AUTOR: Irvin D. Yalom
LANÇAMENTO: 2000
EDITORA: Ediouro
Confesso que demorei muito a escrever a crítica deste livro, mas foi com prazer que coloquei-o no artigo de inauguração da sessão de textos literários deste site. Agora, com o site novo, eu não poderia deixar de resgatá-lo e mantê-lo para a eternidade.
Trata-se de uma pequena obra-prima, que possivelmente será considerado um clássico, no futuro, quando for antigo o suficiente para isso.
O enredo passa-se no século XIX, quando o médico judeu Josef Breuer, um dos pioneiros da psicanálise, que é um médico respeitado que dá força às pesquisas de um jovem aprendiz e amigo seu chamado Sigmund Freud, recebe a visita de jovem e misteriosa Lou Salomé. A moça pede que ele trate do desespero terminal que está consumindo a mente de um amigo – um professor aposentado por motivo de doença, e filósofo de pouca fama, chamado Friedrich Nietzsche. Sem brincadeira: Breuer é, em grande medida, o mentor de FREUD e tem a missão de compreender a mente de NIETZSCHE. O cara devia ser mesmo power fodão!
Só que tem um detalhe: Nietzsche não acredita estar doente. O autor fez um retrato humanizado e ao mesmo tempo, coerente com a vida do filósofo alemão, que morreu em 1900, completamente louco. Nietzsche era completamente apaixonado por Salomé, e quando ele a perdeu, seu equilíbrio mental foi para o buraco.
Quem foi esse Nietzsche?
É preciso conhecer a vida de Nietsche para curtir totalmente o livro de Yalom. Estamos falando sobre um pensador que não acreditava em Deus, e achava que o cristianismo era a filosofia do medo, da covardia, do anti-instinto. Que a humildade, e bondade e a mansidão eram a negação da verdadeira natureza do homem, que é brutal, agressiva, orgulhosa, que busca a grandeza, não o encolhimento. Ele cunhou o termo "super-homem", não no sentido do herói da DC Comics, e sim, de um "homem além do homem", liberto das amarras falsas das religiões que pregam a fraqueza e o comedimento, liberto da moral, liberto de tudo. Nietzsche começou a vida como professor de filologia, mas logo passou a sofrer de terríveis dores de cabeça que o deixavam enjoado, faziam desmaiar e passar mal. Então, foi aposentado com uma pensão modesta e passou muitos anos viajando pela Europa, ficando em pensões baratas, e escrevendo suas idéias. Alguns de seus livros foram publicados em edições pouco numerosas, outros, ele mesmo teve que pagar para ver impressos. Nunca teve muitos leitores, e dizia-se "póstumo", anunciando que suas idéias só seriam reconhecidas depois de sua morte, porque estavam à frente do seu tempo. Foi amigo, e depois rompeu com Richard Wagner, um dos maiores compositores da história da Alemanha. Também rompeu com Schoppenhauer e outras figuraças da história do pensamento do século XIX. Era um solitário, que pregava que a solidão era condição necessária para sua genialidade (ele não era nada modesto). Ao mesmo tempo que viajava, pensava e escrevia, Nietzsche tentava conviver com crises de sua doença que quase o matavam, deixando vários dias no quarto a agonizar. Mas sempre se recuperava. Até que, um dia, simplesmente enlouqueceu – passou a referir-se a si mesmo como "o crucificado", e acabou sendo acolhido por sua mãe e sua irmã, na casa da família, onde morreu na virada do século.
Muitos anos depois de sua morte, sua irmã acabaria adulterando seus textos e idéias, e reunindo partes de cartas e rabiscos, fora do contexto, em um livro. Seu conceito de "super-homem" passou a ser interpretado como a idéia de uma raça superior, e ele ganhou a pecha de anti-semita (apesar de nunca ter demonstrado nenhum preconceito contra judeus, ou por qualquer estrangeiro). Acontece que a "maninha" de Nietzsche fez todo esse cambalacho ideológico para transformar seu irmão numa espécie de precursor no nazismo, doutrina política que começava a fazer sucesso na Alemanha dos anos 1920 e 1930.
Depois do fim do nazismo, em 1945, Nietzsche passou alguns anos sendo visto como um filósofo "maldito", mas acabou reabilitado quando tornou-se então pop, cult, famoso e os jovens metidos a intelectual passaram a "abafar" citando frases suas. Nietzsche provou que era mesmo póstumo. E chique.
De volta ao livro
Pois bem. No livro, Breuer deve tratar Nietzsche sem nunca revelar que o está tratando. Então, Breuer apresenta-se como se estivesse sendo perturbado por dilemas da meia-idade, e pedindo que o grande filósofo o ajude a compreender as entranhas de sua própria mente. Nietzsche inicialmente nega, mas Breuer oferece-lhe estadia, pelo tempo que o tratamento durar, em uma instituição de recuperação e repouso na qual Nietzsche poderá recuperar-se de sua doença, que estava causando crises constantes.
