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Terça-feira, 07 de Setembro de 2010, às 15:06:14
Não estou forçando a barra: as movimentações de campanha que vemos nos últimos dias me lembram o enredo do filme "A Queda".
Filmaço!
Exército Vermelho no Portão de Brandemburgo.
Tropas da Volkssturm - cada um desses lança-granadas só dava um tiro. Depois, o "soldado" ia na base do revólver e da faca, mesmo.
A grande contraofensiva de Hitler chegou a balançar as linhas inimigas, mas no final...
Tanque soviético bastante danificado andando no meio dos escômbros em Berlim.
O resultado final, quem sabe História deve lembrar. O prédio no qual o soldado subiu é o Reichstag, sede do poder da Alemanha.
Quem não viu "A Queda", deveria ver. É um filme que retrata os últimos dias da vida de Adolf Hitler. Não estou dizendo, com esta comparação, que José Serra seja nazista. Não. O que me faz lembrar do filme (uma pérola do cinema, um futuro clássico, vocês deveriam assistir), é o desenrolar das batalhas finais de uma guerra, no caso atual, uma guerra sem mortos, mas nem por isso menos dramática. Eu adoro histórias épicas, e em parte é por isso que adoro história política.
No filme (e na realidade), Hitler estava refugiado em seu abrigo subterrâneo, comandando as tropas da Alemanha. Os aliados ocidentais já haviam libertado toda a França e entravam na Alemanha pelo oeste. Enquanto isso, o Exército Vermelho já havia libertado a União Soviética, atravessado a Polônia, boa parte da Alemanha, e encontrava-se às portas de Berlim.
Hitler, então, resolve reunir todas as tropas restantes e todas as peças de artilharia, tanques, tudo. Inclusive, civis, velhos e crianças engajados na
volkssturm. Tudo mesmo. Cada grama de pólvora. Inicia-se então a espetacular Batalha de Berlim, uma tentativa desesperada do líder nazista de deter os soviéticos e iniciar uma contra-ofensiva capaz de reverter o destino da guerra. Só que Hitler havia superdimensionado suas forças. A grande batalha realmente atrasou os russos e custou-lhes muitas baixas. Mas, passado o susto, Stalin continuou seu avanço.
Aqui, vamos ao caso do José Serra: ele colocou todas as suas armas disponíveis à mostra: assumiu de vez sua posição ao lado do grande capital e mobilizou todo o aparato de imprensa que está aliado a ele, e disparou grandes escândalos para o ar, dos quais o mais significativo foi o do vazamento de dados da Receita. Ao lado disso, colocou na TV todos os seus aliados capazes de transferir votos. Disparou todos os seus grandes canhões políticos e midiáticos ao mesmo tempo. Esta foi sua "Batalha de Berlim". E, de forma semelhante à história de 1945, o canhoneio chegou a deter a escalada de Dilma nas pesquisas de forma momentânea. Mas não foi o suficiente para romper o cerco e dar impulso a uma contra-ofensiva.
Voltando a Hitler, depois da grande batalha e da frustração de seu intento de "virar a guerra", o líder nazista manteve nas ruas uns grupos dispersos da
volkssturm, enquanto batalhões perdidos atrás das linhas inimigas infligiam danos às linhas de mantimentos russas. Já não se esperava ganhar a guerra com estes esforços: a idéia era fustigar o inimigo, e cada grupo isolado fazia isso até ser morto ou capturado. A guerra estava perdida. No
bunker, não se faziam mais planos, embora algumas pessoas mantivessem a esperança em alguma reviravolta que pudesse salvar a Alemanha. Do tipo: e se os russos entrarem em guerra com os americanos? E se a França se revoltasse com as tropas estrangeiras? Sei lá.
A campanha do Serra está agora neste estado: a grande batalha "salvadora" acabou, e o rumo da história não mudou. Resta atirar até a última bala. O episódio do vídeo do Collor é como o assalto de um bando de soldadinhos da
volkssturm. Chegam a explodir uns dois tanques inimigos, e tomam um prédio. Mas já se sabe que isso não mudará o resultado final da guerra.
José Serra só ganha as eleições deste ano com um verdadeiro milagre. Serra teria que fazer algo grande, inesperado, devastador. Mais ou menos como se Hitler, nos momentos finais da resistência em Berlim, tivesse conseguido montar uma bomba atômica, jogando-a sobre Moscou.
PS: Ao escrever este texto, não quis chamar José Serra de nazista. Já expliquei isso: embora eu o considere um candidato das elites, da privatização, eu não o considero fascista nem nazista. Não sou dado a generalizações. A comparação que faço aqui é apenas sobre o desenrolar dos conflitos (militar de 1945 e eleitoral de 2010). Porque o ritmo como as coisas foram se desenvolvendo, para mim, presta-se às comparações que fiz.
Inclusive, no Corrio do Brasil, saiu um
baita de um artigo sobre o quadro atual do pleito presidencial.
Quarta-feira, 07 de Julho de 2010, às 23:33:47
"A Vida em um Dia" será o primeiro filme feito com a colaboração dos internautas do mundo todo. No comando da produção estão dois nomes fortes de Hollywood. Tudo para coroar o quinto aniversário do Youtube.
Uma cena eles têm que incluir no documentário (com legendas em inglês): o clássico Youtubico Jeremias José do Nascimento.
O youtube está fazendo seu quinto aniversário. Para dinossauros da informática como eu, parece que foi ontem, porque o mundo pré-Tube ainda está fresco na memória. Para a gurizada que nasceu para a informática na era do Orkut, o Youtube parece algo como o Universo: sempre existiu e sempre existirá.
Pois bem. O projeto é ambicioso. Será um filme, de longa metragem, distribuído para os cinemas dentro do esquema normal de qualquer filme. Só que será feito de videos recolhidos no Youtube no dia 24 de Julho. Os produtores mandarão, inclusive, câmeras para países pobres para captar cenas de lugares onde ninguém, provavelmente, terá uma câmera própria para fazê-lo.
A produção dessa maluquice fica por conta de uma duplinha de peso: Kevin MacDonald e Ridley Scott. MacDOnald, ao contrário do que sugere o nome, não vende hambúrgueres - ele dirigiu "O Último Rei da Escócia", aquele filme bárbaro sobre o ditador Idi Amin Dada. Scott é, nada mais, nada menos, do que o diretor de "O Silêncio dos Inocentes".
A doideira total sai em Janeiro de 2011 nos cinemas e depois cairá - adivinhem - no Youtube.
A idéia do filme, como o nome já diz, é retratar um dia na vida do nosso planetóide azul. Para participar, entre na
página do projeto no Youtube.
Quarta-feira, 26 de Maio de 2010, às 12:26:26
Michael Douglas faz com os pivetes, os burocratas, os picaretas e os motoristas grosseiros exatamente as coisas que a gente também faria, se não fosse o fato de ir para a prisão. Aliás, se o personagem do filme vivesse no Brasil, iria ficar com mais raiva ainda ao descobrir que ir para a cadeia pode ser um negócio da China.
Já sei, muitos de vocês devem estar pensando "ah, ele vai comentar este filminho...". Sim, "Um Dia de Fúria" é um filme muito manjado. Qualquer um sabe que já passou uma centena de vezes na Tela Quente. Mesmo assim, este é um filme digno de nota.
Michael Douglas faz o papel de um homem cansado da vida estressante que leva. Preso em um engarrafamento, ele não aguenta mais e explode - abandona o carro e sai pela cidade, disposto a ver sua filha, que está com a ex-esposa. No caminho, o personagem depara-se com todo tipo de cretinos, cínicos, bandidos, e um psicopata neonazista. A tudo isso, o estressado cidadão reage com raiva e violência. Ele já não está mais preso pelas correntes da civilidade - a pressão sobre ele passou dos limites, e agora nada mais importa.
No curto caminho entre um bairro e outro, nosso "herói" causa enorme destruição, mandando abaixo alguns elementos bastante comuns em qualquer cidade grande, como a autoridade das gangues em certas áreas, um lojista picartea, e uma construção que atrapalha o trânsito - símbolos da bagunça vivida por qualquer pessoa em uma cidade com mais de um milhão de habitantes. Na prática, o filme reedita a história de Frankenstein, em que o criador do monstro acaba sendo atacado pela própria criatura. O personagem sem nome é superficial, violento, estressado e insensível. E ataca exatamente a mesquinhez e o caos da sociedade que o criou.
O furioso protagonista acaba sendo identificado com o público, mais precisamente o cidadão de classe média, atarefado e preso em uma realidade limitadora e claustrofóbica. As pessoas ao redor, os personagens que ele trucida, não inspiram nenhuma humanidade porque, apesar de parecerem pessoas "normais", são apenas uns monstrinhos de mesquinhez, enrustidos em seu canto dentro da imensa estrutura da sociedade. O problema aqui é maior, é universalizado, não ficando restrito apenas à vida do personagem do filme. O caráter de representação geral deste personagem é reforçado, desde o início, pelo fato de ele não ter nome - nos créditos, acaba identificado como "D-Fens", a inscrição da placa do carro que abandona na rua engarrafada. Ele não é ninguém. É apenas mais um rosto na multidão, um número de cartão de crédito, uma identidade no mercado de trabalho, e que aliás, está desempregado sem que ninguém dê a mínima bola para os problemas dele ou para o que ele sente. É um homem abandonado à sua sorte por um mundo desumanizado, cujas regras ele simplesmente está abandonando. Ele é qualquer um de nós, que um dia não aguentou e surtou.
O final é maravilhoso, e não cai na velha fórmula "viveram felizes para sempre". A única coisa capaz de deter D-Fens são as balas de revólver da polícia, ou seja, a força coercitiva do Estado. A sociedade cria seu monstro, mas não é capaz de detê-lo a não ser matando-o. A "civilização" que massifica os indivíduos não tem outra resposta que não o sacrifício para aqueles que saem de seus parâmetros hipócritas de civilidade.
"Um Dia de Fúria" é, para o espectador desatento, apenas um filminho de violência meio que inspirado nas coisas que o Charles Bronson fazia. Mas tem uma mensagem bastante crítica: ninguém mais é especial no mundo atual, e só uma espécie de letargia nos prende à "normalidade" nesta realidade.
Quarta-feira, 26 de Maio de 2010, às 12:09:04
Comédia não-muito-apelona, um filmezinho de segunda linha, ideal para assistir naquelas tardes de domingo nas quais a programação da TV está uma "maravilha".
Este é um daqueles filmes que, depois de passar pelos cinemas e locadoras, vai direto para a Sessão da Tarde ou outro programa do tipo. Comédia leve, conta a história de dois sujeitos que embarcam em um cruzeiro gay, pensando estar em um barco cheio de mulheres.
O clima de escracho total do filme é complementado pela atuação a la Eddie Murphy de Cuba Gooding Jr, e pelas previsíveis desmunhecadas da tripulação gay do navio. No meio do besteirol todo, assuntos como preconceito, sexo e confiança aparecem de forma muito superficial, mas ajudam na mecânica do filme. As piadas, no entanto, não têm nada da boçalidade esperada de um filme de comédia que trata de homossexualismo. Acho que nunca conheci um gay que tenha ficado ofendido com as caracterizações feitas nesta produção, porque justamente os personagens mais panacas são os dois héteros que embarcaram de gaiatos, e em alguns momentos parecem "a versão gorda e a versão negra" dos garotos de "American Pie".
No final, acabamos simpatizando com a espalhafatosa população do cruzeiro, à qual juntam-se loiras suecas de biquini e a ex-namorada de um dos personagens principais. Destaque para um velho agente 007, estereótipo do gay rico de meia idade, afetado, sofisticado, pernóstico, amante das artes e apaixonado por um dos protagonistas – a "bixa velha" é vivida pelo legendário (e ex-James Bond) Roger Moore, fazendo uma grande atuação em tom de autoparódia.
Apesar da mistura de temas aparentemente "pesados" para o público infantil, o filme mantém-se leve, até inocente, do início ao fim – as referências "sexuais" são bastante atenuadas e as cenas de ação não envolvem pancadaria, lembrando mais as palhaçadas dos Três Patetas. "Cruzeiro..." pode ser assistido por pessoas de todas as idades sem nenhum problema.
Quarta-feira, 26 de Maio de 2010, às 11:47:27
Adeus ao século XX. O mundo respirou aliviado. Até que, em 11 de Setembro de 2001, a festinha acabou e deu-se início ao Século XXI, com novas tensões e novas ameaças.
Um grande filme que trata de forma muito humana o momento que, para mim, marca o "fim" do século 20.
Na antiga Alemanha Oriental, uma mulher fervorosamente socialista e dedicada ao partido comunista vê seu filho participando de um protesto contra o regime. O choque a faz entrar em coma, ficando internada por algum tempo. A ação toda se desenrola no fatídico ano de 1989.
