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Categoria: Trabalho & Economia

Posts sobre o mundo do trabalho, administração, relações dentro de empresas, e sobre economia e assuntos afins.

levitt

Economia: o que o arroz e as prostitutas têm em comum?

Este texto foi escrito originalmente como resposta a um desafio do site Freakonomics, em 2008. O texto enviado por e-mail, na verdade, consite de uma versão em inglês (grosseiro ainda).


 

O senhor Steve D. Levitt, autor de artigos bastante interessantes sobre economia do site do New York Times, escreveu em 2008 um artigo com o curioso título de What do prostitutes and Rice have in common? (“O que as prostituas e o arroz têm em comum?”). 

Ele desafiava os leitores a acharem um cenário no qual o “consumo” de arroz e prostitutas sofresse uma variação no mesmo sentido. 

E aqui vou eu. Na verdade, escrevi sobre isso e tentei resolver este enigma em 2010, com um cenário que acredito ser capaz de satisfatoriamente contemplar a ideia do desafio. E agora trago de volta o texto.


A RESPOSTA EM UMA CANÇÃO GAUCHESCA

A chave para o enigma está em uma conhecida música gauchesca que diz, em determinada parte: “E se gasto tudo nem preocupado eu fico. Sei que não vou ficar rico com salário de peão“… e mais adiante, “Quando eu boto a mão nos cobres, não existe china pobre, é tudo por minha conta“.


GASTOS E INVESTIMENTOS

Arroz, assim como feijão, carne e outros artigos, faz parte de uma categoria de gastos que podemos classificar como COMIDA. Prostitutas (as “chinas” da música), assim como ingressos de cinema e tickets de entrada de festas, podem ser classificadas no item RECREAÇÃO. Quando uma pessoa compra um carro, um terreno ou uma casa, podemos dizer que está gastando seu dinheiro em AQUISIÇÃO PATRIMONIAL.

Pois bem: se eu ganho um salário razoavelmente bom, com algum planejamento eu poderei pagar as despesas correntes da minha casa (classificadas como CONTAS), e ainda comprar a COMIDA, ter algum LAZER, e ainda assim me sobrar algum dinheiro para poupar. Poupando dinheiro, estou fazendo uma AQUISIÇÃO PATRIMONIAL, mesmo que este patrimônio seja formado por dinheiro guardado. Ou posso parcelar uma casa, um carro, um pedaço de terra, títulos, ações, qualquer coisa durável.

A diferença básica entre o grupo formado por Contas, Comida e Lazer, e o outro grupo, o das Aquisições Patrimoniais, é que o dinheiro empregado neste último não se “dissolve no ar”, ao contrário do primeiro grupo.


A PERCEPÇÃO DA INUTILIDADE DE POUPAR

Voltando à linha da explicação: se o meu salário for mais ou menos bom, eu posso reservar quantias razoáveis para Contas, Comida e Lazer, e ter uma sobra, digamos, de 500 reais mensais para adquirir Patrimônio, poupar, imobilizar dinheiro, algo assim.

Mas se o meu salário for uma merreca, e mesmo tendo gastos modestos com as Contas, Comida e Lazer, a minha sobra for de meros 80 reais, eu não consigo fazer nada com esta sobra tão pequena – não dá para parcelar um carro ou uma casa com 80 mangos mensais. Poupar este dinheiro também não é interessante, a não ser no curto prazo – eu posso guardar 160 reais em dois meses, e comprar um aparelhinho de som, por exemplo (mas daí, é mais fácil parcelar na loja, em 4 vezes). Uma poupança de 80 reais mensais acumula 960 ao final de um ano, o que não chega a pagar sequer uma reforma na casa.

Então, o sujeito que não ganha dinheiro suficiente para ter uma “sobra” significativa não tem grande interesse em guardar as merrecas que ficam na carteira, porque sua vida não terá uma melhoria significativa por conta desta poupança. Fora poupança, não há outra modalidade de investimento de longo prazo para pessoas nesta faixa de renda. Então, o sujeito vê mais gratificação em gastar aquele mirrado superávit mensal.


