Biografia para orelha de livro:
Nascido em 1981, em Porto Alegre, Fábio pertence a uma geração que cresceu na frente dos primeiros computadores pessoais amplamente disseminados. Clássicos como o AT/XT e o 286. Aprendeu a programar Basic ainda pré-adolescente. E, daí em diante, não parou mais, acrescentando uma longa lista de linguagens e softwares à sua “carreira” de autodidata.
Atuou por alguns anos como programador. Deu aulas em escolas dentro de comunidades carentes e em projetos ligados ao Programa Menor Aprendiz. Foi instrutor no Senac entre 2007 e 2009, tendo inaugurado os cursos de Java2SE, AutoCAD e PHP na unidade de São Leopoldo/RS, e formado turmas em diversas áreas.
É formado em Jornalismo pela PUC-RS desde 2005 e atua em projetos de imprensa no interior gaúcho. Também é funcionário concursado da Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica, dentro da qual continua atuando como instrutor em diversos cursos e treinamentos internos.
Possui um site, no qual publica comentários em geral, apostilas, dicas e descobertas, e responde a dúvidas de leitores:
www.fabiosalvador.com.br
História completa:
Eu nasci em 1981, mesmo ano em que inaugurava, nos EUA, a MTV. Os fundadores da MTV moveram uma campanha estrelada pela Cyndi Lauper e o Billy Idol – coincidentemente, dois dos meus artistas preferidos até hoje. A primeira imagem que a MTV transmitiu, ao entrar no ar, foi o videoclip da música "Video Killed the Radio Star", que fala da morte da era do rádio e do nascimento da era do vídeo. Uma verdadeira profecia. Eu, nascido naquele ano, tentaria a vida no mundo do vídeo, mas acabaria caindo em outro mundo, mais novo ainda: o da web.
Em 1981, o Brasil era governado pelo presidente Figueiredo, um milico velho e metido a atleta. A família da minha mãe era formada por muitas pessoas politizadas. A do meu pai, não. Minha mãe veio da fronteira, e acho até que fala espanhol. Meu pai veio da colônia, e fala italiano, ou melhor, dialeto. Eu só falo português e inglês (e faço mau uso de ambos). Eu tenho uma irmã, um ano e meio mais nova (e bem mais bonita do que eu) que é professora de História, e tem umas idéias mais esquerdosas e coerentes do que as minhas.
Uma das coisas que mais me orgulha é que na minha família somos todos formados, e cada um em uma área bem diferente. Meu pai optou pela Contabilidade, minha mãe pela Educação Física. Minha irmã, História, e eu, Jornalismo. Mas na prática todos nós já trabalhamos em todo tipo de coisa, porque não somos bobos.
Nasci e passei minha infância em Porto Alegre. Meus pais eram e são muito trabalhadores. Quando nasci, morávamos no Partenon, mas aos dois anos, fomos para um prédio que ficava no Bom Fim, ou no Santana (a fronteira dos bairros mudaria diversas vezes ao longo de duas décadas). Tínhamos vários vizinhos legais, e íamos sempre ao Parque da Redenção (umas duas quadras dali). Eu colecionava revistinhas do Menino Maluquinho e, de fato, cheguei a ganhar este apelido durante um certo tempo, por parte de alguns comerciantes locais. Mas a maioria das pessoas me chamava mesmo de Kiko, devido às minhas discretas bochechas.
Eu estudei em uma escola estadual chamada Luciana de Abreu. Era um colégio muito fraco, constantemente tínhamos greves, e o prédio era meio deteriorado. Mas lembro da biblioteca, pela qual desenvolvi muito cedo uma forte predileção. Eu preferia ler a ter que ir até a quadra para jogar futebol. O único esporte no qual consegui me destacar, nessa época, foi o vôlei. E eu corria muito bem, também.
Passei os primeiros anos da escola sem ter amigo algum, e nem me lembro das razões para isso. Adorava tirar sarro de tudo, e bagunçava muito às aulas. Vivia na diretoria. Eu não aceitava a autoridade e discutia coisas bizarras como o número de estados da matéria. Eu não era uma criança depressiva, só era solitário. Mas, lá pela sexta série, encontrei minha turminha. Figuraças com nomes como Tito, Batata, Becker, Piruca, Minhoca e outros. Nós éramos ligados em videogames, RPG, animes, mangás, e outras paradas "super legais". Não éramos lá muito esportistas e nem muito bonitos, com exceção do Batata. Eu tentei manter essas amizades para além dos anos do primeiro grau, mas não deu certo e hoje não sei por onde anda essa gente. Eu também tinha alguns arqui-inimigos nessa escola, e igualmente não faço idéia por onde andam. Gostaria muito de reencontrá-los – aos amigos e inimigos.