Meses depois, já no final do ano a mulher acorda. Mas o mundo como ela conhecia já não existe mais - o Muro de Berlim foi destruído meses antes enquanto ela jazia sobre uma cama de hospital. As alemanhas Oriental e Ocidental formam novamente um só país, capitalista. O presidente ocidental Erich Honecker renunciou ao cargo e seu sucessor dissolveu o Estado. Milhares de cidadãos do lado oriental migraram para o outro lado, empresas multinacionais compraram o aparato sucateado do velho Estado socialista. A Coca-Cola instalou um grande outdoor bem na frente do prédio onde os protagonistas do filme moram.
O filho desta mulher, temendo que a decepção pela destruição do seu amado socialismo possa matá-la, decide então disfarçar a realidade e esconder as mudanças ocorridas. Não fica claro qual é a intenção dele: se ele acha que a mãe não viverá muito, e portanto é melhor que morra acreditando, ou se ele vai esperar que ela melhore para contar tudo. Esse garoto é o real protagonista do filme.
Com a ajuda de um amigo metido a cineasta, nosso herói liga um videocassete (recém "importado" do mundo ocidental), e passa a fazer telejornais falsos para a mãe. Ele também troca toda a comida para velhas embalagens das marcas estatais desaparecidas.
Este filme é uma comédia, mas, sendo feito por alemães que obviamente conhecem muito bem a realidade da queda do Muro de Berlim, acaba mostrando diversos lados daquele momento histórico. Em um dos lances mais brilhantes do filme, os garotos encontram um taxista amargurado que é, nada mais nada menos, que o primeiro astronauta alemão, um antigo herói nacional reduzido ao desemprego e ao anonimato. Eles então filmam uma cena na qual o antigo governante alemão (Honecker) se aposenta e passa o poder para o "herói espacial" do país. A partir daí, o astronauta-taxista passaria a dar pronunciamentos para os telejornais falsificados da dupla, em uma mesa ornada com um busto do Lenin, uma bandeirinha vermelha e todo o aparato para formar uma encenação convincente.
A enfermeira da comunistona, que torna-se namorada do protagonista, oferece um elemento de tensão à trama, já que ela tem uma postura indecisa sobre a o aspecto ético dessa farsa toda, e até duvida da possibilidade de o garoto enganar a mãe por muito tempo.
Apesar da comédia e da trama pessoal envolvendo os personagens, "Adeus, Lênin" é um filme profundo, uma obra de arte. Em meio à palhaçada e às situações cômicas proporcionadas pela armação dos garotos, transparecem temas como as novas perspectivas e dificuldades do mundo socialista em derrocada, o surgimento do desemprego em lugares que até então o desconheciam, as falsas ilusões consumistas, o chamado "fim da história", a opressão, o fracasso de utopias que eram a esperança de milhões de trabalhadores e intelectuais, e os dramas de uma família dividida e deformada pelo muro e pelo antigo regime social do país. Em meio ao clima de um país que parece finalmente respirar – aliás, o fim da Guerra Fria deixou o mundo inteiro aliviado depois de tensos 50 anos prendendo a respiração – surgem figuras tristes, burocratas caídos e heróis nacionais esquecidos. Com o fim da RDA, suas figuras proeminentes parecem ter, também, desaparecido, mas continuam lá, vivas, vagando por um mundo que não é mais o seu.
O personagem principal, por exemplo, passa de respeitado técnico com emprego estável fixo no sistema socialista a um mero instalador de TV a cabo, com a chegada do capitalismo. Ele tem acesso a uma vida realmente melhor, com produtos de melhor qualidade nos mercados e tudo mais, mas é reduzido a mera peça do esquema de trabalho, pouco mais do que um arigó.
Os diálogos não são brilhantes, mas tem uma fala que eu nunca esqueci. É uma na qual o garoto, que em casa ainda vive na Alemanha Oriental, conversa com seus meio-irmãos. Eles estão a poucos quilômetros da velha fronteira e a poucos meses desde a queda do Muro, mas toda a ordem anterior parece pertencer a um passado remoto. Ele diz para as crianças que é um estrangeiro, e que no país onde ele vive os astronautas são chamados de cosmonautas. Os garotos perguntam onde o tal país fica e ele olha pela janela dizendo ser "em um lugar muito, muito longe daqui".
As ruas, atulhadas de porcarias fabricadas pela indústria obsoleta do lado socialista, são palco de uma verdadeira troca total de móveis, máquinas e eletrodomésticos velhos pelas maravilhas consumistas do mundo ocidental que acaba de se abrir para todos.
É como "lixo vermelho" que surge um lendário Trabant, o velho e arcaico carro com motor de dois tempos (tipo o nosso DKW) fabricado pelos alemães socialistas de 1959 a 1989. As pessoas simplesmente dão seus Trabbis (como o carro era apelidado) à primeira pessoa que encontram na rua, porque pensam em comprar modernos Volkswagens, Fords, Fiats e até Ferraris. O Trabi era um carro realmente atrasado, com conceitos mecânicos de seis décadas antes. O garoto pega um desses Trabants e diz para a mãe que comprou o carro, e ele passa a ser o meio de transporte da família.
A cena-título, a mais emblemática, é uma na qual um helicóptero carrega uma imensa estátua de Lenin com o braço estendido. Isso acontece logo depois que a mãe do protagonista descobre a trama e percebe que o socialismo real não existe mais. Ela pára na rua, e a estátua passa voando. Lenin, com o braço esticado, parece acenar um último adeus ao povo que um dia foi obrigado a amá-lo. Lindo, poético e historicamente coerente. Uma baita de uma cena. Aliás, uma boa cena dentro de um filmaço.
Quanto aos aspectos técnicos deste filme, não há o que ser dito. A fotografia é competente, a direção é firme e uniforme, e há um certo "ar de orquestra", parecendo que algum maestro extremamente competente na arte de brincar com os fluxos de emoção do público esteve dirigindo a obra toda. Este é um filme revolucionário em muitos sentidos. É uma das poucas obras do cinema alemão que teve sucesso de público no Brasil (eu lembro agora, apenas, de "Nosferatu o vampiro da noite" e "A Queda"). É um filme que marca definitivamente o cinema europeu. E é, por fim, uma obra muito bem acabada que vai, daqui a alguns anos, entrar para o panteão sagrado dos clássicos do cinema.
Este filme não é tanto sobre os dramas de uma pessoa, ou sobre as trapalhadas cômicas do protagonista (embora tudo isso ajude a construir a narrativa cativante do filme), e sim sobre o drama de um povo que viu um mundo todo desmoronar e ser substituído por outro, com novas alegrias e novos desafios, no espaço de poucas horas - basicamente, o tempo que as pessoas levaram para derrubar a marretadas o famigerado Muro que por 40 anos separou a Alemanha e o mundo em dois lados irreconciliáveis.
Quarta-feira, 26 de Maio de 2010, às 11:13:42
Produção simples, sem maiores pretensões. O nome de maior peso é uma "estrelinha de segundo escalão hollywoodiano", que termina brilhando menos do que as atrizes desconhecidas.
Filmezinho despretensioso, realizado sob a forma de um quase-documentário, misturado com comédia romântica e um pouco no espírito de "filmar o real" (mas que não é realmente real) que marca produções como “Borat", só que sem o lado "pornochanchada" deste, muito semelhante também à linguagem que podemos encontrar em programas como "Extreme Makeup", ou em curtas-metragens como "Estranhos" e "O Homem-Refluxo".
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Lançado em 1998, "20 Encontros" custou uns 60 mil dólares, uma bagatela. A história é simples, mas ao mesmo tempo, bem bolada. Um cineasta fracassado e sem talento decide fazer um filme "real", mostrando seus encontros com 20 garotas em busca do verdadeiro amor. No caminho, conhecerá sua amada antes do vigésimo encontro, e ela terá que conviver com as garotas que ainda faltam para completar as filmagens.
Trata-se de um filme divertido. Há algumas piadas forçadas e alguns personagens femininos improváveis, que quebram o clima de filmagem "acidental" buscado pela produção. O protagonista, um sujeito brincalhão, é bem interpretado, mas eu nunca ouvi falar do ator. A atriz Tia Carrere aparece no filme, como uma das mulheres com quem ele se encontra, mas sua presença não chega a ser muito importante - este é um filme esquisitísimo, no qual um elenco de pessoas desconhecidas consegue prender muito mais a atenção do público do que as aparições de estrelinhas de Hollywood. Carrere está lá, basicamente, para que seu nome apareça na capa do DVD, dando mais “credibilidade" ao filme. Uma vez que a pessoa tenha já optado pelo filme, sua presença torna-se irrelevante.
"20 Encontros tem" um final bem convencional no melhor estilo "... e viveram felizes para sempre", mas as situações que se desenrolam antes disso são gozadas, e o filme é tão diferente das fórmulas convencionais a que estamos acostumados, que até vale a pena assistir.
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010, às 23:21:28
As capas do livro e do DVD. A capa do filme é melhor. Mas o conteúdo bom está na versão de papel.
AUTOR: Irvin D. Yalom
LANÇAMENTO: 2000
EDITORA: Ediouro
Confesso que demorei muito a escrever a crítica deste livro, mas é com prazer que coloco-o neste artigo de inauguração da sessão de textos literários deste site. Trata-se de uma pequena obra-prima, que possivelmente será considerado um clássico, no futuro, quando for antigo o suficiente para isso.
O enredo passa-se no século XIX, quando o médico judeu Josef Breuer, um dos pioneiros da psicanálise, que é um médico respeitado que dá força às pesquisas de um jovem aprendiz e amigo seu chamado Sigmund Freud, recebe a visita de jovem e misteriosa Lou Salomé. A moça pede que ele trate do desespero terminal que está consumindo a mente de um amigo – um professor aposentado por motivo de doença, e filósofo de pouca fama, chamado Friedrich Nietzsche. Sem brincadeira: Breuer é, em grande medida, o mentor de FREUD e tem a missão de compreender a mente de NIETZSCHE. O cara devia ser mesmo power fodão!
Só que tem um detalhe: Nietzsche não acredita estar doente. O autor fez um retrato humanizado e ao mesmo tempo, coerente com a vida do filósofo alemão, que morreu em 1900, completamente louco. Nietzsche era completamente apaixonado por Salomé, e quando ele a perdeu, seu equilíbrio mental foi para o buraco.
Quem foi esse Nietzsche?
É preciso conhecer a vida de Nietsche para curtir totalmente o livro de Yalom. Estamos falando sobre um pensador que não acreditava em Deus, e achava que o cristianismo era a filosofia do medo, da covardia, do anti-instinto. Que a humildade, e bondade e a mansidão eram a negação da verdadeira natureza do homem, que é brutal, agressiva, orgulhosa, que busca a grandeza, não o encolhimento. Ele cunhou o termo "super-homem", não no sentido do herói da DC Comics, e sim, de um "homem além do homem", liberto das amarras falsas das religiões que pregam a fraqueza e o comedimento, liberto da moral, liberto de tudo. Nietzsche começou a vida como professor de filologia, mas logo passou a sofrer de terríveis dores de cabeça que o deixavam enjoado, faziam desmaiar e passar mal. Então, foi aposentado com uma pensão modesta e passou muitos anos viajando pela Europa, ficando em pensões baratas, e escrevendo suas idéias. Alguns de seus livros foram publicados em edições pouco numerosas, outros, ele mesmo teve que pagar para ver impressos. Nunca teve muitos leitores, e dizia-se "póstumo", anunciando que suas idéias só seriam reconhecidas depois de sua morte, porque estavam à frente do seu tempo. Foi amigo, e depois rompeu com Richard Wagner, um dos maiores compositores da história da Alemanha. Também rompeu com Schoppenhauer e outras figuraças da história do pensamento do século XIX. Era um solitário, que pregava que a solidão era condição necessária para sua genialidade (ele não era nada modesto). Ao mesmo tempo que viajava, pensava e escrevia, Nietzsche tentava conviver com crises de sua doença que quase o matavam, deixando vários dias no quarto a agonizar. Mas sempre se recuperava. Até que, um dia, simplesmente enlouqueceu – passou a referir-se a si mesmo como "o crucificado", e acabou sendo acolhido por sua mãe e sua irmã, na casa da família, onde morreu na virada do século.
Muitos anos depois de sua morte, sua irmã acabaria adulterando seus textos e idéias, e reunindo partes de cartas e rabiscos, fora do contexto, em um livro. Seu conceito de "super-homem" passou a ser interpretado como a idéia de uma raça superior, e ele ganhou a pecha de anti-semita (apesar de nunca ter demonstrado nenhum preconceito contra judeus, ou por qualquer estrangeiro). Acontece que a "maninha" de Nietzsche fez todo esse cambalacho ideológico para transformar seu irmão numa espécie de precursor no nazismo, doutrina política que começava a fazer sucesso na Alemanha dos anos 1920 e 1930.