COMER E CAIR NA FARRA

Então, chegando ao ponto: se um sujeito tem seus rendimentos depauperados até o ponto em que suas Contas, Comida, e Lazer despendem quase toda rua renda, e o valor que sobra é insignificante, e este sujeito não tem como opção viável diminuir os gastos correntes para criar um superávit maior, o que ele faz é o contrário: ele “torra” os trocados que iam sobrar. E aumenta seus gastos em quê? Em Comida e Lazer, claro. Dentre outros itens, Arroz e Prostitutas (estamos assumindo que este consumidor gosta de arroz e frequenta a “zona”).

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É um cenário plausível, com um comportamento econômico típico de pessoas de baixa renda (bem baixa), e que ocorre na realidade com grande frequencia. Vou traduzir o texto e enviar ao colunista do NY Times, mesmo que ele possa achar estranho o atraso. Eu não havia lido seu artigo até o último final de semana.

empregado desanimado

Não deixe que o trabalho destrua sua autoimagem e seu sentido de profissão

Texto publicado originalmente no site Covil da Discórdia.


 

Faça um teste: pergunte “qual é o seu trabalho?” a algumas pessoas, e elas provavelmente te falarão sobre aquilo que fazem para pagar as contas. Depois, pergunte “qual sua profissão?”, e a conversa ficará bem menos simples: surgirão respostas do tipo “sou sociólogo e comerciário”, ou “sou publicitário e funcionário público”.

Vivemos em uma época de acesso facilitado às universidades, com instituições de ensino superior pipocando para todos os lados, e milhares de bacharéis saindo delas em levas cada vez maiores diante de um mercado cada vez mais encolhido. Em um cenário assim, não é incomum que pessoas com vocação, talento e vontade para fazer uma coisa acabem fazendo outra.

gordo do escritorio

Sociólogos, filósofos e historiadores, que deveriam estar dando aulas, por exemplo, acabam indo trabalhar com outra coisa por causa dos salários do magistério. Comunicadores, artistas e outras pessoas nascidas para trabalhos de renda instável e poucas oportunidades acabam em escritórios. Engenheiros que caem em escritórios de contabilidade.

Os órgãos públicos, em especial, são um grande cemitério de carreiras desviadas. E não há pecado nisso: todo mundo precisa sobreviver.


Se você está nesta situação, algumas coisas precisam ficar claras.

Você não pode definir sua profissão como uma lista de coisas em áreas absolutamente desconexas.

Esta é uma questão de autoimagem, de definir-se diante das pessoas mas, antes de mais nada, de definir-se para si mesmo. É a sua identidade. É o seu foco.

“A fórmula para a minha felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta.” (Nietzsche)

Se o seu trabalho do dia a dia não corresponde a sua formação, nem aos seus talentos e aspirações, ele pode até pagar suas contas, mas não é sua profissão. Ele é um desvio – que pode durar meses, anos, pode ir até sua aposentadoria – mas jamais será algo incrustado no fundo de sua personalidade.

As circunstâncias até podem redefinir suas atividades, mas não sua visão de si mesmo. Render-se e redefinir-se de forma acomodada aos revezes é um dos principais motivos de desmotivação no trabalho e na vida.

“Eu sou biólogo e oficial de justiça, quer dizer, me formei em biologia, mas acabei virando servidor do Judiciário…” – se você diz o final da frase com voz desanimada, então você é um biólogo. Está trabalhando como oficial de justiça, mas deve lutar para, daqui a cinco, dez, vinte anos, poder estar na sua área de interesse, apaixonado pelo trabalho, podendo dizer “em uma época difícil, cheguei até a atuar como oficial de justiça, era o meu trabalho, mas minha profissão é a biologia”. E mesmo que não consiga fazer essa transição, ao menos a perspectiva de estar lutando te manterá vivo e motivado. “Não tá morto quem peleia”, diz o gaúcho velho.


