mas tudo, no fim, são retoques estéticos.

Até hoje existem muitos Polautos rodando pelo Rio Grande do Sul, em estados variados de conservação, pois o carrinho provou ser um bom utilitário “para trabalho”, capaz de levar alguma carga, e com a durabilidade conhecida do Fusca e seus variantes, é “pau para toda obra”. Especialmente em regiões litorâneas, onde a corrosão das carrocerias de metal representam um problema.

Poucos exemplares, no entanto, são vistos por aí recebendo verdadeira conservação. A maior parte é usada como “carroça”, o que quer dizer que um Polauto andando torna-se cada vez mais raro.

polauto_costas

Fusca_x_Fusca_7

Carro novo, seminovo, velho, ou clássico: pense bem antes de comprar

Hoje acordei ao som do Bom Dia Rio Grande, da RBSTV. Trata-se de um noticioso matinal de boa qualidade, com algumas reportagens que escapam ao padrão breaking news, falando sobre direitos do consumidor e coisas afins. Pois hoje de manhã, eles estavam falando sobre compra de carros usados e novos, e eu vi pela milésima vez aqueles “especialistas” dando suas filosofadas.

Fusca_x_Fusca_7

Basicamente, eles dizem que o ideal é comprar um carro zero, mas quando o orçamento aperta, as pessoas devem comprar um seminovo, “com no máximo dois anos de uso”, porque a partir do terceiro ano, começam as manutenções mais pesadas. Carros com mais de cinco anos de uso devem ser evitados como se fossem o bafo do Exu.

Eu não quero desmerecer as qualificações destes estudiosos do assunto, mas gostaria de expor minhas próprias opiniões baseadas na experiência pessoal e nas experiências que vejo acontecerem ao meu redor. E acreditem: eu sou meio viciado em oficina mecânica, adoro remexer nesse assunto, e se aqueles especialistas que nunca se sujaram de graxa podem falar, eu também quero ter o meu direito a dar palpites.


Carro zero

Aqui falamos de carros novos, comprados na loja, recém saídos da fábrica.

carro novo

Carro zero é uma ótima, é a melhor coisa que há. Pega-se um carro com defeito zero, sem chances de ser batido – e o melhor, com garantia. Só que tem um problema: o preço. O carro zero é tão caro quanto uma casa em uma vila, e só pode ser comprado à vista por quem tem muita bala na agulha. Ao brasileiro comum, resta a alternativa de pagar o carro em prestações, normalmente em 5 ou 6 anos. E aí, o cara entra em uma arapuca, ficando preso a um verdadeiro “aluguel” de carro.

Quando o “zerinho” chega aos 4 ou 5 anos de idade, e já está quase pago, começam os problemas mecânicos. O cidadão vê-se obrigado a dar o ex-zero como entrada de um outro carro, novamente um Zero Km, ficando atrelado a um novo plano de parcelamento. E assim por diante, levando a pessoa, na prática, a passar a vida toda “pagando aluguel” de carro, ou seja, o item “parcela do carro” nunca mais desaparece da folha de despesas da família.

Este relacionamento estilo “aluguel” pode ser até cômodo, se a pessoa puder pagar de forma perene e vitalícia um valor mensal para ir trocando de carro a cada cinco anos, porque as chances de ficar empenhado na estrada são mínimas. Dá para botar a família a bordo e pegar a estrada de cabeça leve, de boas.

Nos últimos anos, um fator passou a dar um alívio, para as despesas com IPVA e parcelas dos carros novos: a economia. Até os anos 1980, o combustível era uma coisa à toa, que não importava na hora de comprar carro. E até o fim do século XX, esta ainda era uma questão secundária. Hoje, é o ponto central de qualquer carro. Os motores modernos são desenvolvidos para poluir e gastar cada vez menos. Com exceções, claro. E temos os carros híbridos, temos carros com start-stop, temos um monte de tecnologias que ajudam neste sentido.
Não apenas isso, mas os carros modernos incorporam computador, GPS, monitoramento de tudo, têm freios eficientes, e controles cada vez mais ergonômicos.

Há apenas uma grande armadilha para o dono ingênuo de carro novo, que é a relação com a concessionária: a manutenção da garantia dependerá das revisões, mantidas em dia na autorizada da marca. Isso nunca sai barato. E muitas vezes o serviço feito não corresponde ao declarado. Então, é preciso manter o olho vivo, e não ser trouxa.