Meu caminho natural seria seguir para o ensino médio no Julinho. Foi então que eu passei em uma prova de seleção para a Escola Técnica de Comércio da UFRGS. Ingressei lá em 1997, e me formei em 1999. E fui um dos últimos a fazer isso, porque naquele ano o governo FHC acabou com o ensino médio e técnico combinado.
Eu deveria ter saído da UFRGS como contabilista, com curso técnico, mas não concluí as cadeiras específicas. Eu não tinha nenhum interesse pela contabilidade. Mas foi lá que eu conheci uma coisinha chamada Internet, e aprendi HTML. Para os padrões da década de 90, isso fazia de mim quase um alienígena. Eu era tão moderno (ou nerd) para a época que meu primeiro namoro sério foi com uma menina que conheci no mundo virtual, quando essa expressão sequer havia caído no gosto popular. Mas do ensino médio, eu mantive algumas amizades que permanecem até hoje, e inclusive um ex-colega meu, que hoje é possivelmente meu melhor amigo no mundo, outro dia comentou que virá morar aqui na região rural. Alguma coisa sempre se aproveita de tudo.
O passo seguinte foi o vestibular. Aqui começou toda a polêmica. Eu já sabia programar em Basic, manjava bastante sobre computadores, sabia HTML, e muita gente apostava que eu pegaria a estrada – então promissora – do mercado da informática. Mas eu queria mesmo era brilhar, e prestei prova para Artes Cênicas. Até passei na prova específica. Mas na última hora, eu me toquei que talvez aquilo fosse uma fria. Optei por fazer Jornalismo (o diploma era importante naquela época).
Jornalista, agitador e empresário falido
E assim, em 2000, ingressei na PUC. Lá, fiz de tudo. Jornalismo digital, experiências com vídeo, transmissão wireless (que hoje é banal, mas naquele tempo era o bicho) e, claro, política estudantil. Eu adorava fazer barulho. E a universidade estava pegando fogo. Certa vez, acampamos em frente ao DCE e as coisas quase pegaram fogo. Eu até saí em algumas matérias.
Da política estudantil, guardo duas recordações marcantes:
Uma foi quando lançamos o Coeso (Coletivo de Estudantes de Oposição), que tinha uns panfletinhos fuleiros, feitos no Xerox, e um jornalzinho chamado Pangaré. Combatíamos dois outros grupos, o de situação e a chapa Plural. Esses dois inimigos fizeram campanhas bem estruturadas, e nós não tínhamos chance. Mas quando abriram as urnas, nós havíamos deixado o Plural no chinelo, e quase vencemos a chapa situacionista.
A outra recordação é mais cômica. O campus da PUC estava lotado de estudantes, protestando contra a reitoria, e aquela multidão era insuflada por alguns militantes que cumpriam, informalmente, a função de liderança naquilo tudo, armados com megafones e palavras de ordem. Eu estava ao lado de um desses caras, que se não me engano era meu colega, ou amigo, e ele começou a perder a voz, porque estava muito cansado. Como eu tenho uma voz de autofalante, me ofereci para revezar com ele. Subi em um canteiro, tomei o megafone e assumi o papel de agitador. Segundos depois, uma equipe do jornal O Sul me pediu para descer e responder a algumas perguntas. Sobre os objetivos do movimento e tudo mais. Respondi. No dia seguinte, me mostraram o jornal: "Fábio Burch, um dos líderes dos estudantes, deu uma entrevista..." Mandei um e-mail expandindo as explicações dadas na entrevista. Mas não desmenti sobre meu papel na manifestação.
Fora o radicalismo político, me dediquei mesmo à comunicação e até cheguei a me destacar nas cadeiras de projeto gráfico, diagramação e coisas relacionadas, ao ponto de os professores me convidarem para ser o monitor nas aulas desses assuntos, função que exerci por dois anos. Até que uma professora, cujo nome esqueci, fez o convite para que eu continuasse, mas eu tive que recusar, porque estava me formando dali a alguns dias.