“Nenhum vitorioso acredita no acaso.” (Nietzsche)


Faça sua própria análise. Esqueça o salário, a estabilidade, o mercado, e pense: o que te motiva? O que gostaria de estar fazendo? Não estou dizendo para largar seu emprego, e ir aventurar-se no mercado de sua atividade-paixão. É apenas um exercício mental.

Este ato, por si só, é duro demais para algumas pessoas. Porque é duro admitir que não se está no lugar onde se gostaria de estar, e que não se está vivendo no melhor dos mundos possíveis. Gostamos de crer que estamos bem. Admitir que não estamos é o primeiro passo.

Nada é por acaso. Você não ficará feliz com o que faz pelo simples hábito, nem conseguirá ir para a atividade que gosta por força de eventos aleatórios. É preciso, primeiro, admitir que se quer outra coisa. E depois, trabalhar neste sentido. Fazer alguma atividade relacionada à profissão de vocação no horário livre.

Experimente, comece com algo pequeno. Os efeitos profissionais e econômicos certamente serão nulos, mas os psicológicos, enormes.

“Qualquer trabalho de certa importância exerce uma influência ética. O esforço de concentrar e formar harmonicamente dada matéria é uma pedra que cai em nossa vida psíquica; do peque­nino círculo, muitos outros mais amplos se propagam.” (Nietzsche)

Se a “brincadeira” no ramo de atividade sonhado te deu arrepios, fez sua alma vibrar e o sangue ferver, é porque o exercício de autodescoberta foi bem feito e apontou para o caminho certo.


O que virá a seguir é uma escolha de cada um. Eu mesmo, que aqui escrevo, não concluí esta etapa ainda.

“Eu tenho o meu caminho. Você tem o seu caminho. Portanto, quanto ao caminho direito, o caminho correto, e o único caminho, isso não existe.” (Nietzsche)

Ok, a imagem é apenas ilustrativa - persiga seus sonhos sem avacalhar com o espírito de ética para com seu trabalho atual.
Ok, a imagem é apenas ilustrativa – persiga seus sonhos sem avacalhar com o espírito de ética para com seu trabalho atual.


O fato é que, fazendo ou não a transição para uma atividade relacionada à verdadeira Profissão que escolhemos (ou que, para os mais espirituais, nos foi dada por Deus), aquela que fazemos com paixão e vontade, não podemos deixar que o trabalho – imposto pelas necessidades – nos faça esquecê-la.

A vida é grande, e seu percurso, inesperado. Em uma esquina qualquer da vida, podemos encontrar a oportunidade para pegar a outra via, aquela que conduz à realização dos sonhos que, no momento, estão sendo adiados. E é preciso estar pronto quando esta curva surgir no horizonte. O preparo para isso depende de termos a coragem de dizer para nós mesmos o que realmente somos e o que, afinal, verdadeiramente queremos da vida.

Kruschev

A gestão por metas e a lição das vaquinhas de Riazan

 

Em organizações muito grandes, não dá para os administradores principais terem acesso e convivência com todos os trabalhadores e setores envolvidos. Em operações nas quais parte do trabalho é terceirizado, a gestão do trabalho e da produtividade torna-se ainda mais complicadas.

Então, é racional pensar que instituições de grandes dimensões tenham um sistema de indicadores e uma tabela de metas para avaliar se, no fim das contas, o gigante está todo movendo-se junto e de acordo com a visão de quem tem a missão de definir rumos.

O problema é que, em muitos casos, esta “gestão por números” acaba tornando-se não apenas o elemento central, mas a obsessão de quem está no topo da pirâmide organizacional. Hoje, veremos um exemplo histórico sobre os perigos disso, e aprenderemos algumas lições.


