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Categoria: Imprensa & Comunicação

Posts sobre jornalismo, design e técnicas variadas no campo da comunicação.

Clodovil

Dez capas inacreditáveis do Meia Hora homenageando famosos falecidos

O jornal Meia Hora é conhecido nacionalmente por suas capas absolutamente absurdas, que misturam deboche, trocadilhos e uma falta absoluta de noção e bom-mocismo.

Quando alguém famoso morre, por mais esdrúxulo que tenha sido seu papel durante a vida, normalmente recebe um respeito especial da mídia, e o carinho do público. O Meia Hora tem sua forma peculiar de expressar essa reverência.


 

Clodovil “virou purpurina”

A piada corria as conversas de boteco, mas só o Meia teve coragem de passá-la para o papel e botar na banca.

  Clodovil       


Nelson Ned – “não existe mesmo enterro de anão!”

O cantor foi cremado.

Nelson Ned


Amy Winehouse – “bebeu, fumou, cheirou e dançou”

Sério.

amy winehouse


Michael Jackson “nasceu negro, ficou branco e vai virar cinza”

Tá, não foi uma capa muito extrema. Usaram uma imagem do clipe “Thriller”. E não fizeram nenhuma gozação com as acusações de pedofilia. Quase formal demais, para o Meia Hora.

Michael Jackson


Hugo Chaves “morre sem querer querendo”

Sim, enquanto o mundo dividia-se entre os apoiadores emocionados com a morte do líder venezuelano, e os detratores riam à toa, o Meia optou pelo trocadilho com o personagem mexicano.

hugo chavez


Roberto Bolaños – “Chaves morreu? Isso, isso, isso!”

Engraçado é que a morte do lendário comediante recebeu muito mais respeito e piadas mais comedidas do que as mortes de personagens mais “sérios”.

Robert Bolanos Chaves


Chorão “troca Charlie Brown por Sepultura”

Eu juro que esta é a capa de verdade, da edição trazendo a morte do vocalista do Charlie.

Chorao do Charlie Brown


Steve Jobs – essa eu preciso explicar…

O co-fundador da Apple morreu, e aí, por razões que só Deus sabe, a Mulher Maçã lançou uma carta aberta lamentando o fato. Mas chamou o cara de “Esteve” Jobs. Não, não tente entender. Só olhe e leia.

Steve Jobs


Wando – “manhã sem sol, sem iaiá sem ioiô”

O Meia Hora resolveu ser mais ou menos respeitoso com a figura do cantor brega. Só que, por alguma razão (novamente, não tente entender), chamaram a Mulher Maçã (sempre ela), para posar com uma calcinha preta.

Wando


ET – adeus

Aqui a gente vê os padrões do Meia: o ET, da dupla “Rodolfo e ET”, ganhou um pedacinho da capa, lá no canto. Mas com uma chamada tão séria que poderia ser da Zero Hora ou do Estadão.

morte do et

candidate-750x400

Um caso prático para aprender sobre design de material eleitoral

Hoje, sem nenhum tipo de pregação política ou ideológica, eu vou usar aqui uma peça de propaganda eleitoral.

Abaixo, temos uma propaganda que circulava no Facebook. Ela é uma peça típica de candidato a vereador, neste caso, um contabilista aqui da cidade de Viamão que é meu amigo há muito tempo. Vamos utilizá-lo como caso de estudo.

Leandro original

Eu vi isso e resolvi redesenhar, só por brincadeira e para escrever este artigo. Prestem atenção: ele colocou o nome, o partido, o número, e alguns itens de sua biografia, além da foto. E tudo isso parece estar amontoado, como se faltasse espaço no tamanho determinado para a imagem (ou adesivo, não sei bem o que ele pretende fazer com esta arte).

Agora, veja como eu reorganizo tudo isso no mesmo espaço:

Leandro com cores carnavalescas

Ok, eu sei, não ficou uma obra de arte. A foto não é a melhor, também. Mas veja que agora as informações estão mais visíveis, mais destacadas, e em alguns pontos parece até sobrar espaço.

Quatro coisas são importantes, aqui, para fins de aprendizado:

1 – Maior nem sempre é mais visível. Na propaganda original, as letras foram esticadas para preencher todos os espaços possíveis. O resultado foi uma “selva de letrinhas” sem destaque nem fluidez, que tornou tudo menos chamativo.

2 – O espaço precisa respirar. Ainda na questão de espichar letras para cobrir tudo, temos uma prática muito feia: o amontoamento de objetos (textos, fotos, etc) e o preenchimento de todos os cantos. Isso é uma coisa que eu mesmo fazia antigamente em jornais, mas viver é aprender, então hoje posso dizer: os espaços vazios são indispensáveis para dar uma certa leveza e legibilidade à peça.