Carro seminovo

São carros entre 1 e 5 anos de idade.

carro seminovo

Normalmente apresentam boas condições mecânicas e visuais, têm design moderno e quase tanto status quanto o zero. Custam um pouco menos, claro. Se o sujeito comprar um desses em poucas parcelas, e depois de ter o carro pago, fizer uma bela recauchutada no mesmo, poderá então rodar muitos anos com um carrinho de primeira. O problema é que, se a grana for meio curta, cai-se na mesma armadilha dos “zeros”: quando o carro está pago, e as prestações deixam de ser um fantasma sobre o contracheque, já está na hora de passá-lo adiante e se enfurnar outra vez em financiamentos. 

Comprar um seminovo parcelado pode ser uma mancada. Enquanto carros “zero” são parcelados em condições especiais (juro zero, comece a pagar não sei quando…), com os seminovos a bondade é menor. Até alguns anos atrás, seminovos eram simplesmente carros usados, tratados assim pelas financeiras, que atochavam juros em cima do comprador. Hoje, o negócio de seminovos já é tratado de forma diferenciada, como uma categoria à parte dentro dos carros de segunda mão, e algumas facilidades.

Esta categoria de carros é onde moram algumas armadilhas bem perigosas do mundo da picaretagem automobilística: alguns seminovos são oferecidos baratinho, e parecem uma chance de ouro de o sujeito chegar perto do carro novo. Aí o cara compra. E descobre que, entre o dia em que o antigo dono comprou o carro zero, e o dia em que o pôs à venda, alguma coisa desastrosa aconteceu, e o possante virou uma bomba.

Olho vivo para evitar as frias!


Carro intermediário

São carros entre os 6 e os 14 anos.

carro intermediario 2

Esses carros foram feitos na primeira década do XXI, e possuem características em comum com os carros da próxima categoria. Só que normalmente estão em melhor estado de conservação.

Aqui encontramos verdadeiras pérolas, carros pouco rodados mas super-desvalorizados, que custam baratinho e podem surpreender pela qualidade. Eles vêm com injeção eletrônica multiponto, as forrações das portas já seguem o padrão moderno (são “cheinhas”), os painéis são semelhantes aos modernos. E já são carros mais ou menos econômicos.

Uma das vantagens deste tipo de carro é que, estando nas ruas há bastante tempo, e não tendo ainda caído no esquecimento, sempre haverão muitos mecânicos capazes de dar manutenção.

O problema é que nesta categoria temos muitas armadilhas. Carros que estão totalmente carcomidos por uma ferrugem que não é aparente (em revendas, descaradamente maquiada), então, todo cuidado é pouco.

Outra coisa a pesquisar antes de comprar um carro nesta faixa é a disponibilidade de peças. Esta é uma preocupação que seria fútil nas duas faixas anteriores, mas aqui torna-se essencial: ao longo de uma década, modelos saem de linha, fábricas fecham, e coisas acontecem. E o suprimento de peças pode escassear.

Também é importante conhecer ex-donos do modelo pretendido, porque depois de alguns anos uma geração inteira de carros já tem, bem consolidadas, suas listas de “pérolas” e “bombas”.


Carro semivelho

Esses carros, feitos de 15 a 25 anos atrás, merecem que eu faça muitas advertências.

carro semivelho

São a pior naba que existe. Não adquira um a menos que você esteja herdando um carro desses de família, cujo passado seja bem conhecido. Do contrário, saia correndo.

Esses carros normalmente estão prestes a necessitar de reformas pesadas, e já foram fabricados na era da injeção eletrônica. Só que não estamos falando de Injeção Eletrônica multiponto feita com alguma expertise: estamos falando de experimentações, sistemas primitivos de IE, coisas assim.

Os mais velhinhos vêm com injeção monoponto (às vezes chamado de “carburador eletrônico” por mecânicos mais velhos), o que chega a ser uma coisa boa porque temos apenas um bico injetor para limpar, e a manutenção é praticamente só mecânica, com pouca eletrônica.

