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batalha de collecchio

As lições dos soldados da Batalha de Collecchio para nossas vidas

 

Este post é, em sua maior parte, a reprodução de um texto alheio, do coronel Hiram Reis e Silva. Achei interessante reproduzí-lo porque ele traz um exemplo do bom e do mau comportamento de quem vence uma disputa. E é uma demonstração cabal do princípio já ensinado por Sun Tzu em “A Arte da Guerra” (há dois mil e quatrocentos anos atrás):

“Quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele, caso contrário, ele lutará até a morte.”  

E também é uma lição sobre honra entre adversários, mesmo que mortais. Sobre a honra que o vencedor deve ter, acima de tudo.


batalha de collecchio

O relato começa em Abril de 1945. Os soldados da Força Expedicionária Brasileira iam acompanhados de milicianos da resistência italiana, e encontraram uma força alemã muito mais numerosa, acompanhada de tropas regulares da Itália fascista. Iniciava-se a Batalha de Collecchio.

O general Dionísio (general na época do relato, não na época da guerra), conta que foi preciso solicitar reforços. Então, três oficiais alemães apresentaram-se, para tratar de sua rendição.

“No início nem sabia bem se eles queriam se entregar ou se estavam pensando que nós nos entregaríamos, face ao vulto das tropas deles, que por sinal mantinham um violento fogo para mostrar seu poderio.”

Uma vez esclarecido que eram os alemães que iriam render-se, “pediram três condições: que conservassem suas medalhas; que os italianos das tropas deles fossem tratados como prisioneiros de guerra (normalmente os italianos que acompanhavam os alemães eram fuzilados pelos comunistas italianos das tropas aliadas) e que não fossem entregues à guarda dos negros norte-americanos.

A exigência com relação aos negros devia-se ao fato de que, obviamente, estes sentiam ódio dos nazistas e descontavam neles toda a raiva que sentiam de seus próprios superiores brancos.

Eu perguntei ao interprete do lado alemão (nos entendíamos em uma mistura de inglês, italiano e alemão), por que queriam se render, com tropa muito superior aos nossos efetivos e ocupando uma boa posição do outro lado do rio.

Ele me respondeu que a guerra estava perdida, que tinham quatrocentos feridos sem atendimento, que estavam gastando os últimos cartuchos para sustentar o fogo naquele momento e que estavam morrendo de fome.

Que queriam aproveitar a oportunidade de se render aos brasileiros porque sabiam que teriam bom tratamento.

Combinada a rendição, cessou o fogo dos dois lados. Na manhã seguinte vieram as formações marchando garbosamente, cantando a canção ‘velhos camaradas’, também conhecida no nosso Exército.


 

A calma foi perturbada por um episódio que demonstra bem a importância de ter todo o pessoal envolvido em uma operação, trabalhando em harmonia e controlando os impulsos:

“Um nosso soldado, num impulso de momento, não se conteve e arrancou a Cruz de Ferro do peito de um sargento alemão. O sargento, sem olhar para o soldado, pediu licença a seu comandante para sair de forma, pegou uma metralhadora em uma pilha de armas a seu lado e atirou no peito do brasileiro, largou a arma na pilha e entrou novamente em forma antes que todos se refizessem da surpresa. Por um momento ninguém sabia o que fazer. Já vários dos nossos empunhavam suas armas quando o oficial alemão sacou da sua e atirou na cabeça do seu sargento, que esperou o tiro em forma, olhando firme para frente. Um frio percorreu a espinha de todos, mas foi a melhor solução.”

Uma lição importante fica aqui: vencer o inimigo não significa humilhá-lo. Só as pessoas muito pequenas e medíocres aproveitam para “esbaldar-se” e humilhar os inimigos caídos.


Hiram prossegue assim:

“Ao ouvir esta história, eu já tinha mais de dez anos de serviço, mas não pude deixar de me emocionar. Não foram as tragédias nem as atitudes altivas o que mais me impressionaram.

O que mais me marcou foi o bom coração de nossa gente, a magnanimidade e a bondade de sentimentos, coisas capazes de serem reconhecidas até pelo inimigo. Capazes não só de poupar vidas como também de facilitar a vitória.