Depois do fim do nazismo, em 1945, Nietzsche passou alguns anos sendo visto como um filósofo "maldito", mas acabou reabilitado quando tornou-se então pop, cult, famoso e os jovens metidos a intelectual passaram a "abafar" citando frases suas. Nietzsche provou que era mesmo póstumo. E chique.
De volta ao livro
Pois bem. No livro, Breuer deve tratar Nietzsche sem nunca revelar que o está tratando. Então, Breuer apresenta-se como se estivesse sendo perturbado por dilemas da meia-idade, e pedindo que o grande filósofo o ajude a compreender as entranhas de sua própria mente. Nietzsche inicialmente nega, mas Breuer oferece-lhe estadia, pelo tempo que o tratamento durar, em uma instituição de recuperação e repouso na qual Nietzsche poderá recuperar-se de sua doença, que estava causando crises constantes.
Com o tempo, Nietzsche vai ficando lisonjeado por ter um seguidor, e encara aquilo como a chance de, ao mesmo tempo, pregar suas idéias para alguém que poderá compreendê-lo, e ao mesmo tempo, de usar aquele espécime humano como laboratório para suas próprias pesquisas sobre a psique humana.
O livro é um passeio pelas idéias e dramas da existência do homem moderno, apegado a noções de sucesso que são socialmente construídas mas tornam-se insuportáveis pressões, e ao mesmo tempo, são frustrantes. Breuer começa a interação com Nietzsche fingindo-se de infeliz, e tentando arrancar informações pessoais de seu paciente. Mas com o tempo, o próprio Breuer é quem acaba convertendo-se em paciente, tornando sua farsa uma realidade. O médico, muito respeitado e bem sucedido, acha sua vida muito chata, e vive perturbado por fantasias eróticas com uma paciente sua, que tem crises de epilepsia.
Breuer vem alimentando o desejo de deixar sua família e tentar uma vida completamente nova com a paciente. Nietzsche tenta abordar o problema desconstruindo a imagem idealizada que o médico tem da jovem, mas isso não dá resultado. Então, os dois passam a desconstruir várias ilusões que ambos têm acerca de suas próprias vidas. Mas Nietzsche é, em todos os momentos, muito auto-consciente, frio, e parece não nutrir ilusão nenhuma, portanto não sofre baque algum nessa "destruição de falsas realidades".
A trama então passa a centrar-se em Breuer, suas fantasias e desinteresse pela vida da forma como ela se apresenta. Ele é um homem sério e cumpridor dos protocolos sociais, e isso aparentemente o liberta, mas na verdade o aprisiona. O médico realmente entra em desespero quando Nietzsche o faz ver como está desperdiçando sua vida, vivendo preso às convenções, das quais o filósofo escarnece.
Perto do final, Breuer faz experimentos sobre sua vida, ao sair de casa deixando os filhos e a esposa para trás. Mas sua escolha prova ser a mais infeliz – sua vida é tediosa, chata e sem sentido à medida em que ele vive preso a ela apenas para enquadrar-se em um modelo de vida socialmente aceito, mas não precisa necessariamente ser destruída para ser plena – basta que ele re-valore os aspectos dela e passe a viver, de cada aspecto de sua existência, apenas aquilo que faz sentido para sua natureza, não para o que as outras pessoas esperam. E aí, logo depois, vemos o título do livro passando a fazer sentido. Nietzsche finalmente abre sua couraça psicológica, revelando que apesar de autêntica e coerente com suas idéias, sua vida é profundamente infeliz, porque, ao renunciar às convenções sociais, familiares e religiosas, tornou-se mais livre, mas privado da felicidade ingênua do homem comum, e cuja falta ele lamenta muito. Breuer tenta convencer o amigo a reingressar no mundo da "normalidade" e buscar esta felicidade, mas Nietzsche diz que "é tarde", tanto porque ele não pode ignorar as coisas que, infelizmente, descobriu sobra a vida, e portanto não pode reconstruir as ilusões do homem comum, de mente obtusa, que permitem-lhe ser feliz. Nietzsche foi longe demais e não pode mais voltar.
Uma avaliação pessoal
Yalom conseguiu um feito que eu só havia visto em Shakespeare: ele escreveu um romance que nos leva a passear pelos recantos mais obscuros da mentalidade e das fantasias do homem comum da modernidade, desencantando suas ilusões e falsas verdades. Trata-se de um raio-X cru da alma humana.
Como romance, o livro é muito bom. Tem ritmo, fluidez, e prende o leitor da primeira à última página. Os diálogos são inteligentes, as situações bem construídas, e os personagens, profundos.
Para quem conhece as figuras de Josef Breuer, Friedrich Nietzsche, e outras pessoas reais retratadas, é um interessante exercício de imaginação sobre a vida e a mente dessas figuras que tanta importância têm nas bases do pensamento do nosso século, porque o escritor teve o cuidado de manter-se fiel às personalidades dessa gente.
Recomendo. Recomendo 20 vezes. Sem dúvida nenhuma. Só vou avisando: se você for fã de livrinhos de auto-ajuda daqueles do tipo "vida positiva e reafirmação da felicidade e do sucesso plenos", ou não tiver um mínimo de conhecimento sobre os pensadores do século XIX, vai achar o livro complexo demais. Mas não é para gente assim que escrevo esta resenha.
Tem até o filme
O livro virou um filme, que eu assisti e não recomendo, porque achei muito fraco - produção desleixada, direção insegura - mas se você não for do tipo que gosta de ler livros, pelo menos assista ao filme. Mas já vou avisando: na tela, "Quando Nietzsche Chorou" tem uns 20% da qualidade da versão impressa.
Sábado, 22 de Maio de 2010, às 20:10:48
O show tem que continuar. Aliás, assim que eu achar um tempo, pretendo cometer mais alguns atentados à arte dos irmãos Lumiere.
Nos tempos da faculdade, eu gravei 4 curtas-metragens absolutamente toscos e despropositados. Resgatei uma fita, que estava há alguns anos com a POATV, e pretendo mandar passá-la para DVD, fazendo então os vídeos em "formato Youtube" para disponibilizar na rede. Os dois filmes, no caso, são os seguintes:
O prédio dos horrores
Tem 12 minutos de duração, foi feito em 2002, o elenco é amadoríssimo (formado pelos meus parentes) e trata da história de um prédio, localizado em Capão da Canoa, que é aterrorizado por uma espécie de demônio assassino tocador de violino, que transforma suas vítimas em zumbis assassinos. Trash total, teve um orçamento de aproximadamente 40 reais, gastos na compra de uma fita VHS para a câmera, algumas velas e diversas bisnagas de catchup. O vilão, só para se ter uma idéia do nível da coisa, é um demônio usando camiseta da Fender, e chama-se "Exu Caveira".
As mentiras que os homens contam
Filmeco que deve ter uns 15 minutos de duração, feito em 2003 ou 2004, na faculdade – o elenco é formado pelos meus colegas, e todos atuam pessimamente. Absolutamente mal dirigido por mim, com iluminação tosquenta feita pelo grande cineasta/intelectual-poser Isidoro Guggiana, e roteiro baseado em Luis Fernando Veríssimo. Uma das poucas coisas que salvam o filme é a beleza da protagonista, interpretada pela minha amiga Carol Milanez. É bem menos tosco do que "Prédio dos Horrores", mas não deixa de ser trash.
Fora esses dois, tem mais 2 curtas que eu acredito que ainda existem em algum lugar, em alguma fita na casa dos meus pais, mas não sei se conseguirei um dia achar e recuperar:
O filme de mistério mais curto do mundo
Como o próprio nome diz, tem uns 120 segundos de duração. Uma madame metida a besta chama seu mordomo para dizer que vai demiti-lo, recebendo como resposta uma facada no meio da cara. Essa madame estava sentada na ponta de uma mesa, tomando café com alguém que a gente não enxerga. Quando ela cai morta, a câmera se afasta e revela a outra pessoa tomando café na lateral da mesa: um detetive, que olha para a câmera e diz o óbvio: "Elementar meu caro Watson, o verdadeiro culpado é o mordomo!"
Penso, logo existo
Minha obra intelectual por excelência, tem uns 8 minutos de duração. Eu na verdade havia conseguido fazer uns efeitos legais com cortes e sobreposições, e gravei um diálogo entre eu e a minha irmã sobre o sentido desta frase de Descartes, sendo que, através dos tosquíssimos efeitos, nós passeávamos pelas explicações de forma meio surreal. Era um exercício de treino sobre efeitos de luzes, cortes e edição. Ficou tão sem sentido que eu pensei que a POATV nunca o exibiria. Mas exibiu. E o mais incrível: teve gente querendo discutir os múltiplos sentidos e mensagens cifradas passados (na cabeça deles) pela linguagem abstrata do filme. Eu nunca desmenti esses tais de "múltiplos sentidos", e por um tempo até posei de artista vanguardista diante de quem vinha com esses papos.
Fora esses, existem inúmeros filmetes que eu fazia com meus colegas de aula do 1º Grau, e que evidentemente não merecem a classificação de "filmes", pois eram brincadeiras de crianças. Mas alguns deles tinham idéias bem originais, e eu penso um dia fazer talvez curtas-metragens com as idéias básicas deles, ou talvez animações. As idéias que eu nunca esqueci são as seguintes:
O cozinheiro ninja
A idéia surgiu na casa do Tito, ali perto do Shopping João Pessoa. Nós estávamos lendo a embalagem de um suco Tang, e entre os componentes tinha um sei-lá-o-que de Titânio. Para completar, a mãe do cara tinha um tal de Ozonizador de Água. E as bolachas recheadas que nós comíamos tinham, também, componentes com nomes muito bizarros na embalagem. Após comer essa mistureba química, um homem comum acaba levando um choque do fio desencapado de um liquidificador, e quando acorda está transformado no COZINHEIRO NINJA, com superpoderes e tudo mais. Ele tem dois arquiinimigos: o surfistão Let’s Baby e o Doutor Strovenga. Monstros gigantes, prédios de papelão, carrinhos de brinquedo, e uma população apavorada formada por bonequinhos Playmobil rendiam as cenas de luta desses meus clássicos infantis.
Nosferrado, uma Symphonia de Error
Versão infanto-tosquenil do clássico Nosferatu, no qual eu interpretada o vampiro e o Tito fazia o mocinho. Uma imbecilidade completa, até porque o castelo do vampiro era encenado no apartamento dos meus pais. Dois momentos dessa obra, eu nunca esqueci: uma é a perseguição que o vampiro empreende ao mocinho, filmada no corredor do apê, na qual usamos cortes para criar um momento "três patetas", com os personagens entrando numa porta e saindo na outra, encontrando-se no meio do corredor e entrando em outras portas. E também a cena final, na qual o vampiro não é vencido por estacas de madeira ou pelo sol, e sim em uma muito mal-feita cena de kung-fu na melhor tradição dos filmes do Bruce Lee. Na verdade, o mocinho é quem apanha a luta inteira, como se fosse o Rocky Balboa. Então, cansado e quebrado, resolve sacar sua arma (um revolvinho de espoleta que eu tinha), e manda umas 10 balas na cara do vampiro.
Natural Geográfico
Uma série de documentários sobre criaturas estranhas que habitavam nosso meio circundante (que era urbano, portanto eram todas CRIATURAS HUMANAS). O episódio clássico por excelência era sobre os "Pa-Pa-Pablos da Foooo...fooo....foloresta". Acontece que nós tínhamos um colega chamado Pablo, que era aquele típico retardatário de escola de primeiro grau, que é muito maior do que os colegas (por ter sido reprovado uma penca de vezes), e posa de valentão. Geralmente é ele quem ensina aos amiguinhos coisas como fumar, beber, cantar as meninas, e coisa e tal. Mas o nosso colega Pablo era, ainda por cima, meio gago, e fazia mais o gênero "grandão e bobalhão", abrutalhado e mentalmente lerdo. Outros episódios envolviam a criatura "Paulão/Paulinha", capaz de mudar de sexo, que era uma arriação em cima de um professor de educação física que adorava posar de machão. E o "Eron Teletransportador", sobre outro professor de Educação Física que tinha o poder de jogar uma bola no meio da quadra para a gurizada jogar, imediatamente desaparecendo e se teletransportando para a sala da diretoria, onde ficava tomando café por meia hora. Eu não lembro quem narrava os episódios, mas no "Pa-Pablos...", quem narrou foi o Becker "Sem-Boca", que hoje é um cara sério, administrador, ou economista, sei lá.