Os mais “modernos” desta faixa é que são um problema: eles possuem ar condicionado, vidros e travas elétricas, injeção multiponto… mas tudo isso feito na infância dessas tecnologias. São sistemas precários, e depois de tanto tempo, carcomidos, propensos a incomodar o tempo todo. Se o carro for 16 Válvulas (montes de carros assim foram feitos, por motivos que só o Demônio pode explicar), pior ainda.

Nesta faixa de idade, prepare-se para o uso da expressão “fazer o motor”, porque ela torna-se uma ocorrência praticamente obrigatória na vida do feliz comprador.

Outro fator a se levar em conta com um carro desta faixa é que as viagens longas exigem muito planejamento: superaquecimento do motor, vazamentos e outros percalços não são incomuns.

Poucos modelos desta época são, hoje, boas escolhas. Eles existem, estão por aí, mas é um jogo de sorte saber no quê se está investindo. O bom é que o investimento é baixo.

Estes são veículos que atingiram algo próximo do “fundo do poço” da desvalorização, e ao comprar um deles, esqueça o fator “preço de revenda”: estamos falando de um carro que ficará na tua mão até parar de rodar, ou até ser “torrado” por um preço irrisório, ou sofrer um “downgrade” para algum membro mais jovem da família.


Carro velho

São os carros com mais de 25 e menos de 40 anos de fabricação.

carro velho

Segundo os “especialistas” da TV, devem ser evitados a todo custo. Mas a experiência prática demonstra que, garimpando com muito cuidado, pode-se encontrar carrinhos do início da década de 1990, e até dos anos 1980, em ótimo estado de conservação. Esses carros têm a seu favor a extrema simplicidade mecânica – a começar pelo fato de que eles são equipados com singelos carburadores.

O carburador é visto como uma coisa arcaica e estúpida pela maioria dos fãs de automóveis novos. Mas, pensando na prática, ele pode ser regulado pelo próprio dono, sem nenhum computador ou aparato especial, e sua manutenção custa até 20 vezes menos.

O único grande problema dos carburadores é que os mecânicos capazes de mantê-los estão, na maior parte dos casos, aposentados, velhos ou mortos. Estamos falando, portanto, de um carro cuja manutenção exigirá espírito de “faça você mesmo”. Ou a amizade com um mecânico de mão cheia. O resultado, no fim, vale a pena. Afinal, estamos falando de automóveis de uma idade de ouro.

Carros desta faixa de idade estão normalmente aos pandarecos, caindo aos pedaços, cobertos de ferrugem, arrastando-se rumo ao ferro-velho. Mas alguns exemplares em bom estado ainda circulam. E aqui temos algo curioso: carros VELHOS em bom estado custam normalmente mais caro do que os SEMIVELHOS, e isso tem uma explicação: são modelos que estão às portas de entrar para a categoria dos Clássicos.

Já existem exemplares desta faixa que, bem conservados, desfilam em encontros de carros antigos. Já atraem olhares e já figuram em museus.
Existem alguns mitos sobre carros realmente velhos.

Eles não são, necessariamente, mais caros na hora de manter. É evidente que um carro ano 2002 tem menos potencial para dar problemas grandes do que um 1984. Mas se o sujeito comprar, por exemplo, um Corsa 2002 e ele tiver apenas um probleminha pequeno, como a queima do sensor de rotação e da bobina, o rombo pode ser tão grande quanto o custo de “fazer o motor” de um Corcel II.

Também a indisponibilidade de peças é outro mito dos carros velhos.
Eu, pessoalmente, passei muito mais trabalho procurando peças para um Corsa 99 que eu tive, do que para um Premio 91. Tem muito carro 2007 cujas peças são caríssimas e só existem na autorizada. Já quem tem Chevette, Uno Mille e Golzinho quadrado raramente passa sufoco na hora de arranjar as suas.

Carros velhos, mesmo em ótimo estado, têm algumas desvantagens claras. Os sistemas de freio e suspensão não garantem tanta segurança, o consumo é bem mais alto do que o aceito hoje em dia, e em muitos casos, possuem coisas totalmente fora do padrão. Um bom exemplo são os Del Rey e Corcel, da Ford, que usavam três parafusos para afixar cada roda, diferente do padrão universalmente usado de quatro furos (e quem vende roda de três furos hoje?).