É claro que isto só foi possível porque os alemães estavam em situação crítica; noutro caso, ninguém se entregará só porque o inimigo é bonzinho, mas que a crueldade pode fazer o inimigo resistir até a morte, isto também é real.”


 

Fonte: http://www.sangueverdeoliva.com.br/novo/index.php?option=com_content&view=article&id=463:guerra&catid=2:cronicas&Itemid=4

 

Kruschev

A gestão por metas e a lição das vaquinhas de Riazan

 

Em organizações muito grandes, não dá para os administradores principais terem acesso e convivência com todos os trabalhadores e setores envolvidos. Em operações nas quais parte do trabalho é terceirizado, a gestão do trabalho e da produtividade torna-se ainda mais complicadas.

Então, é racional pensar que instituições de grandes dimensões tenham um sistema de indicadores e uma tabela de metas para avaliar se, no fim das contas, o gigante está todo movendo-se junto e de acordo com a visão de quem tem a missão de definir rumos.

O problema é que, em muitos casos, esta “gestão por números” acaba tornando-se não apenas o elemento central, mas a obsessão de quem está no topo da pirâmide organizacional. Hoje, veremos um exemplo histórico sobre os perigos disso, e aprenderemos algumas lições.


UM POUCO DE CONTEXTO

Para os que não estão familiarizados com a História do século XX: em 1917, a Rússia, país mais atrasado da Europa na época, foi palco de uma revolução socialista. O novo governo estatizou fábricas, transportes, terras, tudo, e praticamente todo o povo passou a trabalhar diretamente para o Estado soviético.

Como não havia liberdade de mercado, o governo funcionava como uma imensa empresa com dezenas de milhões de empregados. Para gerir essa coisa gigantesca, foram criados os Planos Quinquenais, que eram peças de planejamento e estabelecimento de metas para os próximos cinco anos. Neles, estabeleciam-se prioridades e metas. Mais ou menos como ocorre hoje nas grandes empresas.

Este sistema funcionou mais ou menos bem nos primeiros anos: embora o governo Stalin tenha exercido uma violenta repressão a todos os que não seguissem seus planos, e o país tenha sido devastado pela Segunda Guerra Mundial, os russos conseguiram firmar-se como uma superpotência, rivalizando com os EUA.

Mas o país ainda era varrido, de tempos em tempos, por ondas de escassez e fome. Com a morte de Stalin, um careca chamado Nikita Kruschev assumiu o poder, e ele era absolutamente obcecado por produção agropecuária. Entre outros feitos, iria reconstruir a Ucrânia e tornar cultivável um pedaço enorme do Cazaquistão.

Mas foi no governo dele que aconteceu o insólito caso das vacas de Riazan, que veremos agora.

Kruschev


O ESTABELECIMENTO DE METAS

Kruschev queria aumentar a produção de carne. Seus especialistas e cientistas duvidavam das possibilidades de um grande salto neste setor, mas tanto o líder quanto os administradores regionais e os camponeses estavam empolgados.

Alexei Larionov, o primeiro secretário do Oblast de Riazan, prometeu DUPLICAR sua produção de carne no próximo ano. Depois, ele reuniu-se com os administradores das divisões do oblast, e alguns deles, mais empolgados ainda, chegavam a prometer triplicação do volume de carne. O bom senso passava longe.

Este tipo de entusiasmo parece absolutamente irracional mas, se pararmos para pensar, hoje em dia não apenas temos executivos que agem como Larionov, como também temos palestrantes e escritos de livros que fazem fortunas insuflando entusiasmo vazio nas pessoas.

Haviam russos sensatos, claro: o próprio jornal Pravda, na época, criticou o irrealismo. Mas isso não deteve os super-heróis agrícolas.


O PLANO NA PRÁTICA

Todas as medidas realistas e práticas para engorda e reprodução aceleradas do gado foram tomadas mas, nos primeiros meses, ficou evidente que, embora se pudesse entregar um aumento significativo da produção ao longo do ano, não se iria alcançar a duplicação dela, como prometido.