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010, às 18:19:37
E novamente, preciso pedir desculpas por usar o Paintbrush na hora de compôr uma ilustração. Resolvi colocar umas fotos do filme de 1979 no final, só porque não poderia deixar de fazê-lo.
Eu estava há horas querendo escrever a resenha de Nosferatu, esse clássico do cinema mudo gravado em 1922 na Alemanha da República de Weimar (um breve período democrático que veio depois da derrubada do kaiser Guilherme II em 1918 e antes da tomada do poder por Hitler em 1933).
Tudo neste filme é deliciosamente esquisito, bizarro, medonho e apavorante. Na década de 1920, sem recursos de computação gráfica, o diretor desta maluquice completa conseguiu criar uma obra de arte do horror, inspirando pesadelos sem recorrer a monstros mutantes do Espaço e nem a cenas grotescas com serras elétricas. "Nosferatu" revolucionou a arte cinematográfica, e tornou-se referência para gerações de cineastas até hoje.
A história é uma versão da velha e manjada saga do conde Drácula, retirada do livro de Bram Stoker: um vampiro, que mora em um lugar remoto, muda-se da Transilvânia para a cidade grande, iniciando uma onda de horror. No meio do caminho, apaixona-se pela linda mocinha, esposa recém-casada do agente imobiliário que o está auxiliando na mudança, e passa a persegui-la. Ou seja, nada de novo.
O diretor Frederick Wilhelm Murnau não falou com a viúva do escritor. Para evitar um processo pelos direitos autorais, resolveu modificar os nomes e lugares, mantendo o enredo original. Assim, o conde chama-se Orlock, e não Drácula. Ele muda-se para Wisborg (uma cidade fictícia), não para Londres. O casal mocinho/mocinha chama-se Thomas e Ellen Hutter (e não Jonathan e Mina Harker), o serviçal hipnotizado do conde chama-se Knock, e não Renfield. O professor que sabe como combater o vampiro chama-se Bulwer (e não Helsing).
"Nosferatu" não é, no entanto, apenas uma cópia "pirateada" do Drácula que conhecemos. A imagem do conde vampiro que acabou consagrada como "oficial", e que é a mais fiel ao livro de Stoker, foi na verdade cristalizada pela atuação do ator húngaro Bela Lugosi no filme "Drácula", de 1931, produzido pela Universal, em Hollywood.
Drácula é um vampiro misterioso, sensual, reservado, com um visual limpo e elegante, que transforma-se em cão ou morcego, e que consegue atrair as pessoas com seu charme. Já Orlock é um verdadeiro monstrengo, careca, com olhos esbugalhados e orelhas pontudas iguais às do Sr. Spock. Enquanto Drácula tem os dentes caninos levemente maiores do que o normal, Orlock tem os dois dentes frontais enormes e pontudos, lembrando os de um rato.
Hutter vai até a Transilvânia, onde os aldeões morrem de medo do conde que vive recluso em seu castelo em ruínas. Depois, Orlock embarca em um navio para a Alemanha, viajando no compartimento de carga, dentro do seu caixão. A cena na qual o vampiro levanta-se diante de um marinheiro boquiaberto é incrivelmente impressionante, e quando eu assisti a este filme pela primeira vez, há muitos anos trás, tive pesadelos com ela. Revendo-a hoje em dia, não a acho nada assustadora, mas é uma pequena pérola da arte cinematográfica daquela época.
O navio chega ao porto sem nenhum tripulante vivo, mas infestado de ratos. A cidade logo entra em polvorosa, devido a uma misteriosa praga espalhada pelos roedores, que parecem ter sido atraídos até lá por alguma coisa – Orlock é tão medonho que atrai ratos! E o pior, ratos portadores de doenças!
O resto da história segue um ritmo "draculesco": Hutter percebe que há algo errado acontecendo, Bulwer esclarece ao mocinho sobre as fraquezas de um vampiro, e depois de muitas peripécias, vamos ao grande final.
Aqui, temos mais um momento de diferenciação entre Nosferatu e Drácula: enquanto na versão clássica, Helsing e Jonathan entram no covil do vampiro para matá-lo com uma estaca de madeira no coração, nesta versão quem salva o dia é a mocinha Ellen.
A jovem e linda senhora Hutter (interpretada por uma atriz que eu só vi neste filme, Greta Schroder), deita-se em sua cama e deixa a janela aberta, já sabendo que Orlock, o conde/rato/tarado, costuma observá-la à noite (ele comprou a casa em frente). O velho monstrengo não se faz de rogado, e vai até o quarto dela. Segundo a lenda, os vampiros só entram onde são convidados, e a janela aberta serve de convite para o feioso, que passa horas admirando a beleza da alemãzinha que dorme placidamente. Então, ele abaixa-se e fica sugando o sangue dela, longamente, sem perceber a passagem do tempo. Ellen morre, mas Orlock também ferra-se lindamente, porque o sol nasce no horizonte, reduzindo-o a cinzas.
Pioneiro no uso de cenas externas no cinema alemão, o filme revolucionou a linguagem cinematográfica, sendo classificado normalmente como uma das maiores produções do expressionismo alemão, com seus cenários que parecem saídos de algum sonho e cenas que conseguem criar um clima fantasmagórico e perturbador.
Tem uma parte na qual Orlock sobe umas escadas e está indo em direção ao quarto de Hutter, na qual só vemos sua sombra a mover-se pelas paredes do velho casarão – esta imagem seria depois recriada, "homenageada" e copiada descaradamente em dezenas e dezenas de filmes, hollywoodianos ou não.
Logo depois do lançamento de "Nosferatu", Murnau recebeu a intimação da viúva de Bram Stoker – apesar dos nomes trocados, o processo por plágio não pôde ser evitado. A Prana Filmes, produtora da película, havia sido fundada pouco antes da realização deste que foi seu único filme, e faliu com o processo judicial. No fim, o tribunal decidiu pela destruição de todas as cópias existentes de "Nosferatu" – mas, por sorte, já haviam exemplares guardados em coleções particulares (inclusive, reproduções piratas exibidas por cinemas menores), e isso permitiu que a obra fosse resgatada algumas décadas depois. Juntando as partes mais bem conservadas de cada exemplar, remasterizando algumas partes e corrigindo tudo o que o mofo destruiu, chegamos aos dias de hoje com uma excelente versão, relançada em DVD na década de 1990.
A obscuridade da Prana Filmes, a falta de documentos sobre a produção de "Nosferatu", e a própria esquisitice do diretor Murnau, colaboraram para que surgissem várias lendas sobre a produção.
Nosferatu, o vampiro da noite
Em 1979, o diretor Werner Herzog gravou uma nova versão, falada, da história de Nosferatu. Desta vez, a produção não teve problemas com direitos autorais, e o filme tem pequenas modificações no enredo, além de um elenco legendário: o genial e psicótico Klaus Kinski interpreta o conde Orlock, enquanto Ellen Hutter é interpretada pela atriz francesa (para mim, uma das mulheres mais lindas que já andou pela face da Terra) Isabelle Adjani. O mocinho, Hutter, é interpretado pelo brilhante ator Bruno Ganz, que aqui aparece como o herói jovem e loiro de queixo quadrado, destemido e coisa e tal. Isso me chamou a atenção, porque, muitos e muitos anos depois, Ganz faria, já na condição de ator enrugado de meia-idade, o papel que para mim, foi sua atuação mais brilhante: nada menos que Adolf Hitler, no filme "A Queda".
O final do "vampiro da noite" é bem diferente do filme original. A mocinha realmente morre para fazer o vampiro ser atingido pelo sol. Helsing chega ao local, e crava uma estaca no peito do conde, só para ter certeza de que ele não vai levantar. Tudo parece resolvido, até que, na cena final, o mocinho – que havia sido atacado pelo vampiro, e passara boa parte do filme doente, à beira da morte – levanta-se da cama, com os olhos esgazeados, evidentemente transformado em vampiro, e arranja um jeito de prenderem o doutor Helsing. Então, monta em seu cavalo, dizendo que tem "muito a fazer", e parte a galope, usando uma capa preta.
A sombra do vampiro
No ano 2000, foi lançado um filme chamado "A Sombra do Vampiro", que conta uma história sobre a produção de "Nosferatu". Nele, o ator principal, chamado Max Schreck, é na verdade um autêntico vampiro. Murnau teria contratado um monstro de verdade para dar mais verossimilhança ao filme, e oferecido a atriz Greta Schroder como pagamento, assim que as filmagens estivessem completas. O plano teria dado errado, quando Schreck começou a atacar outros membros da equipe. No final, Schreck, o vampiro, teria "se empolgado" numa cena na qual deveria chupar o sangue da mocinha, morrendo queimado pelo sol. Murnau, tresloucado, é visto na cena final deste filme gritando para a equipe não parar de filmar, enquanto seu ator principal dissolve-se diante das câmeras – e assim, o final do filme de 1922 não teria sido uma encenação.
A falta de dados sobre a identidade de Schreck realmente chegou a levantar muitas lendas por muito tempo, e por uma série de razões. A começar por seu nome: "schreck", em alemão, significa algo como "horror, medo". Assim, "Max Schreck" poderia ser traduzido livremente por "horror máximo". Parecia mesmo um nome inventado para esconder outra identidade. Além disso, o ator parece só ter existido nas filmagens de "Nosferatu", já que não existem outros registros cinematográficos dele. A verdade é que Friedrich Gustav Max Schreck foi um ator famoso do teatro alemão do entre-guerras, e chegou a atuar em outros filmes de curta metragem. Infelizmente, boa parte de sua obra no cinema perdeu-se durante o nazismo e a 2ª Guerra Mundial.
Aviso final
Este post está muito longo, mas não chega aos pés do número de linhas que seria necessário para falar de uma obra com a dimensão de "Nosferatu, uma sinfonia de horror". Assista ao filme, mas por favor, faça-o em casa, de preferência com as luzes apagadas, prestando atenção. Não é um filme para ver enquanto se prepara comida ou conversa. É uma obra de arte, que apesar de não assustar mais (o filme tem 90 anos de idade, nunca esqueça), ainda impressiona e nos dá uma aula de como se faz cinema. Pena que a escola expressionista evaporou-se no ar quando Hitler e seus amiguinhos cravaram suas botas em cima da nação alemã.
Segunda-feira, 17 de Maio de 2010, às 17:36:32
Lula, o Filho do Brasil - um filme que não é sobre política, mas sobre superação, persistência, oportunidade, e acima de tudo, a capacidade de lidar com as adversidades da vida real.
Quando eu resolvi assistir a "Lula, o filho do Brasil", tinha a plena certeza de que veria uma peça de propaganda do PT, enaltecendo o Lula heróico, como um messias da classe trabalhadora que conseguiu ascender ao poder portando suas bandeiras vermelhas da ideologia socialista. Ou seja, esperava ver uma versão alternativa do filme "Che", ou de "Fidel" (aliás, dois filmaços que eu ainda vou criticar aqui no blog, prometo, basta que me sobre tempo). Mas, em grande medida, "o filho do Brasil" não segue a mesma linha. E já vou adiantando: é uma das melhores produções brasileiras, uma das mais emocionantes e bem boladas que eu já assisti. E olhem, que eu não sou exatamente um apaixonado pelo PT.
O início é meio "Dois Filhos de Francisco", mostrando uma família de nordestinos muito pobres, que sobrevivem não sei como. O pai da família emigra para São Paulo, onde arruma emprego de estivador e se "junta" com uma menina bem mais nova, deixando a esposa no nordeste com uma penca de filhos esfomeados. O filho mais velho, que sabe escrever, faz uma carta pedindo à mãe para que venda tudo o que tem e emigre também com a prole toda. E assim, dona Lindú, mais um monte de nordestinozinhos ranhentos (incluindo o pequeno Luis Inácio) embarcam num caminhão rumo ao porto de Santos.
A vida em Santos é terrível, mas menos terrível do que a paisagem de Pernambuco, porque pelo menos aqui nós vemos água por perto. Aliás, se há uma coisa que me impressionou nesses momentos iniciais do filme, é exatamente isso: eu já achava a vida dos "filhos de Francisco" desgraçada demais, mas a do "filho do Brasil" consegue ser ainda mais indigente. E o pai dele, ainda por cima, não acredita no valor do estudo, bebe e sai batendo em todo mundo. Logo a família se desintegra e lá se vai Lindú com sua creche para uma favela, onde Lula cresce.
Houveram críticos de cinema que avacalharam com este filme por ele não focar no Lula-herói, mas para mim este é o principal mérito da película. Lula cresce como a maioria dos jovens de sua classe na sua época, politicamente alienado, preocupado em se enquadrar no esquema geral das coisas, se sair bem na escola, e impressionar as menininhas do bar.