Eu também me dei muito bem como fotógrafo, e a grande razão de eu não ter guardado nada dos trabalhos desta época, e nem seguido uma carreira na fotografia, é que isso não me seduzia num um pouco. Aliás, de forma geral, eu adorava desenhar materiais impressos e, ainda mais criar projetos gráficos (que eu até hoje às vezes monto para pessoas que pensam em fundar jornais ou revistas, e o faço de graça, por diversão). Mas no fundo eu não queria ser jornalista. Queria ser cineasta. Fiz alguns curta-metragens, toscos ao extremo, com os colegas de faculdade. Mas essa carreira nunca vingou. Na verdade, não chegou a dar sinais de que poderia um dia vingar.
Meus colegas sonhavam em ser repórteres da RBS, da Globo. Eu, não. Eu queria fazer filmes (não havia então um curso específico de cinema, que a PUC hoje tem). Se não pudesse fazer filmes, eu queria ser político e mudar o mundo. Mas, falhando tudo, eu preferia largar tudo de lado e ir dar aulas de informática, pois nunca deixei de gostar de programar. Ainda mais depois que aprendi PHP. Em 2001,montei meu primeiro site/blog pessoal, tradição que mantenho até hoje.
Em dezembro de 2004, fundei meu próprio jornal. Eu havia conhecido a Fabiana, minha esposa, em 2001 e ela morava em Viamão. Foi esta a cidade que escolhi para fundar meu jornal, chamado A Cidade. Um pasquim polêmico, com projeto gráfico muito agressivo e moderno, no qual eu fazia de tudo: vendia espaços publicitários, cobrava, levantava dados, fazia reportagens, editava, diagramava, negociava com gráfica. Envelheci uns dez anos de tanto trabalhar, e a Fabian cuidando da área comercial, ao meu lado. Acabei envolvido pelas brigas políticas da cidade, levei calote de muitos anunciantes, e descobri que nem sempre um bom jornalista é um bom dono de jornal. Fui à falência em janeiro de 2006, depois de 31 edições. Na última capa, ainda atirei umas pedradas contra umas empresas e uns políticos safados. Caí, mas caí sem soltar o dedo do gatilho da metralhadora.
Daí, veio uma época de trevas e depressão. Eu ainda participei de uns outros projetos, como o Correio Viamonense, um jornalzinho "de-vez-em-quandário" que sobreviveu uns seis meses apenas. Voltei a viver do desenvolvimento de sistemas, o que para mim significava a derrota total dos meus sonhos. Vivi na mais profunda vergonha e depressão, e arrumei um estágio, ganhando trocados, na Prefeitura de Porto Alegre, dando aulas de informática em uma escola encravada em uma comunidade muito carente da Lomba do Pinheiro.
Eu cheguei a fazer algumas coisas bem legais, das quais a mais interessante foi um período de dois meses como redator do
Terra. Eu traduzia notícias bizarras, as mais esquisitas imagináveis, para a sessão Popular do site. Também fiz alguns trabalhos ocasionais diagramando informativos de políticos e anúncios publicitários. Graças às minhas habilidades "desenhísticas" com Corel e Photoshop, ganhei uns trocados nas eleições de 2006. Mas não o suficiente para tirar a barriga da miséria.
Essa época pós-falência foi tenebrosa, e ainda mais porque em 2006 nasceu a minha filha, a Camila. A Camilinha é a coisa mais linda do mundo e eu a amo muito, mas diante de todas as dificuldades, eu duvidava seriamente das minhas possibilidades de dar uma infância decente a ela. E por algum tempo foi assim: eu, a Fabiana, e a Camila contra todas as possibilidades. Meus pais deram muita ajuda nessa época, mas as coisas mesmo assim não foram nada fáceis. Não apenas por causa do absoluto sufoco financeiro pelo qual passamos, mas também porque eu havia caído para longe de tudo o que sonhei para mim, e não tinha a menor possibilidade de levantar um dia para tentar catá-los e colar os pedacinhos. Mas, embora eu não soubesse, nem tudo estava perdido.
Caros leitores, a vida dá voltas. Eu estava dando aulas às crianças da Lomba do Pinheiro, e era programador. Com esse pequeno currículo, compareci a algumas entrevistas de emprego e uma grande virada aconteceu. De uma hora para a outra, me vi catapultado, do fundo do poço, diretamente para as salas de aula do Senac. Sim, o Senac, uma instituição de renome nacional.