UM POUCO DE CONTEXTO

Para os que não estão familiarizados com a História do século XX: em 1917, a Rússia, país mais atrasado da Europa na época, foi palco de uma revolução socialista. O novo governo estatizou fábricas, transportes, terras, tudo, e praticamente todo o povo passou a trabalhar diretamente para o Estado soviético.

Como não havia liberdade de mercado, o governo funcionava como uma imensa empresa com dezenas de milhões de empregados. Para gerir essa coisa gigantesca, foram criados os Planos Quinquenais, que eram peças de planejamento e estabelecimento de metas para os próximos cinco anos. Neles, estabeleciam-se prioridades e metas. Mais ou menos como ocorre hoje nas grandes empresas.

Este sistema funcionou mais ou menos bem nos primeiros anos: embora o governo Stalin tenha exercido uma violenta repressão a todos os que não seguissem seus planos, e o país tenha sido devastado pela Segunda Guerra Mundial, os russos conseguiram firmar-se como uma superpotência, rivalizando com os EUA.

Mas o país ainda era varrido, de tempos em tempos, por ondas de escassez e fome. Com a morte de Stalin, um careca chamado Nikita Kruschev assumiu o poder, e ele era absolutamente obcecado por produção agropecuária. Entre outros feitos, iria reconstruir a Ucrânia e tornar cultivável um pedaço enorme do Cazaquistão.

Mas foi no governo dele que aconteceu o insólito caso das vacas de Riazan, que veremos agora.

Kruschev


O ESTABELECIMENTO DE METAS

Kruschev queria aumentar a produção de carne. Seus especialistas e cientistas duvidavam das possibilidades de um grande salto neste setor, mas tanto o líder quanto os administradores regionais e os camponeses estavam empolgados.

Alexei Larionov, o primeiro secretário do Oblast de Riazan, prometeu DUPLICAR sua produção de carne no próximo ano. Depois, ele reuniu-se com os administradores das divisões do oblast, e alguns deles, mais empolgados ainda, chegavam a prometer triplicação do volume de carne. O bom senso passava longe.

Este tipo de entusiasmo parece absolutamente irracional mas, se pararmos para pensar, hoje em dia não apenas temos executivos que agem como Larionov, como também temos palestrantes e escritos de livros que fazem fortunas insuflando entusiasmo vazio nas pessoas.

Haviam russos sensatos, claro: o próprio jornal Pravda, na época, criticou o irrealismo. Mas isso não deteve os super-heróis agrícolas.


O PLANO NA PRÁTICA

Todas as medidas realistas e práticas para engorda e reprodução aceleradas do gado foram tomadas mas, nos primeiros meses, ficou evidente que, embora se pudesse entregar um aumento significativo da produção ao longo do ano, não se iria alcançar a duplicação dela, como prometido.

Começaram então a abater até o gado leiteiro, e os animais destinados à reprodução. Como isso obviamente levaria a região à ruína, os dirigentes locais começaram a confiscar os animais criados de forma particular pelos camponeses, nas fazendas de cooperativas autônomas (os kolkhozes) e até arredores de suas casas.

Como nem isso resolveu o problema, e tanto os administradores como a população de Riazan estavam decididos a não ficar “mal na foto” diante do resto do país, iniciou-se uma prática de re-contabilizar a carne já produzida.

Digamos, o agricultor Vladimir. Pois bem, Vladimir vendia a carne de suas vacas ao armazém do governo, que contabilizava aquele peso em carne na soma da produção de Riazan. Depois, repassava a carne para os supermercados. Chegando lá, o próprio Vladimir comprava aquele montão de carne, guardava um pouco para seu consumo, e apresentava o restante naquele mesmo armazém.

Assim, ele produziu 300 quilos de carne e esta carne foi contada na primeira passada no armazém. Na segunda, foram mais 150. E às vezes havia uma terceira passada.

Como o preço no supermercado tinha que ter algum aumento para cobrir despesas do próprio estabelecimento, este sistema levou boa parte dos produtores de Riazan a contrair dívidas. O próprio governo do Oblast começou a financiar a prática, usando o dinheiro que deveria ser usado em novas máquinas agrícolas e sementes.