Uma das sequências mais emocionantes do filme todo, para mim, é a parte em que Lula faz o curso de torneiro mecânico no SENAI. No primeiro dia, ele enfia as mãos numa lata de óleo (e eu não pude deixar de lembrar dele, há pouco tempo atrás, com as mãos sujas de petróleo numa usina da Petrobrás), apenas para lambuzar seu macacão novinho com uma mancha negra. Tudo para chegar em casa com o aspecto sujo de um operário já formado. Sua figura imunda de graxa e com os cabelos desalinhados provoca um choro de orgulho por parte da mãe, dona Lindú. Acho uma cena linda, emocionante, porque lida com uma coisa que eu conheço bem: os pequenos sonhos e a simbologia envolvida em certas imagens, para as pessoas muito simples. Tem uma cena na qual Lula segura seu diploma de torneiro mecânico na mão, e a família chora copiosamente, como se o menino tivesse conquistado a maior vitória do mundo. O tal curso de torneiro era apenas um profissionalizante, não era nem um técnico e nem uma faculdade. Mas para uma família analfabeta e miserável há várias gerações, aquele grau tinha um significado muito maior do que um mestrado para a maioria das famílias de classe média.
Essa cena do SENAI é muito linda. Muito linda mesmo. De arrancar lágrimas dos olhos. É claro que alguns críticos que eu li referiram-se a ela como exagerada, piegas e desproporcional, mas eu já penso que estes críticos devem ser todos uns almofadinhas, criados em escola particular e com uns 10 diplomas de cursinhos daquele nível, feitos às custas do papai. Para mim, que fiz ensino médio numa escola técnica federal, e tive colegas saídos das profundezas mais abissais do espectro social, a emoção desta cena é compreensível. Eu vi gente, pais desses colegas, dizendo coisas como "meu filho agora é doutor", diante do (para alguns) reles diplominha de nível técnico da UFRGS.
A inteligência da concepção deste filme reside no fato de que ele é uma cinebiografia de um homem real, não um tratado político ao estilo Eisenstein. Então, nós vemos uns dramas pessoais de Lula.
Ele tem uma namoradinha, desde a infância na Vila Carioca, que acaba se transformando na esposa dele. Confesso que senti um frio na barriga ao ver Lula e Lurdes casando, porque eu sei que a mulher dele hoje em dia é a Marisa Letícia. Tive a nítida impressão de que veria aquele amor lindo, de infância, aquela coisa poética e idealizada, se transformar numa separação. Mas não. Lurdes morre, no parto, levando o filho junto. É triste. Mas é triste, porque a gente sabe que é real. Se este não fosse um filme baseado em fatos reais, seria um final muito mais aceitável do que uma separação para este romance tão hermeticamente perfeito, tão, diria até, inocente. Tão "desde sempre e até que a morte os separe".
Daí, depois, tem a parte em que Lula pega um táxi, conhece um velho que tem uma nora viúva e depois encontra com a tal viúva – Marisa Letícia, a nossa atual primeira-dama. Da vida amorosa de Lula, é o que vemos: depois vem o casamento com esta nova esposa, e a vida segue seu curso normal. Não há nenhuma menção a uma filha ilegítima, Lúrian, apesar do fato de ela na realidade existir – a moça apareceria no palanque de Collor em 1989, numa das manobras ao estilo "vale tudo" que roubaram o Planalto das mãos do "filho do Brasil" nas primeiras eleições diretas depois do regime militar.
O filme só começa a mencionar alguma coisa de política a partir do momento em que Lula passa a ser torneiro mecânico, nas fábricas de automóveis do ABC paulista. Tem uma hora na qual ele perde o emprego e é obrigado a carregar caixas na feira, e aí se desespera, vendo seus sonhos e ilusões de ter "vencido na vida" caírem por terra. Mas logo depois ele volta à indústria, e começa a se envolver no sindicato dos metalúrgicos do ABC.
Agora, uma pausa para respirar. Neste momento do filme, o diretor poderia optar por três linhas:
a) Exagerar o envolvimento de Lula com o Partido Comunista Brasileiro, e dizer que ele sempre teve ideologias de esquerda, apenas usando um sindicato pelego como "trampolim".
b) Mostrar um Lula intelectualizado, distante do PCB, mas ávido por iniciar um novo movimento de massas, o que serviria como uma espécie de preparação profética para o nascimento do PT.
c) Mostrar um Lula realista, ou seja, um operário que vai entrando no sindicato por conveniência e termina envolvido no turbilhão político da época.
O diretor optou pela alternativa C – Lula, com pouco estudo e quase nenhuma formação política, entra no sindicato participando da chapa situacionista, e até compactuando com algumas pilantragens da entidade. Ele não é um comunista, não tem uma visão "macro" da política nacional, e não tem pretensões de fundar um novo movimento de massas. Ele simplesmente vai entrando porque começa a perceber as vantagens de estar no sindicato, dentro de uma liderança pelega, pela segurança que isso dá, pelos contatos, pelas possibilidades de ação e da influência sobre processos de contratação, emissão de documentos e tal. Lula começa a ficar "importante" por ser membro da diretoria do sindicato, e gosta disso.
Lá pelas tantas, porém, ele começa a se dar conta do papel que está fazendo – o de servir de ponte entre um sindicato pelego e uma categoria que vê nele o único operário dentro da lista de dirigentes – o resto são apadrinhados políticos ou trabalhadores de colarinho branco. Aí, Lula começa a querer colocar as manguinhas de fora. E o filme encaminha-se para o final.
O resto é história conhecida: greves no ABC paulista, repressão, passeatas, um regime militar agonizante que tenta deter os focos de revolta popular prendendo lideranças, e as ruas tomadas de trabalhadores que enxergam em Lula não uma bandeira política ou ideológica, mas um empregado disposto a pressionar por demandas que o pessoal do PSTU chamaria de "reformistas" – salários melhores, garantias de emprego, jornadas menores e segurança no ambiente de trabalho. Resumindo a ideologia de Lula nessa fase, fica uma fala dele, no filme: "O trabalhador não é de esquerda e nem muito menos de direita. O trabalhador quer é lutar pelo direito de garantir a sobrevivência da sua família."
Greve, greve, greve... e aí prendem o Lula. Pronto. O regime militar transforma-o em mártir temporário, e uma multidão vai ao enterro de dona Lindú (que morre sem saber que o filho está na prisão). A multidão, claro, exige que o regime liberte Lula, numa cena muito bem feita com uma clara alusão simbólica às cenas análogas do filme "Mandela". Libertem Mandela, libertem Mandela... ops, Lula!
Daí, o filme acaba. Tela preta, e letreiros dizendo que Lula permaneceu 31 dias na prisão, saiu, concorreu a presidente 3 vezes e perdeu em todas elas. A imagem final, como não poderia deixar de ser, é a apoteose dessa história de superação, garra e teimosia: Lula, de barba grisalha, com a faixa verde-amarela no peito, em cima do célebre Rolls Royce preto usado na posse dos presidentes da República.
Hoje em dia, o filme é visto como uma obra maravilhosa por muita gente, pelos motivos errados - o filme deve ser analisado por si só, não pela relação com um presidente que é adorado por muitos brasileiros. Da mesma forma, muita gente vem espinafrando a película por razões políticas. Mas daqui a uns 40 anos, ou talvez mais, imagino que continuará sendo um grande filme, porque ele não é um filme panfletário, sobre Lula, o PT ou a Dilma. É um filme muito bem realizado que fala sobre a esperança, a sagacidade, a persistência. E sobre a gratuidade das realizações humanas, que na verdade dependem de uma mistura muito sutil e inexplicável de atitude, oportunidade e estímulo. Lula não teria sido nada se não tivesse sido levado ao topo do seu sindicato na época certa. E outro homem, na mesma situação, não teria feito tanta coisa e chegado tão longe se não tivesse a mente e a coragem de um Lula. E nada disso teria dado certo se as pessoas em volta dele fossem outras. No fim, Lula é um produto do seu tempo. Ficou famoso como líder, como símbolo, desse momento criado por uma conjunção de fatores, e soube tirar proveito desta fama, chegando à Presidência. Mas isso não o condena. Apenas o retrata de maneira realística, crua, magistral. Daí vem o grande mérito do filme. E quando o bias político destas eleições de 2010, do governo Lula, de um eventual governo Dilma ou Serra, tiver passado, este filme será ainda admirado por ser justamente o que na verdade é: um filmaço, um baita de um filme contando uma baita de uma história, com cenas de rachar de rir e momentos em que é impossível não se emocionar. Se até lá este blog permanecer no ar, quem viver confirmará.
PS: quando eu digo que no futuro este filme será visto como ele realmente deve ser visto, sem as paixões políticas vivas em torno do protagonista, estou falando por experiência: não seria possível realizar uma obra-prima como "A Queda", por exemplo, na década de 1950, quando os escombros dos prédios derrubados na Segunda Guerra Mundial ainda nem haviam sido removidos. Mas hoje em dia, a visão de um Hitler humano, obcecado, quase meigo em alguns momentos, mas doentiamente alheio à monstruosidade de seus atos, é compreensível, já que analisamos sua medonha vida com um certo distanciamento que não era possível há algumas décadas.
Quinta-feira, 05 de Agosto de 2010, às 20:53:05
Karen Caroline Motta (karencarolinem@yahoo.com) comentou este texto:
Parabéns, muito bom o seu texto, sua reflexão e sua forma de pensar!
Terça-feira, 18 de Maio de 2010, às 13:41:20
Jaine da Rocha Bernardoni (jainedarocha@gmail.com) comentou este texto:
Parabéns,Fábio! Observei que teus comentários sobre o filme foram relativos à arte. Para os que não sabem, a arte é toda a forma de expressão humana com criação.Sinceramente, fiquei emocionada com tuas observações ao longo de tua vida ainda tão jovem. Temos o privilégio de conhecer várias "camadas" sociais, tentando compreendê-las, com posicionamentos críticos, mas sem julgamentos.
Faça o seu comentário:
Quinta-feira, 06 de Maio de 2010, às 17:15:23
Para enriquecer um pouco este longo post, fiquem com a letra de "Roda e avisa", de Alceu Valença, uma música em homenagem ao Chacrinha, que toca no final do documentário e que eu achei simplesmente LINDA ao fazer uma analogia entre o fim de um show e o fim da vida do nosso mais brilhante apresentador de TV de todos os tempos.
"Roda, roda, roda e avisa
Que a alegria explodiu no ar
O velho guerreiro sorrindo
Subindo, subindo foi pro céu brincar
Roda, roda, roda que a vida
É um sonho que vai terminar
O bom palhaço não chora
E vai embora sem explicar (BIS)
Quem vai querer
Abacaxi, banana e bacalhau
Olha a mãe do Russo
E a buzinada do seu Nicolau
Quem reviveu toda alegria do seu carnaval
Alô, alô Teresinha
Ai que saudade do Cassino do Chacrinha!"
Como o nome indica, trata-se de um documentário sobre o Velho Guerreiro, o inesquecível Chacrinha. Mas não estamos falando de um documentário daqueles chatos, cansativos, cheios de análises sociológicas. E também não estamos falando de um documentário do tipo ufanista, que mostra o personagem retratado como um herói, muito maior do que ele realmente foi em vida. Não. Os produtores de "Alô Alô Terezinha" escolheram montar um painel com o luxo e o lixo do Cassino do Chacrinha. Chega-se a sentir vergonha por alguns personagens mostrados, enquanto outros nos dão uma dimensão da verdadeira geração de artistas que Chacrinha construiu em seu palco multicolorido.
Artistas consagrados como Fábio Junior, Roberto Carlos, Vanderléia, Baby Consuelo, Agnaldo Timóteo, Byafra e outros, falam sobre os tempos do Cassino do Chacrinha, todos evidenciando que o programa de TV teve importância crucial em suas carreiras. Não apenas ele lançou uma penca de artistas bons (incluindo o "Rei"), como também foi ele quem lançou o cara que para mim é O CARA: Raul Seixas.
Aliás, já que falamos de cantores, foi durante a entrevista para o documentário que Byafra dispôs-se a cantar seu grande sucesso "Sonho de Ícaro" (aquela do "voar, voar, subir, subir..."), sendo atingido por um parapente (um aparato parecido com a mais conhecida asa-delta). O video dessa trombada, claro, bombou no Youtube.
É óbvio que as entrevistas com os famosos são ótimas, e em alguns casos, emocionantes. Mas alguns dos momentos mais engraçados do filme são protagonizados justamente por cantores fracassados, que foram "buzinados" nas apresentações de calouros. Vários ex-calouros falam de suas experiências no palco do Chacrinha, mas três deles são especificamente marcantes.