Senac
No Senac de São Leopoldo, vivi uma época que foi dourada, porque havia muita coisa a ser feita por lá. Éramos três professores de informática, inicialmente, e depois fomos recebendo outros colegas, mas basicamente, os três principais éramos eu, que dava programação em várias linguagens, além de AutoCAD e bancos de dados; um alemãozinho chamado Antonio, meu grande amigo, que dava toda a área de design (Photoshop, Corel, etc.), além de HTML, CSS e outras paradas; e o Alexandre, que dava redes e hardware. De vez em quando, o Antonio adoecia e eu atacava nas áreas dele por alguns dias. Até que a diretora, de saco cheio de me ver comentar como gostava dessas aulas, me designou um curso inteiro de Photoshop.
As recordações mais bonitas que guardo do Senac são os alunos e os colegas. Eu nunca me acertei com a direção. Durante a maior parte do tempo que fiquei por lá, a escola foi comandada por uma mulher insuportável, neurótica, que pedia para as pessoas fazerem alguma coisa e depois as criticava por terem feito. Ela adorava me ameaçar de demissão, mas no final fui eu quem a deixei "sem pai nem mãe" quando pedi para sair.
Eu era sempre designado para dar aulas em cursos nos quais eu tinha mais conhecimento, e nunca era designado para dar aulas nos programas de Aprendizagem Comercial, embora fosse apaixonado pela iniciativa. Era um programa no qual os alunos estudavam seis meses, e neste período iam assinando contratos com empresas da região. Depois, cada um passava seis meses trabalhando na empresa com a qual havia assinado do contrato. Era uma gurizada selecionada pela prefeitura, vinda na maior parte das vilas, e que sairia dali com qualificação e emprego.
Eu tanto enchi a paciência de todo mundo, que consegui minha própria turma da Aprendizagem. Uma turma fabulosa, com a qual alcancei o ponto máximo em termos de performance em sala de aula. Eu tinha minha própria metodologia didática. No primeiro dia de aula, entramos em um acordo segundo o qual eu, sabendo que eles já sabiam o básico sobre Windows, iria ensinar-lhes coisas bem mais avançadas, e eles poderiam pedir conteúdos que achassem interessantes. Em duas semanas, já foi possível repartir a turma em duplas, e cada dupla construiu um pequeno site sobre algum assunto específico. Eles deveriam, segundo o plano de curso, estar entrando na matéria de Word. Na prática, já haviam aprendido alguma coisinha sobre HTML.
Em dois meses, eu anunciei orgulhosamente que não tinha nenhum aluno sem contrato com alguma empresa. Havia uma segunda turma da Aprendizagem, que ficou sem professor nessa época, e eu acabei assumindo as duas turmas, ao mesmo tempo. Fazia trabalhos conjuntos, revezava de sala, enquanto a escola nomeava outros instrutores para essa segunda turma, que duravam não mais do que um mês com ela. A bagunça era geral, e eu fiquei sabendo inclusive que surgiram alguns casaizinhos entre as turmas. Mas o fato é que a gurizada aprendia, e aprendia além do programa do curso.
Eu adorei ter estado no Senac. Se não fosse tão cansativo, teria continuado por lá. Um ano depois da minha saída, ainda voltei, a convite do novo diretor, para dar um curso de AutoCAD. Pensei mesmo em voltar mais vezes, mas suspeito que nunca mais voltarei porque, nesse curto retorno, encontrei o setor de informática da escola bem menor do que era antes. Expressei esta constatação publicamente, e o diretor novo entendeu como uma crítica às suas capacidades de administrador. E ainda deve ter pensado que eu estava elogiando à diretora antiga, que eu não quero ver nem pintada. Infantilidade pura, dele e minha. Mas agora tanto faz.
Por essa ninguém esperava
Foi na metade de 2008 que aconteceu mais uma virada. Eu estava feliz com meu trabalho no Senac, mas vivia exausto e a minha saúde começava a apresentar os sinais do desgaste. Eu dava aulas à noite, de manhã, à tarde, participava de eventos, feitas, dava palestras. E programava. Eu precisava de algo menos sacrificante para a minha vida. Pedi demissão do Senac e fui desenvolver sistemas para a indústria do fumo, em uma empresa chamada WaySys, em Porto Alegre.
Em duas semanas de trabalho, percebi as diferenças entre ensinar programação (que eu adorava) e programar de fato, não para mim, e sim segundo as instruções de um patrão (o trabalho mais chato do mundo). Acho que, se eu fosse falar com o pessoal dessa empresa hoje, sobre aqueles tempos, concordaríamos que eu não estava indo bem no trabalho, e que o trabalho não estava me fazendo bem.