O RESULTADO TRIUNFANTE

No dia 16 de Dezembro de 1959, o oblast de Riazan anunciou o cumprimento da inacreditável meta de produção. Larionov recebeu uma medalha de Herói Socialista do Trabalho, e o país todo só comentava este retumbante sucesso.

Alexei fez um bonito discurso prometendo, para 1960, triplicar a produção. Toda a Rússia acreditou: aquele homem era capaz!

Não que os russos da época fossem burros: nós, brasileiros ou americanos, já vimos casos emblemáticos de administradores aparentemente superpoderosos, que prometem margens de lucro astronômicas e todo mundo acredita porque, afinal, “ele sabe fazer as coisas acontecerem”. Ou alguém aí não vê certa semelhança entre Alexei Larionov e, digamos, Eike Batista?

kruschev leite


CAINDO NA REALIDADE

Riazan faliu. Alexei Larionov cometeu suicídio. Incrivelmente, até hoje não é incomum vermos gestores que conhecem bem o sistema inumano e numérico de contagem dos indicadores que servem para aferição, e com uma planilha na mão, dão a impressão de sucesso enquanto plantam as sementes do fracasso.

Embora Riazan tenha cumprido a meta de 1959, o gado havia sido dizimado pelo abate excessivo. Os rebanhos correspondiam a 65% do que eram no ano anterior. Se de 1958 para 1959 a produção havia triplicado, de 1959 para 1960 ela caiu para um quinto do que era antes.

Os camponeses tinham dificuldades até para alimentar suas próprias famílias. E aqueles que tiveram o gado particular confiscado tentaram resgatar o valor dos títulos que haviam recebido. Tomaram um previsível calote, de modo que entraram numa espécie de semi-greve que derrubou ainda mais a produção de grãos e alimento para os animais. Os anos 60 seriam difíceis para aquele povo.


A LIÇÃO APRENDIDA

Nikita Kurschev aprendeu alguma coisa com o desastre de Riazan – algo que todo líder deve saber: não dá para administrar simplesmente olhando indicadores de cumprimento de metas em uma tela de computador. É preciso sair, falar com os trabalhadores, sentir o clima e enxergar a realidade da organização no dia a dia.

Tanto que seu governo é lembrado como uma época de progresso para o país. Ele foi o líder soviético que mandou o primeiro satélite e o primeiro homem ao espaço, e mais importante que isso, começou a direcionar o foco da indústria do país no atendimento às necessidades dos cidadãos. A qualidade de vida melhorou e o governo começou a abrandar a censura e a perseguição aos opositores.

Por um momento, chegou a parecer que a URSS poderia dar certo. Kruschev, no entanto, era afoito e entrou em choque com gente demais. Em 1964, foi derrubado por um golpe.

Fish-Jumping

Dicas para fazer a escolha certa na hora de trocar de emprego ou carreira

Você já está trabalhando, já tem um emprego, e surge uma chance nova. E agoras? Existem alguns fatores a considerar, e nem todos são óbvios.

O primeiro deles é pesar prós e contras no aspecto frio, racional. Isso é fácil. Basta comparar salário, vantagens, e plano de carreira ou possibilidade de crescimento. Caso haja uma vantagem MUITO clara em fazer as malas, fica mais fácil definir.

Mas digamos que não seja tão simples. Aí, temos que pensar mais. Para começar, é preciso tentar abstrair toda a irracionalidade da decisão.


Por “irracionalidade” eu falo de duas forças opostas:

A) por um lado, temos o COMODISMO. Já sabemos fazer o que fazemos e conhecemos o lugar onde estamos. A tendência do corpo parado é ficar parado, já dizia Newton, e a mudança dá medo. É a famosa Zona de Conforto. É irracional, claro, porque nos cega às novas possibilidades.