Um, é um baixinho que fala daquela época com uma grande frustração, acha que foi injustiçado e que tinha talento para ser cantor, mas teve a vida destruída pela buzina do apresentador, passando vergonha diante do Brasil inteiro. Este sujeito canta diante da câmera, na esperança talvez de retomar o caminho da fama, em sua casa pobre e pequena, numa cena realmente triste.
Outro, é um velhinho que foi gongado por errar o tempo de início da música. Parece ter se arranjado na vida, morando em um bairro popular. Ele canta (e até que não faz feio) de cima de uma laje (provavelmente, de sua casa), juntando uma pequena platéia de vizinhos que o aplaudem, e parece ter lidado melhor do que o baixinho com o fracasso artístico.
O terceiro, e mais cômico, dos ex-calouros é um sujeito que vestiu-se de Lisa Minelli e cantou no palco imitando a cantora norte-americana, ganhando do Velho Guerreiro um Troféu Abacaxi. O cara, ao invés de dar uma entrevista, aparece saindo da empresa onde trabalha, vestindo terno e gravata (parece ocupar alguma posição importante), e começa a cantar seu "consagrado" número. A autoparódia fica mais engraçada ainda quando ele compra um abacaxi e pede para um desconhecido segurar, enquanto ele canta, emulando a cena ocorrida vinte e tantos anos antes.
Outro ponto alto do documentário são as ex-chacretes. Porque essas dançarinas, todas lindas (na época do programa) foram glamourizadas, adoradas, viraram símbolos eróticos de toda uma geração de brasileiros. O documentário as encontrou envelhecidas, quase todas tentando se virar de algum modo e lidando com dificuldades – a não ser pela exceção de Rita Cadillac, que conseguiu manter-se na mídia e fez uns filmes pornôs.
Tem ex-chacrete vendendo xis na praça, tem ex-chacrete trabalhando como recepcionista em consultório, e, claro, algumas que casaram. No geral, levam uma vida pobre, difícil. Tive a nítida impressão de que essas moças seguem um mesmo padrão – têm pouco estudo, iludiram-se pensando que teriam uma vida artística e não se prepararam para a vida pós-fama. Com a morte do apresentador, no final dos anos 1980, tiveram que cair na realidade e até hoje tratam de enfrentar o dia a dia, com muitas dificuldades, sub-qualificadas para o mercado. Nas falas delas, senti um aperto no coração – elas falam de seus tempos de chacretes deixando transparecer que os anos de ouro de suas vidas já passaram.
Algumas entrevistas das chacretes são cruas, como no caso da Índia Potira, que fala com uma franqueza total sobre os namoros das meninas, e sobre os convites para "programas" recebidos por elas. Outras são meio ridículas – tem uma chacrete que desenterra de um armário uma roupa justa, provavelmente guardada desde os tempos em que dançava na TV. Com o maior esforço, a coitada se enfia para dentro da malha e começa a dançar. Não sei o que passava pela cabeça dela no momento. A cena parece ainda mais esquisita porque essa ex-chacrete aparece num culto evangélico.
Aliás, essa história de "virar crente" parece um lugar-comum neste documentário. Não estou aqui fazendo nenhuma crítica à fé de quem quer que seja, mas os ex-famosos convertidos são justamente os que fazem os maiores papéis de loucos e protagonizam cenas ridículas no filme. Baby Consuelo (ou Baby do Brasil, ou Baby de Jesus, não sei que nome ela anda usando agora), simplesmente modifica a letra de "Menino do Rio" para incluir nela um conteúdo agradável ao público neopentecostal, só que as adaptações não casaram bem com a música, transformando sua obra-prima sensível e inteligente em uma porcaria mal ritmada e panfletária. Baby Consuelo... assim como a Simony, uma ex-estrela que tenta se firmar no nicho gospel, mas não alcança nem 10% da antiga fama.
Nelson Ned é outro novo-crente que me dá uma certa pena. Ele diz que o pessoal do filme "chegou tarde", e que deveriam ter ido lá dez anos antes. "Muita mulher, muita cocaína...", diz, descrevendo sua antiga vida. Mas não fala muito da atual. Só que o relato do Nelson Ned não é aquela típica pregação do tipo "eu achei o bom caminho", porque ele não demonstra muito entusiasmo. Ele parece estar dizendo que, apesar de agora ser um sujeito com cara de vovozinho, houve um tempo em que abafava as menininhas. Sério! A voz dele me deu a nítida impressão de que, no fundo, ele deve sentir um pouco da saudade dos seus "anos perdidos". Pode ser só impressão minha, repito, mas foi essa a sonoridade que a voz dele me passou.
Um dos entrevistados é o Russo, assistente de palco e personagem cômico que atualmente está no Domingão do Faustão. Eu não sabia de onde esse sujeito tinha saído, mas no documentário, vemos uma cena do programa do Chacrinha feita em 1978 – o concurso do "Homem mais feio do Brasil", no qual Russo venceu, sendo então incorporado (numa lógica meio "circo de aberrações") ao programa. O segundo colocado no concurso virou carroceiro.
Temos também ex-jurados do programa (numa fórmula que depois seria copiada por Silvio Santos, e que aliás, contratou alguns dos jurados do Chacrinha), representados no vídeo pela inesquecível Elke Maravilha. Essa Elke é uma figura muito cativante, e vendo ela a falar para a câmera, tantos anos depois, tem-se a nítida certeza de que o carisma dela é algo natural, que não foi embora com a beleza da juventude (aliás, nos vídeos antigos, cheguei a me surpreender ao notar o quão gata a rainha das lantejoulas era quando jovem). Eu falei do Silvio Santos, mas é do Chacrinha a frase "Na televisão, nada se cria, tudo se copia".
Chacrinha era um mestre da comunicação, especialmente com as camadas mais populares, e fazia paródia de si mesmo. Era comum ele dizer, pouco antes dos letreiros finais, "Graças a Deus o programa acabou!", ou então, "Alguns calouros saem daqui contratados por alguma fábrica de discos, outros vão para a cadeia". É dele a frase "Quem não se comunica, se trumbica", dentre outras. Todo ano, seu programa lançava uma marchinha para o Carnaval. Em grande medida, o ritmo empolgante do documentário é uma contaminação da própria animação dos vídeos de arquivo do programa do Chacrinha.
Olha, pessoal, vou lhes dizer: é um baita de um filmão. É um documentário, claro, mas nada parecido com aqueles paralelepípedos pseudo-intelectuais que a gente costuma ver por aí. É um filme, antes de mais nada, um bom filme, que prende o espectador do início ao fim. Recomendo, sem hesitar.
Terça-feira, 11 de Maio de 2010, às 21:37:47
Carina,
assista mesmo ao filme, trata-se de uma obra muito bem realizada. E o Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, era um mestre na arte da comunicação popular. Eu acho besteira quando um jornalista se furta de olhar como um bom exemplo este tipo de comunicador, porque na verdade, para chegar ao público popular, é preciso falar a linguagem dele. E isso é uma arte muito complicada, eu que o diga. Tente e verás.
Sábado, 08 de Maio de 2010, às 14:52:05
Carina (carina_carboni@yahoo.com.br) comentou este texto:
Não cheguei a curtir o programa do Chacrinha, pois sou de 1986. Mas admito que sempre me despertou certa curiosidade o seu jeito de falar e vestir, sempre tão espalhafatosos (como via na TV).
Fiquei instigada a assistir.
Abraço!
Sábado, 08 de Maio de 2010, às 00:52:26
Jaine da Rocha Bernardoni (jainedarocha@gmail.com) comentou este texto:
Olá, querido amigo
Se ninguém ainda disse, te direi agora: "É impressionante o modo como te expressas, tens o dom da comunicação. Parabéns".
Faça o seu comentário:
Sábado, 03 de Abril de 2010, às 21:00:19
Não, meus caros leitores, eu não peguei todas essas imagens da mesma cena. O filme é que parece uma imensa, sonífera e interminável cena malfeita com duração de uma hora e meia.
Que
porcaria. Esta é a palavra que me vem à mente quando penso neste filme.
Outra palavra: enganação.
Eu na verdade tenho muitas palavras na minha mente que também poderiam definir este filme, mas eu não vou escrevê-las porque, afinal de contas, o meu blog é voltado para um público que tem um certo nível, e ainda pode ser lido por quase toda a família.
Aliás, esse filme também, pode ser assistido por toda a família. "Atividade Paranormal" é um excelente filme infantil para quando as crianças não estão querendo dormir. Coloque o DVD para elas verem e eu garanto que em 10 minutos elas estarão roncando. Eu mesmo, só consegui ver o filme todo porque a Bibi ficou me acordando a cada vez que eu ameaçava apagar de tanta empolgação com a trama bem elaborada e as cenas bem desenvolvidas desta produção.
Pessoas com depressão não devem assistir, porque o tédio pode fazê-las optar pelo suicídio.
Historinha
O filme é, supostamente, a gravação retirada de uma câmera comprada pelo boçal e aparentemente desocupado Micah. Ele é o namorado da Kate. Bom. Por quê o bonitão comprou a câmera? Porque Kate foi assombrada por fantasmas aos 8 anos de idade e agora, adulta, está voltando a ser atormentada pelas almas penadas.
A tentativa de dar alguma verossimilhança às filmagens da câmera de Micah é, desde o começo, patética. Kate discute porque não quer ser filmada na cama, ou no banheiro, e Micah fica aporrinhando a namorada com o aparelho pela casa.
Daí para a frente, o espectador é exposto a uma incrivelmente longa e tediosa série de filmes caseiros que mostram o casal dormindo. Claro que o tempo é acelerado, para que possamos ver o que acontece lá pelas 3:15 da madrugada: inicialmente, uns barulhos de pancadas pela casa, depois passos, a porta que se mexe sozinha.
Micah resolve espalhar talco pelo chão do corredor e, previsivelmente, o fantasma deixa pegadas. Na cena mais bem elaborada do filme todo (o que não significa que seja boa, apenas a melhor dentro desse lixo), Kate e Micah seguem as pegadas e sobem ao sótão da casa, onde encontram uma foto de Kate, na qual ela aparece ainda criança. Esta foto havia supostamente queimado no incêndio da casa onde ela e sua família moravam na época – e de fato, o fantasma salvou a foto mas não conseguiu impedir que seus cantos ficassem chamuscados.
A cena mais tosca do filme acontece quando Micah encontra na Internet a história de uma menina dos anos 1960 que era atormentada da mesma forma que Kate. A vítima dos tempos da brilhantina chamou um exorcista e acabou morta, como retaliação da entidade demoníaca, que além de matá-la, arrancou a pele do seu rosto. Essa sequencia é um dos maiores atestados de tosquice e maquiagem pobre da História do Cinema. Coisa digna de um Ed Wood da vida.
Micah tenta se comunicar com o fantasma usando um tabuleiro Ouija, que mais parece um tabuleiro do "Jogo da Violência" fabricado pela fictícia Pentagrama Toys (comercial avacalhado do programa Hermes & Renato). Nessa cena do tabuleiro, temos uma das imagens subliminares que tentam criar pânico no espectador. O tabuleiro parece estar manchado, mas olhando cuidadosamente, vemos que os pontos luminosos que ficaram nele formam uma face demoníaca, meio parecido com um Orc da série de games
Warcraft.
Tem uma noite na qual Kate levanta-se, sonâmbula, e fica três horas em pé observando Micah enquanto ele dorme. O efeito fast-forward dá um tipo de ar doentio à cena, o que deveria deixar as pessoas impressionadas, mas na verdade acaba lembrando mais aquelas cenas de correria dos filmes do Charlie Chaplin. Mais uma bola fora.
O fantasma vai ficando progressivamente mais agressivo e ousado a cada noite. Até que numa dessas, ele arrasta Kate puxando-a pelos pés, e morde as costas dela. Poderia ter mordido a bunda, que aliás parece ser bem carnuda, o que talvez desse algum apelo erótico ao filme, mas não – o fantasma morde mesmo as costas dela, perdendo a oportunidade de quebrar um pouco o marasmo dessa ladainha interminável.
Depois dessa noite do puxa-pernas, o casal discute a possibilidade de deixar a casa. Mas Kate não quer ir embora. E então, vem a noite na qual Kate levanta-se da cama, sonâmbula, desce as escada e grita. Micah acorda e sai correndo para salvá-la. Em seguida, só se escutam os gritos dos dois.
Na sequencia final, vemos Micah sendo arremessado diretamente para cima da câmera e, em seguida, Kate já possuída pelo demônio, que entra pela porta encarando a câmera. Ela cheira o corpo do namorado e depois dá um pulo atacando, como um animal feroz, na direção do público. Kate tem a cara deformada pela maldade – na verdade, a atriz estava com a cara normal dela, mas usando uma dentadura que parece aquelas dentaduras de vampiro, feitas de plástico, que a gente compra para a crianças no carnaval.