Providencialmente, e do nada, apareceu lá na casa da minha mãe um telegrama. Era a CEEE. E não, eu não estava sendo intimado por alguma conta de luz não paga. Eu estava convocado a me apresentar, devido a um concurso que eu fizera em 2006 (e do qual nem lembrava mais).
Eu havia sempre sonhado com essa idéia de ser chamado por alguma empresa pública. Minha mãe é funcionária pública, uma tia minha também é. Uma outra tia, foi assessora do deputado Mendes Ribeiro Filho desde que ele era vereador. Eu sempre percebi as vantagens de se trabalhar para o governo. E, de fato, qualquer cargo público me serviria. Mas ser chamado pela Companhia Estadual de Energia Elétrica tinha um sabor especial, porque, sendo uma pessoa muito ligada em tecnologia, eu sempre vi com mais entusiasmo uma CEEE, do que uma Corsan, ou Emater, ou Secretaria Estadual do Meio Ambiente.
Dentro da CEEE, descobri que minha vida teria todo um colorido especial. Fui descoberto, na minha condição de ex-Senaquiano, pelo pessoal do Centro de Treinamento da empresa, e convidado a dar cursos lá. Já formei algumas turmas de AutoCAD e Excel, logo os meus dois assuntos preferidos no mundo da informática. Também descobri que a empresa tem um Plano de Cargos e Salários que parece ter sido feito para mim, já que eu tenho exatamente o tipo de qualificações que mais contam pontos dentro do Plano. O futuro, como diriam os poetas, é um céu risonho. Mas não é só isso.
Uma vez devidamente transformado em funcionário da CEEE, filiado ao Sindicato, associado à Fundação, eu pude reiniciar a busca pelos meus sonhos e ambições perdidos do passado. Pensei em voltar a fazer filmes, mas a verdade é que nunca mais reuni pessoas interessadas em participar desses projetos.
Mas acertei em alguns pontos. Montei um site chamado "Melhor de Todos", no qual as pessoas se associavam e redigiam matérias, formando uma espécie de blog coletivo, ou jornal participativo, ou sei lá. Só sei que chegamos a ter 500 endereços IP visitando a capa do site, por dia. Até que o espaço virou uma arena para debates do tipo "politicagem" e eu o tirei do ar.
Um dia, lá pelo final de 2008, fui convidado para ser editor do Jornal Esperança, que estava nascendo em Vespasiano Corrêa, uma cidade que fica 25 quilômetros a oeste de Cotiporã, de onde veio meu pai. Era a chance que faltava. Montei um projeto gráfico completamente original, e junto com o diretor do jornal, conseguimos estabelecer uma linha editorial muito agressiva, inovadora, até debochada às vezes. Dinâmica. Ficou muito legal, e esse jornal é sem dúvida mil vezes melhor do que o meu falido "A Cidade". Eu realmente tenho orgulho desse jornalzinho.
Hoje moramos em um condomínio, na área rural de Viamão. Eu mesmo pedi transferência para a agência da CEEE nesta cidade, para poder morar aqui. E cá estamos. Eu, a minha esposa Fabiana, e a nossa filha Camila, que já está se achando uma "mocinha". Ao contrário de todos os meus temores do passado, a vida vai muito bem. De fato, a Camila tem tantos brinquedos, que é preciso abrigar alguns na casinha de bonecas que ela tem no pátio (essa casinha foi presente da minha mãe).
Eu ainda busco meu lugar sob as luzes da ribalta, mas já sem a pressão das dificuldades materiais de outros tempos. Uma das minhas grandes esperanças é encontrar o grande lance capaz de me lançar diante dos olhos de um grande público, já que agora só o que me falta, de todos os objetivos iniciais dos meus planos de vida, é a fama. Aliás, é até meio cômico que eu seja desconhecido. Espero um dia poder contar esse capítulo da vida como algo superado. Daí a minha propensão a gostar de fazer política - na verdade, minha obsessão por me candidatar e me eleger: já que eu não sei dançar, nem cantar, nem tocar instrumento algum, não me dei bem como ator e não tenho estampa para ser modelo, mas não tenho vergonha de falar em público, só um palanque me dá margem para reunir aquilo que eu mais gosto: uma platéia.