Carros Clássicos

Eu resolvi adicionar esta categoria, aqui no final, apenas porque a havia citado há alguns parágrafos. Carros clássicos são modelos fabricados há mais de 40 anos.

carro classico

É muito raro que alguém com um mínimo de sanidade mental compre um desses carros para o uso diário, “de serviço”. Normalmente, o sujeito possui outro carro de uma das faixas acima, e compra uma dessas antiguidades por hobby, para ir a exposições, passear no domingo, etc.

São veículos normalmente gastadores de combustível, com peças raras e uma mecânica mantida por puro amor ao antigomobilismo.

Um veículo desta faixa, em bom estado, não sai barato. E em mau estado, não vale quase nada (aliás, fora os exemplares mantidos por donos apaixonados, é difícil achar um carro tão velho que ainda ande).

Então, nem vou me aprofundar neste grupo. Não estamos falando de carros que servem de veículos de transporte, e sim, de bibelôs sobre rodas.


Uma questão sobre velharias: quantos foram feitos?

Algumas coisas são essenciais na hora de comprar carros semi-velhos ou velhos. E uma delas é parar para ver quantas unidades aquele carro vendeu. Sim, porque, quanto mais um modelo vendeu, mais unidades dele há rodando nas ruas. E quanto mais presente nas ruas, mais interesse as fábricas terão em continuar fazendo peças para eles.

avenida paulista

A tendência, com o gradual desaparecimento de veículos de um determinado modelo, é que as peças também sumam, mas enquanto houverem exemplares soltando fumaça por aí, alguém estará fabricando partes de reposição.

Também há uma regra geral: carros populares, por serem mais simples, costumam ser mais fáceis de manter e ter mais peças à disposição no mercado. Carros de luxo, depois de rodarem por uns anos, normalmente caem naquela faixa na qual “rico não quer mais, e o pobre não pode manter”. Exceções existem, como o Chevrolet Monza (um carro de luxo que ainda existe às pencas), e o Fiat 147 (um carro popular que tornou-se raro, mas que tem algumas peças intercambiáveis com as do Uno – aqui temos que dar um desconto, pois o 147 está quase entrando para o rol dos Clássicos).


Conclusão

O carro ZERO é a melhor pedida, caso se possa dar uma boa entrada ou comprar um à vista. Mas aí, temos outro problema: até há pouco tempo atrás, eu não via nenhum carro novo que me despertasse a mínima vontade de possuí-lo. Houve uma onda, dos anos 90 em diante, de todas as fábricas fazerem carros da mesma faixa seguindo linhas de design muito semelhantes, o que acabou tornando tudo um grande repeteco.

Quem não pode comprar novo, acaba andando de carro velho. É melhor ter um carro mais antigo, do que ver-se em apuros financeiros por pura vontade de não parecer pobre diante dos vizinhos.

Comprar carro antigo não é simples como comprar um carro novo. É preciso garimpar muito, procurar em todos os lugares, chafurdar por aí em busca de um bem conservadinho. E é preciso também ter consciência de que o carro não virá perfeito, que ele tem 15, 20, 25 anos de uso, e precisará de uma reforma geral antes de ser considerado “pronto para uso”.

A vantagem é que com isso ainda se consegue ter um carro com personalidade, uma coisa que parece estar em falta na indústria automobilística hoje em dia.

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Arnaldo Fossá e seu VW SP2

Um belo dia, saí para o almoço e deparei com essa raríssima lenda me esperando.

Poucas pessoas hoje em dia podem dizer que viram de perto um SP2 andando. E menos gente ainda pode dizer que já entrou em um. Eu, por sorte, tenho como amigo o piloto e lenda Arnaldo Fossá, terror dos autódromos de quando eu era criança.

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O Fossá tem vários carros legais, e um deles é esse VW SP2, que ele estava dirigindo algum dia no inverno do ano passado e me mostrou. O modelo é um esportivo, muito aerodinâmico, com mecânica semelhante à do Fusca, feito pela Volks nos anos 1970.

O barulho desse motor é muito gostoso. O visual é esse “futurismo retrô”, absolutamente fantástico. O único defeito do carro é o espaço interno: dizer que ele tem dois lugares é exagero: eu diria que ele tem duas vezes 75% do espaço necessário para uma pessoa.

Mesmo assim é um barato. É uma dessas coisas, de uma época mais inocente e mais experimental, que a indústria não cria nunca mais. Vale a pena encolher as pernas, torcer um pouco o pescoço, e dar uma conferida.

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