Finais alternativos
Diz a
Wikipedia:
Na versão original do filme, o final é diferente. Na versão exibida em 2006, Katie sobe as escadas sem Micah e está com uma faca na mão, com a roupa suja do sangue dele. Ela se senta do lado da cama e começa a balançar pra frente e para trás. Quando a polícia chega, já se passou um dia inteiro. Então, a polícia sobe as escadas e quando Katie os vê ela volta a si. Ela corre desesperada na direção da polícia, perguntando por Micah, e os policiais atiram nela.
Talvez esse final alternativo fosse mais legal do que esse que vemos na versão lançada em 2009 no Brasil. Mas tenho certeza de que, por melhor que seja, não conseguiria redimir o filme pela ruindade dos 90 minutos que vieram antes.
No DVD, temos ainda um segundo final alternativo, igual ao do cinema até o momento em que Kate sobe de volta para o quarto com a faca na mão. Só que, ao invés de Kate sentar na cama e esperar a polícia, ela caminha até a câmera, nos dá uma olhada com cara de criança em filmagem de festinha, que fica encarando a lente, e passa a faca no próprio pescoço.
Este final alternativo do DVD não consegue ser menos malfeito do que o final original. Então, eu posso supor que o outro final alternativo, aquele do cinema, deve ser tão lixônico quanto esse e todo o resto do conteúdo desse amontoado de estrume.
Mais um filme "amador"
É evidente que "Atividade Paranormal" tenta criar um clima impressionante e assustador explorando um assunto que rende bem para este fim: o que acontece quando dormimos? E o que são esses barulhos que a casa faz quando estamos na cama? A receita parece bem elaborada, e os produtores do filme optaram por uma estética de filme amador, como em "A Bruxa de Blair" e "Rec", nos quais o filme que estamos assistindo é apresentado como se fosse a filmagem deixada numa câmera que foi encontrada pela polícia ou por alguém.
As cenas de terror são sutis, e não escatológicas, dando maior verossimilhança à história (ninguém levaria a sério um filme "baseado em fatos reais" que mostrasse cenas dignas de um "O Massacre da Serra Elétrica"). O fantasma movimenta lençóis e portas, criando vento dentro da casa, quando ela está toda fechada. Parece evidente que o público, depois, vai ter dificuldade para dormir porque ficará com medo a cada vento ou barulho que aparece no meio da noite.
Teoricamente, tudo está no lugar certo. Só que na prática, por alguma razão, o conjunto não funciona. O filme é claramente falso desde a primeira cena e não consegue decolar em momento algum.
Começa pelos detalhes da vida do casal. Kate é estudante e Micah opera na Bolsa de Valores. Eles possuem um Porche. Mas a casa deles não parece ser compatível com uma pessoa que possui um carro desses. Eles não têm família e não vemos amigos. Também não vemos em momento algum Micah trabalhando.
Micah é o personagem mais ativo, tentando fazer contato e investigar o fantasma. Kate é uma mocinha do tipo "donzela em perigo", que limita-se a gritar e fazer cara de medinho. Uma figura inverossímil em qualquer filme para adultos filmado depois da década de 1950.
Também tem a questão dos efeitos. O filme não tem nenhum momento de real terror, e recorre às manjadas imagens apavorantes passadas rapidamente, criando mensagens subliminares (uma tendência inaugurada por "O chamado"), que incutem o pânico nos corações do público mesmo que nada aconteça de mais no filme.
Veredicto: direto para a lata de lixo
Eu não consigo entender o medo que esse filme provoca em algumas pessoas. Ele não é assustador. Ele não é convincente. Ele não é emocionante. Ele não é nada. Os personagens são superficiais, a trama é manjada, os efeitos parecem mágica de circo do interior, e até mesmo as vergonhosas imagens subliminares são fáceis de ver a olho nu. Muito ruim. Se eu tivesse pago ingresso para ver essa josta, eu pediria meu dinheiro de volta.
Sábado, 03 de Abril de 2010, às 00:50:37
Estamos falando de um filme começa na Inglaterra, numa rifa de caridade, e termina com Mr.Bean comandando um número musical no qual canta-se Trenet, depois de atravessar toda a França causando caos e gargalhadas pelo caminho.
La mer
Qu´on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d´argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie...
Eu sou um fã de Mr.Bean desde os tempos em que a única coisa que podíamos ver dele eram os quadros de curta metragem no Fantástico. Mas fantásticos mesmo, para mim, são os filmes dele. Rowan Atkinson é um ator fantástico, e tem uma cara muito bem preparada para interpretar o personagem que o consagrou e pelo qual provavelmente será lembrado para sempre.
A crítica especializada, ainda mais a norte-americana, tratou de achincalhar esse filme considerando-o bobo, infantil e previsível. Mas a grande verdade é que esses críticos são exatamente da mesma turminha que também dizia esse tipo de coisas acerca de produções como A vingança dos nerds, Porky´s, Curtindo a Vida Adoidado e outras pérolas que, além de terem rendido bilheterias fabulosas, são hoje pequenos clássicos modernos.
Historinha
O filme começa com Bean dentro de um sorteio de caridade, no qual ele é o grande vencedor. O prêmio é fabuloso: uma viagem até Cannes, cidade do litoral sul da França, onde acontece o famoso festival anual de cinema. Parece simples. O felizardo Bean deverá embarcar num trem na Inglaterra, passar pelo Eurotunel, chegar à França, embarcar em outro trem moderníssimo e confortável e depois, chegar a Cannes, curtir uma praia, ver estrelas de filmes e relaxar.
Mas, claro, nenhuma tarefa ou viagem é simples, porque estamos falando de Mr.Bean.
Chegando ao país do Asterix, ele tem um contato peculiar com a culinária francesa, se perde pelas ruas da cidade, e em uma cena típica do personagem, adota um método muito próprio para encontrar o caminho: ele usa uma bússola, define a direção para a qual deve caminhar e sai, em linha reta, causando o caos no trânsito de uma avenida, passando por cima de piqueniques na praça, para no final encontrar a estação de trem.
Apesar das panaquices de Bean, a viagem até este momento parece estar dando certo. O embarque no trem é o momento no qual todas as possibilidades de um passeio tranquilo se desfazem já que o nosso herói apronta uma enorme confusão, fazendo com que o filho de um crítico de cinema acabe embarcando no trem com Bean, sem que o pai consiga embarcar. Até o final do filme, o menino e o pai ficarão tentando se encontrar, sem sucesso, claro. E caberá ao Mr.Bean cuidar do garoto – em algumas partes, o guri é que fará o papel de "adulto" da dupla, o que não é de se estranhar.
A jornada de Bean e seu amiguinho pela França é repleta de momentos hilários. E abriga aquela que, para mim, é a cena mais antológica do filme todo.
Bean está sem um tostão no bolso, e precisa de dinheiro para comprar passagens de ônibus. Ele observa que existem pessoas na praça onde estão, que fazem shows musicais e ganham moedas do público. Então, ele e o menino arquitetam um plano genial para roubar uma caixa de som (e conseguem), com a qual começam a fazer shows de dança e interpretação ao som de vários tipos de música diferentes. Mas é claro que essas performances são simplesmente ridículas, de modo que o público não oferece nem um centavo. Até que a caixa de som começa a tocar "O mio babbino caro", e Bean realiza uma interpretação dramática que é ao mesmo tempo comovente e bizarra, faturando um monte de moedas.
Ele compra as passagens, o menino embarca, mas ele acaba perdendo o ônibus já que uma galinha rouba seu tíquete.
Enquanto o garoto segue seu próprio caminho, Bean conhece Sabine, uma linda francesinha, atriz aspirante à fama, e dona de um Mini Cooper amarelo (um carrinho fabricado no Reino Unido, verdadeiro clássico). As circunstâncias em que eles se conhecem são bizarras, pois Bean cai no meio da gravação de um comercial, é confundido com um figurante e acaba vestido de soldado nazista para, no final, quase matar o diretor com um explosivo cenográfico.
Detalhe que só os fãs notam: Bean também possui um Mini amarelo, só que a direção dele fica do lado direito do carro, não do esquerdo, como no carro de Sabine.
Ela oferece carona, já que estava mesmo querendo ir a Cannes, para o festival, no qual um filme seu deverá estrear. A viagem é palco para mais algumas inevitáveis mongolices de Bean, mas o excesso de caretas e maluquices do herói não chega a cansar o público por causa da interação com outros personagens - principalmente a encantadora Sabine.
A jornada se torna mais complicada ainda porque o crítico de cinema pediu à polícia que procurasse seu filho desaparecido, e o menino foi visto ao lado de Bean por câmeras de segurança. Levantada a hipótese de sequestro, Bean torna-se procurado pela polícia. Mais tarde, Sabine também apareceria na TV como suspeita de fazer parte da "quadrilha".
A comunicação entre Sabine e Bean é meio complicada porque ela não fala inglês e ele não entende uma palavra de francês – apenas sabe dizer oui em horas impróprias – e até rola um clima entre os dois.
Mais algumas confusões adiante, o casalzinho reencontra o garoto perdido e os três chegam a Cannes. Sabine entra no festival com seu passaporte VIP, linda, num vestido reluzente. Bean e o garoto também entram, mas utilizando disfarces e montando toda uma artimanha para enganar os guardas.
No clímax final do filme, Sabine descobre que o diretor da película cortou sua participação. Bean vai até a sala de projeção e tira do ar a fita original, substituindo-a por seus próprios vídeos da viagem, onde Sabine aparece repetidamente. Numa coincidência tipicamente vista nos filmes de Mr.Bean, a narração encaixa perfeitamente com as imagens, embora de forma absurda e ridícula.
Com exemplo dessas coincidência, temos um momento no qual o narrador fala de "lembrar dos momentos sombrios da nossa história", e Bean aparece vestido com o uniforme nazista do comercial, imitando a marcha "passo de ganso" das tropas de Hitler.
Em outro momento da cena, o narrador se questiona sobre o que a mulher que ele ama viu em um outro homem, e na tela aparece Bean abraçado com Sabine. Logo depois, lá está Bean fazendo uma espécie de dança bizarra enquanto o narrador fala da sensualidade deste novo companheiro de sua ex.
No final do vídeo, enquanto o narrador fala sobre o espírito da amizade, a tela exibe o rosto do menino desaparecido. O crítico de cinema salta da platéia e reencontra seu filho, escondido atrás da tela de projeção. O estranhíssimo "filme" é aplaudido de pé pelo auditório todo, que o considera revolucionário e surpreendente. Sabine consagra-se como atriz. E Bean finalmente vê, através de uma porta, o tão procurado mar.
Na última sequencia bizarra do filme, Bean atravessa uma rua caminhando por cima dos carros, chega à areia da praia.
O filme encerra com todos os personagens à beira do mar, em um número musical no qual eles cantam a canção "La Mer", de Charles Trenet, uma clássica e para mim uma das mais lindas chansons francesas.
Uma visão autocrítica
Uma das coisas mais legais nos filmes de Mr.Bean, e aliás, em outras comédias britânicas, é que as produções deles não demonstram uma visão tão autoelogiosa e ufasnista quanto as norte-americanas.
Nos filmes feitos EUA, os personagens vindos do primo pobre, o México, são sempre os malandros, ignorantes e esquisitões. E os personagens europeus ou canadenses são pedantes, frescos, fracos ou idiotas. Já nos filmes de Mr.Bean, que é britânico, os franceses são retratados como um povo talentoso, caprichoso, trabalhador e bem ajustado. A idiotice fica por conta do protagonista. Na cena na qual Bean provoca o caos no trânsito da cidade, os guardar o observam pelas câmeras de vigilância, e um deles faz menção de ir até a rua para deter o que ele imagina ser uma ameaça terrorista ou um louco. Seu colega o demove da idéia alegando que não, não é nenhum louco nem bandido, "eu acho que ele é apenas um britânico", diz.
Fidelidade ao estilo Bean
Este filme, feito em 2007, é uma espécie de sequencia ao primeiro longa metragem, de 1997, chamado Bean. Mas não é bem uma sequencia, porque não há nenhuma preocupação com a continuidade entre uma história e a outra.
Só que "As Férias..." é o primeiro filme realmente fiel ao Mr.Bean que conhecemos nos episódios da TV. Porque o primeiro filme tem um humor mais "americanizado", cheio de diálogos e situações absurdas que parecem saídas de algum filme da sessão da tarde. Na produção de 1997, Bean se vê envolvido nas confusões de uma família nos EUA, que ele obviamente amplifica com suas idiotices. É um bom filme, mas é como se o personagem tivesse simplesmente sido adaptado para um filme da série "Férias Frustradas".