B) por outro lado, temos a ANSIEDADE. Podemos estar insatisfeitos com a nossa vida de forma geral. É a relação com os colegas, a chatisse do trabalho sempre igual, ou até coisas externas, pessoais. E a ideia de mudar de emprego acaba confundindo-se com a vontade de “jogar tudo pro alto e recomeçar”. É irracional porque, não, a vida não vai mudar radicalmente. Só o trabalho vai. Talvez fosse melhor tirar férias.


Ultrapassada a barreira dos impulsos irracionais:

Com a cabeça fria, sem tantas emoções envolvidas, podemos analisar o trabalho em si. Não adianta viver na ilusão: TODO TIPO de trabalho vai ter momentos que são um saco. Nada é maravilhoso o tempo todo. Nem o que você faz agora, nem o que fará depois. Então, pode-se até mudar para um ramo para o qual se tem mais afinidade, mas nunca se estará livre dos ossos do ofício.

Nessa hora, é preciso também pesar um fator importantíssimo: o risco. Pare e pense: essa empresa nova, que te oferece um emprego super legal, ela tem viabilidade? Ou daqui a alguns meses irá abaixo, e você estará no Seguro Desemprego? Ou por outro lado, será que a empresa onde você está vai bem das pernas? Será que aí dentro, mesmo, não há algo que te coloque em risco?

E finalmente…

Fish-Jumping


O fator mais importante, a longo prazo:

Tire uma folga, um dia, um meio-turno, no seu trabalho atual. Diga que vai ao médico, antecipe um dia de férias, qualquer coisa. E vá até o seu “talvez futuro local de trabalho”. Não diga que está indo para lá. Circule, converse fiado com uma pessoa, com a outra. Faça umas perguntinhas de leve. Principalmente, olhe para o olhar das pessoas. Analise o CLIMA no qual vai trabalhar.

Onde há muita intriga, onde boa parte do esforço é focado nos colegas e nas disputas de poder, ao invés do trabalho, estebelece-se um clima pesado. A linguagem não-verbal das pessoas acaba denunciando isso. E mesmo que um lugar assim possa pagar melhor, ele não vai te fazer bem. Você não vai querer estar em um lugar com chefes prepotentes, colegas intrigueiros, cobranças, tensão, onde uns torcem muito mais pelo fracasso dos outros, do que pelo sucesso da equipe.

Será que na nova empresa haverá a liberdade, o ambiente criativo e inspirador do qual você precisa? Ou ao menos será igual ou melhor do que tem agora?

Eu diria que esta visita é um fator crucial na hora de escolher entre trocar ou não de emprego. É uma escolha racional que vai impedir que todo o resto da sua vida seja afetado pela ansiedade e pelo comodismo lá adiante.

E aí, então, com tudo isso colocado na balança, faça sua escolha.

Não sei quem ou quantos vão ler este post mas, tanto faz: te desejo sucesso!

sindicatos fascistos

Nosso sistema sindical e sua origem no fascismo

Todo sistema de ideias sobre a sociedade surge em resposta a algum dilema presente em alguma época. Nasce para dar respostas e resolver algum conflito. E, invariavelmente, deixa alguma coisa que será depois reciclada e reutilizada.


RELAÇÕES DE TRABALHO ANTES DO FASCISMO

Hoje, quando se fala em fascismo, há uma associação imediata com a Segunda Guerra Mundial e com o extermínio de minorias, como se fosse sinônimo de nazismo. É uma confusão compreensível, mas precisamos superá-la. Os fascistas chegaram ao poder na Itália em 1922, sem dar ênfase a questões raciais. A luta de classes, sim, era o assunto do momento.

O capitalismo da Era Industrial funcionava como um regime de livre contratação, gerando uma desigualdade abissal – os trabalhadores em condições subumanas e, quando movidos pelo desespero, recorriam à violência para pressionar seus patrões. Estes, por sua vez, contratavam “empresas de segurança” para “descer o cacete” no operariado, e “sumir” com os elementos agitadores.