Começaram então a abater até o gado leiteiro, e os animais destinados à reprodução. Como isso obviamente levaria a região à ruína, os dirigentes locais começaram a confiscar os animais criados de forma particular pelos camponeses, nas fazendas de cooperativas autônomas (os kolkhozes) e até arredores de suas casas.

Como nem isso resolveu o problema, e tanto os administradores como a população de Riazan estavam decididos a não ficar “mal na foto” diante do resto do país, iniciou-se uma prática de re-contabilizar a carne já produzida.

Digamos, o agricultor Vladimir. Pois bem, Vladimir vendia a carne de suas vacas ao armazém do governo, que contabilizava aquele peso em carne na soma da produção de Riazan. Depois, repassava a carne para os supermercados. Chegando lá, o próprio Vladimir comprava aquele montão de carne, guardava um pouco para seu consumo, e apresentava o restante naquele mesmo armazém.

Assim, ele produziu 300 quilos de carne e esta carne foi contada na primeira passada no armazém. Na segunda, foram mais 150. E às vezes havia uma terceira passada.

Como o preço no supermercado tinha que ter algum aumento para cobrir despesas do próprio estabelecimento, este sistema levou boa parte dos produtores de Riazan a contrair dívidas. O próprio governo do Oblast começou a financiar a prática, usando o dinheiro que deveria ser usado em novas máquinas agrícolas e sementes.


O RESULTADO TRIUNFANTE

No dia 16 de Dezembro de 1959, o oblast de Riazan anunciou o cumprimento da inacreditável meta de produção. Larionov recebeu uma medalha de Herói Socialista do Trabalho, e o país todo só comentava este retumbante sucesso.

Alexei fez um bonito discurso prometendo, para 1960, triplicar a produção. Toda a Rússia acreditou: aquele homem era capaz!

Não que os russos da época fossem burros: nós, brasileiros ou americanos, já vimos casos emblemáticos de administradores aparentemente superpoderosos, que prometem margens de lucro astronômicas e todo mundo acredita porque, afinal, “ele sabe fazer as coisas acontecerem”. Ou alguém aí não vê certa semelhança entre Alexei Larionov e, digamos, Eike Batista?

kruschev leite


CAINDO NA REALIDADE

Riazan faliu. Alexei Larionov cometeu suicídio. Incrivelmente, até hoje não é incomum vermos gestores que conhecem bem o sistema inumano e numérico de contagem dos indicadores que servem para aferição, e com uma planilha na mão, dão a impressão de sucesso enquanto plantam as sementes do fracasso.

Embora Riazan tenha cumprido a meta de 1959, o gado havia sido dizimado pelo abate excessivo. Os rebanhos correspondiam a 65% do que eram no ano anterior. Se de 1958 para 1959 a produção havia triplicado, de 1959 para 1960 ela caiu para um quinto do que era antes.

Os camponeses tinham dificuldades até para alimentar suas próprias famílias. E aqueles que tiveram o gado particular confiscado tentaram resgatar o valor dos títulos que haviam recebido. Tomaram um previsível calote, de modo que entraram numa espécie de semi-greve que derrubou ainda mais a produção de grãos e alimento para os animais. Os anos 60 seriam difíceis para aquele povo.


A LIÇÃO APRENDIDA

Nikita Kurschev aprendeu alguma coisa com o desastre de Riazan – algo que todo líder deve saber: não dá para administrar simplesmente olhando indicadores de cumprimento de metas em uma tela de computador. É preciso sair, falar com os trabalhadores, sentir o clima e enxergar a realidade da organização no dia a dia.

Tanto que seu governo é lembrado como uma época de progresso para o país. Ele foi o líder soviético que mandou o primeiro satélite e o primeiro homem ao espaço, e mais importante que isso, começou a direcionar o foco da indústria do país no atendimento às necessidades dos cidadãos. A qualidade de vida melhorou e o governo começou a abrandar a censura e a perseguição aos opositores.

Por um momento, chegou a parecer que a URSS poderia dar certo. Kruschev, no entanto, era afoito e entrou em choque com gente demais. Em 1964, foi derrubado por um golpe.