3 – Contraste, meus amigos, contraste. Você simplesmente não pode usar um fundo amarelo forte com letras vermelhas, muito menos azuis. Criar peças coloridas que devem chamar atenção (como é o caso dos adesivos eleitorais) é bem simples: transforme a imagem em preto-e-branco, ou tire um xerox da peça, e veja se ela continua legível. Se a resposta for NÃO, você errou.

4 – Evite serpentear elementos maiores. A peça original tem dois objetos gráficos: o logotipo do candidato a prefeito, e a foto do candidato a vereador. E basicamente há o resto todo do texto, que “flui” como um curso d’água que passa no meio de pedras. Isso raramente funciona. Veja que na minha versão, há uma distinção muito clara entre o espaço do vereador e o espaço do prefeito (que é pequeno, e fica embaixo, porque ele tem seu material próprio). No espaço do vereador as coisas parecem “conversar” entre si.

5 – Se você escolheu usar uma diagonal, seja fiel a ela. A peça original tem texto em pé e gráficos também. É uma escolha válida, e eu tenho amigos(as) que trabalham com design e odeiam diagonais. Mas eu adoro diagonais, e muitos de vocês também devem adorar.

Então, vamos lá: por questões de espaço e composição, fiz um “corte” em diagonal na parte de baixo, no qual coloquei a propaganda do prefeito. Depois, resolvi que o nome e número do Silva Leandro também seriam em diagonal.

Agora, pare e pense: se eu tivesse inclinado as letras para o OUTRO lado, não companhando o sentido de “subida” da parte inferior, esta peça ficaria parecendo trabalho escolar daqueles de colagem, que as crianças fazem. Ou panfleto de supermercado. Se você for usar diagonais, faça-as convergir para o mesmo sentido. No caso, tudo converge para o rosto do candidato, ou do rosto, dependendo de como se enxerga a coisa.

6 – Fluidez, meu amigo. Fluidez. O leitor precisa ser conduzido em sua leitura. Ele ai, naturalmente, começar pelo elemento mais chamativo e, dali, correr o olho para baixo e para a direita. Mas simplesmente dispôr as informações em forma de bloquinhos uniformes torna a peça muito monótona e não dá uma noção de para onde o leitor deve olhar primeiro, e para onde deve correr o olhar. Releia a parte final do item 5.

7 – Não, você não está desenhando o arco-íris. A propaganda original usa todas as cores básicas. A minha versão também. Eu, pessoalmente, não gostei do fundo amarelo. Minha versão preferida é mais neutra, mais limpa. Veja aí:

Leandro com cores suaves

O fundo azul, no entanto, deixou o esquema gráfico parecido com o dos candidatos do PDT, e eu fiz esse aqui, meio bizarro:

Leandro com fundo de pedra

E agora, finalmente, vamos falar de arco-íris. Seu candidato concorre pelo PSDB, digamos. Então por quê diabos você precisa colocar um fundo (ou letra) vermelho na propaganda dele? Só porque algum manual da internet disse que a cor vermelha chama atenção? Só porque outros candidatos usam vermelho e fica lindo? O que esta cor dirá sobre o candidato?

Ou o seu candidato está concorrendo pelo PSTU. Daí você viu um tom de verde maravilhoso e resolveu usar como fundo da propaganda. E ele entra em conflito com o vermelho berrante do logotipo do partido. Por quê insistir?

As cores em uma propaganda dizem algo. Observando a coligação deste meu amigo, percebi que temos ali o PRTB e o PRB. Ou seja, estamos falando de um grupo centrista conservador e, no caso, de um candidato que casa bem com a ideia. Então, fiz o seguinte:

Leandro com cores mais fortes

Veja que agora, finalmente, tirando marcações e o texto em preto, a propaganda é basicamente verde, amarela e azul. Como a bandeira nacional. E a parte do vereador parece ter uma harmonia de cores com a propaganda do prefeito, o que sempre é desejável (a menos que você tenha sido obrigado a engolir uma coligação que odeia, e queira deixar isso claro já no design da sua propaganda).


E a regra de ouro: você não está desenhando só para voce.

Sim. Óbvio que desenhos clean, sem muito texto e sem muitas cores são lindos e elegantes. Mas neste caso, estamos diante de um material de campanha eleitoral. Ele deve ser chamativo, popular, e passar seu recado.

Antes de definir como será o desenho de alguma coisa, faça as seguintes perguntas:

a) Quem vai ver isso? Para quem será direcionado?

b) Quais itens, frases e coisas o contratante faz questão que não sejam cortados?

c) O papel e qualidade de impressão escolhidos nem sempre são ideais. Essa minha ideia genial vai ficar legal no meio físico disponível?

d) Isso vai causar estranheza no público e, causando, será que é o momento e a campanha para causar estranheza? Como isso trabalha a favor do cliente?

e) Esse recurso visual super legal que acabei de aprender a usar, e que tem uma aparência moderna além de ser um atestado a minha excelência técnica, ele vai ter função nessa peça, ou vai só poluí-la?