Vivia-se, portanto, um modelo social claramente insustentável e desumano, que só parecia superável através de uma revolução violenta e de experimentos sociais até ali utópicos, arriscados, e radicais. Movimentos socialistas e anarquistas ganhavam força rapidamente.


ALGUÉM PARA APARTAR A LUTA DAS CLASSES

Havia a necessidade de alguma nova ideia, um tipo de regime que pudesse dar aos trabalhadores um padrão de vida aceitável, apaziguá-los, sem a extinção da propriedade privada, e sem um permanente estado de guerra de classes.

A resposta, aparentemente, estava em um arranjo de corporações, representando os interesses conflitantes, mediado por um Estado forte e teoricamente justo. Um Estado que tivesse objetivos aspirações claras, capazes de unir toda a sociedade, em torno do nacionalismo, da defesa contra as forças externas e a subversão interna.

Esta é a base dos regimes fascistoides (ou seja, assemelhados ao fascismo italiano) que despontaram na primeira metade do século XX.

A fórmula parecia fazer sentido e acabaria sendo adotada em boa parte do mundo desenvolvido da época. Espanha, Grécia, Polônia, Romênia, Croácia, Portugal, e até aqui, em terras brasileiras.


O MODELO ADOTADO NO BRASIL

A Ação Integralista Brasileira, movimento forte da época, é normalmente associado pela historiografia ao fascismo. Ela jamais chegou ao poder. Mas o governo revolucionário de Getúlio Vargas, mesmo sem “salute” de braço estendido nem emblemas bicolores, importou a fórmula que, na época, fazia sucesso na Itália e na Polônia.

A defesa dos interesses dos ricos, antes exercida de forma não-oficial por cada empresário, ou por grupos de interesse, com contratação de mercenários e táticas como o “lock out”, passaria para as mãos das associações patronais.

Já a revolta e as reivindicações dos trabalhadores, que antes só encontravam um canal de expressão sob a forma de greves e violência, e organizavam-se cada vez mais em torno dos programas dos grupos de extrema esquerda, passariam a ser canalizadas por meio dos sindicatos oficialmente aceitos, registrados e sustentados pelas vias legais.

O Estado varguista, adaptando esta concepção para o Brasil que começava a industrializar-se, colocou-se como a mão forte mediadora das negociações (criando um órgão especificamente para esta função, a Justiça do Trabalho, em 1939).

Em 1943 nasceu a nossa CLT – que é o conjunto de leis que permite ao ente governamental cobrar o cumprimento do acordo por ambos os lados. Aliás, claramente inspirada na “Carta del Lavoro” promulgada em 1927 na Itália, por Benito Mussolini.


NOS DIAS DE HOJE

A CLT sofreu mudanças, os sindicatos sofreram mudanças, mas, no fundo, nosso sistema de relações entre empregados e empregadores segue basicamente o mesmo: sindicatos registrados e obedientes a uma legislação, canalizando de forma mais ou menos ordeira as reivindicações e força de luta dos trabalhadores, associações patronais fazendo a mesma coisa do outro lado da mesa, e os TRTs como mão forte (e teoricamente imparcial) do Estado para dar a palavra final e dar garantia de cumprimento.

A sindicalização oficial e mediada, por um lado, contém a radicalização e a força de transformação social do movimento operário enquanto, por outro, permite que este faça reivindicações com algumas garantias e dentro de uma relativa normalidade.

O fato de apontar a origem do sistema na concepção fascista de relação de trabalho não é uma crítica a ele – é uma constatação simples da História. Em um determinado momento, essas ideias surgiram como resposta a uma situação insustentável e, mal ou bem, têm funcionado. Dizer se isso é bom ou ruim, já é outra história.

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Economia: o que é o Efeito Giffen

Contrariando a lei geral da oferta e da demanda, temos os bens que sofrem o chamado Efeito Giffen. Entenda como funciona isso.