Já no "As Férias...", vemos o Bean clássico, com seu humor físico e sua capacidade de transformar qualquer situação normal em um verdadeiro pandemônio. Aqui, o "herói" quase não fala - aliás, Bean é um personagem basicamente mudo, sempre foi, e essa idéia de fazê-lo desembarcar em um país cuja língua não domina foi um recurso inteligentíssimo, para mantê-lo basicamente dependente de suas peripécias mímicas que são, na realidade, sua marca registrada.
Ritmo e velocidade
Outra grande sacada deste filme é que ele se passa em uma viagem. Como assinalou um crítico de jornal norte-americano, "se você viu Mr.Bean por 10 minutos, viu tudo o que ele sabe fazer". E realmente, o personagem tem algumas atitudes bizarras e trejeitos ridículos, mas não seguraria uma hora e meia de risos se ficasse restrito ao mesmo cenário, tendo que arrancar gargalhadas da platéia durante todo esse tempo só com seus recursos de comédia.
Mas, como ele está viajando, acaba sendo exposto a diversas situações diferentes que poderiam, inclusive, ser exibidas como episódios na TV, sem que perdessem a graça, porque são piadas quase independentes mas que magicamente se encaixam com precisão no fio da história do meu (e de muita gente) imbecil favorito, tentando chegar à praia
É essa lógica dos sketches encaixados formando uma história que rende um ritmo vivo, ágil e vívido ao filme. Não há momentos de tédio, nem partes "paradas" na coisa toda. É como se fosse a versão panacóide de "Adrenalina", uma verdadeira correria por trens, ruas e prédios em busca de um objetivo.
E tem mais uma coisa legal: apesar de o filme ser uma comédia hilária que faz os adultos rirem até não poder mais, ele também agrada às crianças. Sem utilizar nudez, violência, baixarias, nojeiras e outros recursos comuns em filmes do tipo "American Pie", e até mesmo sendo desprovido de qualquer sexualidade, "As Férias do Mr.Bean" consegue ser uma comédia hilária enquanto é também um filme infantil, que pode ser assistido sem medo com as crianças na sala. Minha filha adora. Minha mulher também. E se vocês assistirem, tenho certeza de que também vão gostar.
Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010, às 10:20:32
isto ai e uma merda não tem graça nem uma seus palhaço.criem coisa melhor,seus inutil vão chupa ovo que voces ganham mais.
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Quarta-feira, 31 de Março de 2010, às 00:20:49
Um filme bem realizado e ainda impressionante, apesar de ter sido feito há 85 anos atrás.
"O Encouraçado Potemkin" é um filme mudo, em preto e branco, realizado em 1925 e dirigido pelo lendário Sergei Eisenstein.
Para quem não sabe (prometo aprofundar isso em outro post algum dia), Eisenstein foi um diretor de cinema soviético que seguiu a linha do Partido Comunista da União Soviética e propôs-se a fazer filmes que educassem a população e incutissem nela o espírito revolucionário, de apego às idéias que levaram os bolcheviques ao poder em 1917. Mas Eisenstein era adepto da máxima de que "não pode haver arte revolucionária sem linguagem revolucionária", e seus filmes subverteram os padrões aceitos de "como se faz um filme".
Enquanto Eisenstein fazia seus filmes pirados na União Soviética, na Alemanha explodia o expressionismo e brilhava uma vanguarda que infelizmente seria podada pela guerra, anos depois. Mas os filmes russos tinham ainda um diferencial que os tornavam diferentes dos alemães, americanos, e outros. Eles tinham uma concepção da realidade diferente.
O aspecto mais notável desta diferenciação é que, enquanto os filmes ocidentais buscavam mostrar o "individual", os russos buscavam o "coletivo". Para ficar mais simples: no filme "Pearl Harbor", que é moderno mas serve para esta explicação, a guerra entre EUA e Japão serve de pano de fundo para que um herói viva seu drama. Nos filmes russos do período stalinista, não havia esse enfoque na história particular de algum herói, e sim no drama coletivo de dezenas de "heróis" que formam a classe dos mocinhos, como um imenso coletivo.
Historinha
"O Encouraçado..." se passa em 1905, durante as revoltas da "pré-revolução" russa. A guerra com o Japão está rolando, o governo recusa-se a assinar a paz, o povo passa dificuldades. O império russo acaba de construir uns navios, e um dos mais formidáveis deles é o Encouraçado Potemkin, um navio enorme, feito de metal, com um monte de canhões.
O esmero e a generosidade demonstrados pelo czar na construção do navio contrasta com o desprezo que este dispensa aos marinheiros que o tripulam. Num dia qualquer, os marujos começam a reclamar da comida, mostrando que a carne destinada a eles tem até vermes se mexendo no meio. O médico do navio tenta enrolá-los. A discussão vira pancadaria.
Os oficiais, então, chamam um pelotão de fuzilamento para acabar com os "baderneiros", realizando a execução no convés do navio, diante dos olhos do resto da tripulação, para servir de exemplo. Mas a represália dá errado, quando os soldados do pelotão de fuzilamento reconhecem que estão prestes a atirar em pessoas pobres como eles mesmos, e que enquanto os pé-rapados do navio se matam uns aos outros por causa de uma briga em torno de carne podre, os oficiais, filhos da burguesia e da nobreza, comem banquetes em alto mar. Assim, os fuzileiros unem-se aos marinheiros e os oficiais tentam detê-los.
A coisa vira uma imensa pancadaria, e os marinheiros, em maior número, jogam todos os oficiais e o capitão no mar. Diante da confusão, o padre do navio tenta acalmar os marinheiros, argumentando que Deus pune os rebeldes. Outra jogada mal calculada: os marinheiros percebem que a religião serve como instrumento de controle social, e jogam também o padre ao mar.
A população da cidade portuária de Odessa fica sabendo da revolta no navio, e começa a formar uma rede de solidariedade, levando comida e mantimentos aos marinheiros por meio de canoas. O povo ajuda aos marinheiros porque na verdade toda a população está cansada da opressão czarista, e grupos de trabalhadores começam a se reunir pela cidade. A polícia é chamada então para intervir.
Neste momento, temos uma das cenas mais antológicas da história do cinema: a do tiroteio na escadaria de Odessa. Os soldados avançam, marchando em colunas perfeitas, como se fossem uma imensa máquina assassina. O povo corre apavorado, e temos a sequencia na qual uma mãe leva um tiro e deixa o carrinho com o bebê cair escada abaixo, enquanto os soldados simplesmente avançam, insensíveis. A tripulação do Potemkin não deixa por menos, e bombardeia a cidade, mandando pelos ares o quartel da polícia e outros prédios do governo.
Então, o governo imperial manda uma esquadra formada por vários navios para tentar destruir o Potemkin. Mas ao se aproximarem do imenso encouraçado, suas tripulações, formadas também por soldados rasos, começam a solidarizar com os revoltosos. A esperada troca de fogo de canhões não acontecee. O Potemkin simplesmente passa, pelo meio dos inimigos. Alguns navios da esquadra imperial são tomados por motins e unem-se ao encouraçado.
A pequena esquadra revoltosa afasta-se de Odessa e ganha o alto-mar, sumindo no horizonte, carregando seus marinheiros, proletários, rumo à liberdade.
A mensangem é clara: os marinheiros, oprimidos, pobres, humilhados e desprezados, ao abandonarem a submissão e o apego à ordem social de uma sociedade desigual e exploradora, uniram-se e aniquilaram a burguesia e a nobreza parasitárias. Capazes de tocar o navio sozinhos, eles serviram durante muito tempo a uma classe de dirigentes inúteis, desnecessários, mas agora, após renunciarem à legalidade capitalista e derrotá-la, os proletários partem triunfantes rumo ao desconhecido. Lindo. Uma verdadeira obra de arte em nome do espírito revolucionário.
O filme, claro, tem toda essa lógica socialista porque foi realizado sob o governo de Josef Stalin, por um diretor comunista, na União Soviética. Apesar de antigo, mudo, sem cores e do viés doutrinário, "O Encouraçado Potemkin" é um filme ainda empolgante e interessante hoje em dia. Além de ser um marco da história do cinema. Eu tinha uma cópia dele em VHS, que não consigo mais assistir. Quando puser as mãos no DVD, minha coleção voltará a estar completa. Se vocês tiverem condições de assistir, assistam.
Curiosidade 1: trilha sonora
O filme não tem uma trilha sonora oficial. Eisenstein especificou que, a cada 20 anos, uma nova trilha deveria ser composta. Ele queria que o filme tivesse, para sempre, um acompanhamento musical de ritmo moderno e atualizado, e por isso criou essa idéia de deixar em aberto a criação de uma nova série de músicas a cada duas décadas.
Curiosidade 2: o navio existiu
Embora algumas cenas do filme, como a famosa cena da escadaria, sejam exageros ou liberdades artísticas do cineasta, a saga do Potemkin é basicamente real.
O partido comunista liderado por Lênin mandou um emissãrio para fazer contato com os marinheiros. Mas este chegou atrasado e o navio já havia partido para o mar. A esquadra rebelde chegou a contar com 3 navios, mas a tripulação de um deles acabou traindo seus companheiros. Este navio foi danificado e voltou ao porto.
Em Julho de 1905, o Potemkin navegou até a Romênia, em busca de combustível e comida, mas os romenos recusaram ajuda. Os marinheiros abandonaram o navio, que foi devolvido pela Romênia para a Rússia. O governo do czar deu outro nome ao encouraçado.
Em 1917, o navio voltou a se chamar Potemkin, sendo usado pelos comunistas. Em 1918, foi capturado pelos alemães, e retomado pelos russos, mas não os comunistas e sim os "Russos Brancos", anti-bolcheviques. Em 1919, como o navio estava prestes a ser retomado pelos comunistas, as forças internacionais envolvidas na guerra civil russa optaram por afundá-lo.
No fim da guerra civil, em 1921, os destroços do Potemkin foram resgatados do fundo do mar. Mas ele não tinha mais conserto e foi desmontado.
Curiosidade 3: o destino dos marinheiros
Logo após abandonarem o navio em 1905 na Romênia, a maioria dos marinheiros optou por se misturar á população local. Sete amotinados que voltaram à Rússia logo após o desembarque foram presos e executados logo que cruzaram a fronteira. Em 1907, o czar prometeu uma anistia aos tripulantes do Potemkin, e alguns deles voltaram à Rússia, incluindo Afanasy Matushenko, o líder da rebelião. Mas o czar não cumpriu sua palavra e mandou prender e matar Matushenko e seus companheiros.
Trinta e um marinheiros pegaram o rumo da América do Sul e vierar morar na Argentina.
Os outros quase seiscentos ex-tripulantes acabaram ficando pela Romênia e Europa Oriental, até que, após o triunfo da revolução comunista na Rússia, muitos voltaram ao seu país de origem, onde eram considerados heróis.
O último marinheiro participante da rebelião do Potemkin chamava-se Ivan Beshoff, e ele havia escapado para a Turquia e depois para Londres, indo morar em Dublin, na Irlanda, onde morreu em 1987, aos 102 anos de idade.
Curiosidade 4: um campeão de homenagens e referências
"O Encouraçado Potemkin" é uma das produções mais cultuadas de todos os tempos. Diversos recursos visuais e elementos da linguagem do filme foram copiados, homenageados ou referenciados em dezenas de filmes posteriores. Aqui em Porto Alegre, havia uma casa noturna com o nome de Encouraçado Butikim. E era um lugar do K-ralho, que recebeu shows de grandes nomes da MPB, além de servir de ponto de encontro para a boemia e a juventude rebelde dos Anos de Chumbo. Os anos de glória passaram, e a casa deixou de funcionar há alguns anos. Dizem até que fechou por conta de um problema burocrático, alguma coisa com o alvará ou algo assim, mas não sei. Ela ficava na Avenida Independência.
Quarta-feira, 31 de Março de 2010, às 08:06:47
Ricardo (discovery1@bol.com.br) comentou este texto:
O Blog está muito bom, bem variado e com bastante humor, mas lincar o Projeto Portal na coluna da direita sugere duas coisas: Materias Pagas ou Desconhecimento das Falcatruas do Projeto. Urandir inclusive chegou a ser preso em Porto Alegre e agora estão acusando de trafico de drogas e pedofilia. É bom ver a ficha dos anunciantes antes caro Fábio.
http://www.terra.com.br/brasil/2000/03/27/011.htm
http://www.ufo.com.br/index.php?arquivo=notComp.php&id=1509
http://www.ufo.com.br/index.php?arquivo=notComp.php&id=1117
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