Com o tempo, Nietzsche vai ficando lisonjeado por ter um seguidor, e encara aquilo como a chance de, ao mesmo tempo, pregar suas idéias para alguém que poderá compreendê-lo, e ao mesmo tempo, de usar aquele espécime humano como laboratório para suas próprias pesquisas sobre a psique humana.
O livro é um passeio pelas idéias e dramas da existência do homem moderno, apegado a noções de sucesso que são socialmente construídas mas tornam-se insuportáveis pressões, e ao mesmo tempo, são frustrantes. Breuer começa a interação com Nietzsche fingindo-se de infeliz, e tentando arrancar informações pessoais de seu paciente. Mas com o tempo, o próprio Breuer é quem acaba convertendo-se em paciente, tornando sua farsa uma realidade. O médico, muito respeitado e bem sucedido, acha sua vida muito chata, e vive perturbado por fantasias eróticas com uma paciente sua, que tem crises de epilepsia.
Breuer vem alimentando o desejo de deixar sua família e tentar uma vida completamente nova com a paciente. Nietzsche tenta abordar o problema desconstruindo a imagem idealizada que o médico tem da jovem, mas isso não dá resultado. Então, os dois passam a desconstruir várias ilusões que ambos têm acerca de suas próprias vidas. Mas Nietzsche é, em todos os momentos, muito auto-consciente, frio, e parece não nutrir ilusão nenhuma, portanto não sofre baque algum nessa "destruição de falsas realidades".
A trama então passa a centrar-se em Breuer, suas fantasias e desinteresse pela vida da forma como ela se apresenta. Ele é um homem sério e cumpridor dos protocolos sociais, e isso aparentemente o liberta, mas na verdade o aprisiona. O médico realmente entra em desespero quando Nietzsche o faz ver como está desperdiçando sua vida, vivendo preso às convenções, das quais o filósofo escarnece.
Perto do final, Breuer faz experimentos sobre sua vida, ao sair de casa deixando os filhos e a esposa para trás. Mas sua escolha prova ser a mais infeliz – sua vida é tediosa, chata e sem sentido à medida em que ele vive preso a ela apenas para enquadrar-se em um modelo de vida socialmente aceito, mas não precisa necessariamente ser destruída para ser plena – basta que ele re-valore os aspectos dela e passe a viver, de cada aspecto de sua existência, apenas aquilo que faz sentido para sua natureza, não para o que as outras pessoas esperam. E aí, logo depois, vemos o título do livro passando a fazer sentido. Nietzsche finalmente abre sua couraça psicológica, revelando que apesar de autêntica e coerente com suas idéias, sua vida é profundamente infeliz, porque, ao renunciar às convenções sociais, familiares e religiosas, tornou-se mais livre, mas privado da felicidade ingênua do homem comum, e cuja falta ele lamenta muito. Breuer tenta convencer o amigo a reingressar no mundo da "normalidade" e buscar esta felicidade, mas Nietzsche diz que "é tarde", tanto porque ele não pode ignorar as coisas que, infelizmente, descobriu sobra a vida, e portanto não pode reconstruir as ilusões do homem comum, de mente obtusa, que permitem-lhe ser feliz. Nietzsche foi longe demais e não pode mais voltar.
Uma avaliação pessoal
Yalom conseguiu um feito que eu só havia visto em Shakespeare: ele escreveu um romance que nos leva a passear pelos recantos mais obscuros da mentalidade e das fantasias do homem comum da modernidade, desencantando suas ilusões e falsas verdades. Trata-se de um raio-X cru da alma humana.
Como romance, o livro é muito bom. Tem ritmo, fluidez, e prende o leitor da primeira à última página. Os diálogos são inteligentes, as situações bem construídas, e os personagens, profundos.
Para quem conhece as figuras de Josef Breuer, Friedrich Nietzsche, e outras pessoas reais retratadas, é um interessante exercício de imaginação sobre a vida e a mente dessas figuras que tanta importância têm nas bases do pensamento do nosso século, porque o escritor teve o cuidado de manter-se fiel às personalidades dessa gente.
Recomendo. Recomendo 20 vezes. Sem dúvida nenhuma. Só vou avisando: se você for fã de livrinhos de auto-ajuda daqueles do tipo "vida positiva e reafirmação da felicidade e do sucesso plenos", ou não tiver um mínimo de conhecimento sobre os pensadores do século XIX, vai achar o livro complexo demais. Mas não é para gente assim que escrevo esta resenha.
Tem até o filme
O livro virou um filme, que eu assisti e não recomendo, porque achei muito fraco - produção desleixada, direção insegura - mas se você não for do tipo que gosta de ler livros, pelo menos assista ao filme. Mas já vou avisando: na tela, "Quando Nietzsche Chorou" tem uns 20% da qualidade da versão impressa.