A lei da oferta e da demanda, que rege o mercado, é clara: de um lado, temos consumidores querendo comprar um determinado bem, e quanto mais pessoas querem comprar um produto que é escasso, mais caro ele se torna.

Porém, quando um produto existe em abundância, seu preço baixa, e pode-se chegar ao ponto no qual a produção é tão grande que um determinado bem passa a existir em excesso no mercado, de modo que as pessoas nem têm vontade de comprar toda aquela produção, e a única maneira de vendê-la é baixar o preço.

Era de se esperar, portanto, que quando o preço de um produto qualquer subisse, a procura por ele caísse na mesma proporção, já que, tornando-se mais caro, o produto torna-se inacessível para a parcela mais pobre de seus consumidores tradicionais, e mesmo os compradores que continuam a escolhê-lo, deverão comprar menos dele, já que está mais caro.

Mas existem exceções às leis do mercado, e uma delas é a dos chamados “bens de Giffen” (Giffen goods), cuja descrição aparece pela primeira vez no livro “Principles of Economics”, escrito no século XIX por Alfred Marshall. O autor do livro atribui a idéia a Sir Robert Giffen, um economista e estatístico escocês.

Os tais “bens de Giffen” são produtos cuja demanda AUMENTA quando seu preço sobe, porque os consumidores deixam de adquirir produtos que servem-lhe de substituto em decorrência desta escalada de preços, contrariando o princípio básico segundo o qual o preço maior deveria fazer a venda cair.

Um bom exemplo desta teoria dá-se com o pão. Muitas famílias têm o costume de comer uma refeição de “comida de verdade” na hora de almoço, e “tomar um café” na hora do jantar, comendo pão com alguma coisa dentro. Esta refeição noturna ganha um certo colorido com a compra, além do pão, de croissants, cucas, bolos, e outros produtos “substitutos” do pão, para dar uma variedade.

Mas, quando o preço do pão sobe, os primeiros gastos da rubrica “padaria” a serem cortados do apertado orçamento familiar são os bolos, cucas, croissants e outros produtos que, na verdade, eram variedades mais caras do elemento sólido do jantar. Com isso, o grupo familiar vê-se obrigado a comprar mais PÃO – ou seja, como o pão é o produto mais barato da lista de “sólidos” possíveis para o lanche, e o orçamento para padaria está mais apertado, compra-se mais pão, e não menos. O corte se dá nos “produtos substitutos”, mais caros e vistos como supérfluos.

Para que o “efeito Giffen” possa ocorrer com um produto qualquer, existem três pré-requisitos básicos:

1 – É preciso tratar-se de um “bem inferior”, o mais barato dentro de seu grupo de bens semelhantes (exemplo: o pão, comparado ao bolo e à cuca).

2 – Não pode haver um bem substituto, mesmo que de qualidade inferior (ou o consumidor migrará “para baixo” em seus padrões de compra).

3 – O bem precisa corresponder a uma parte importante da lista de gastos do consumidor, para que o aumento de seu preço faça alguma diferença na vida da pessoa (se o pão representasse apenas um pequeno percentual do salário de um trabalhador de baixa renda, o aumento de seu preço não obrigaria este trabalhador e alterar outros hábitos de consumo).

Além do pão na mesa dos brasileiros, podemos citar o arroz como um “bem de Giffen” comum, e fora do nosso cenário nacional, existem outros itens. Como o shochu, uma birita japonesa que é normalmente mais barata do que o saquê (o japinha, apertado pelo aumento do preço do goró, passa a comprar mais justamente do mais baratinho, diminuindo no padrão de qualidade para não ter que diminuir a quantidade), e o querosene, usado como combustível (de baixa qualidade, por sinal) em sistemas de aquecimento no inverno (em países frios, claro, não no Brasil).

Este post, claro, não esgota o assunto, mas espero que ele ajude eventuais curiosos a entender, ao menos superficialmente, este conceito econômico.