Pensar desenho é coisa para malucos. É algo abstrato, algo que, no fundo, é particular do artista. Mas deve seguir alguma lógica. E espero ter aproveitado a ocasião eleitoral para ajudar a esclarecer alguns conceitos.

Até a próxima!

 

 

News conference

Assessoria de Comunicação além do feijão-com-arroz

Fazer jornalismo é uma coisa. Fazer Assessoria é outra. E se tem uma coisa que os profissionais deveriam ter sempre em mente é isso: não ficar na defensiva.

Órgãos públicos e empresas que prestam serviços concedidos muitas vezes têm profissionais de Jornalismo e Relações Públicas em algum setor dedicado à manutenção da imagem da entidade. A coisa mais comum é que este setor seja um “bombeiro”, servindo apenas para “apagar incêndio”.

A imprensa dá um PAU na instituição, apontando uma falha no serviço? A Comunicação manda uma nota explicando e dizendo as providências que serão tomadas. Moradores organizam protestos e abaixo-assinados? A Comunicação lança uma nota dizendo que serão atendidos e praticamente pedindo “perdão, isso não vai se repetir”.

A imagem que se cria das instituições é de que são incompetentes, não fazem o que têm que fazer, mas há uma saída: elas agem sob pressão.

Que estratégia mais FURADA, né?

Comunicação Social, seja de que entidade for, tem que viver na OFENSIVA, não na DEFENSIVA.

Ela não pode ser um tapa-furos na imagem da empresa. Não! Tem é que partir para cima e fazer essa imagem se agigantar, brilhar! Fazer brilhar tanto, que ofusque a visão da opinião pública a ponto de ela não notar pequenos furos!


COMO SE FAZ ISSO?

Uma empresa de água e esgoto, por exemplo! Óbvio que, quando um cano estoura na rua e sai nos jornais a foto da porcalhada se esparramando na pista, será preciso emitir uma nota dizendo por quê aquilo aconteceu, e ressaltando a rapidez da solução.

Mas fora RESPONDER, é preciso mostrar o que se está fazendo. Inserir isso no dia a dia: não se faz mais obra grande nenhuma sem uma câmera fotográfica mostrar o trabalho! Não se faz NADA sem emitir uma nota enviada a todos os jornais, sites de notícia e rádios na região de interesse. Nada!

Aí, o Zé das Couves, o cidadão lá, ele abre o jornal um dia e se depara com a notinha: fizeram obra em tal lugar. Dali a uns dias, ele olha e vê outra obra não sei onde. Mesmo que a rede dele esteja RUIM, ele pensa “pô, os caras não estão vagabundeando, e daqui a pouco, chegam aqui!” – porque a imagem do órgão e da empresa pública é a de um lugar com ar-condicionado onde marajás concursados ficam tomando cafezinho!

Sim! Comunicação ATIVA!

News conference
News conference

Mesmo quando dá um problema, não se pode dizer apenas o básico sobre a solução. É preciso bater foto de uns técnicos se ralando, cavando, emendando. E lançar isso para o povo ver!

É como quando falta luz: as pessoas estão lá, com a TV apagada, o ar-condicionado desligado, morrendo de calor, ou frio, sem tomar banho. Elas imaginam um bando de burocratas coçando o saco. Não! Se elas vissem as fotos dos eletricistas pendurados na rede, brigando contra a chuva, o vento, as árvores, na próxima falta de luz, elas imaginariam os caras lá, brigando para restaurar a energia, e a espera pareceria menos irritante. Ao menos, teria consciência de que uma eventual demora deve-se à dificuldade, não à falta de vontade.

Tudo o que possa construir a imagem tem que virar nota. Tem que sair no site da instituição. E tem que ser enviado aos veículos de comunicação.


O USO DO EMOCIONAL

Notas de comunicação institucional normalmente são frias e dizem apenas o essencial. Tudo o que narrei acima tem algo de novelesco. E é para ter mesmo!

Porque imagem é uma coisa que não se constrói no terreno do estritamente racional. Não! É preciso ser meio psicólogo! É preciso ser meio marqueteiro!

É preciso emocionar as pessoas e fazerem elas não apenas respeitarem a instituição, mas se apegarem a ela, confiarem nela!


CAMPANHA CONSTANTE

O clima de uma assessoria de comunicação tem que ser parecido com o de uma campanha eleitoral: é preciso “vender” a imagem o tempo todo. Como se houvesse uma eleição amanhã que define o destino daquela entidade. Como se houvesse uma concorrente querendo tomar-lhe o lugar, e o voto do povo decidisse isso.

Porque, no fim das contas, decide. Ex-funcionários de estatais privatizadas me darão razão.


O PODER DO “CALHAU”

Aí, alguém indaga: mas Fábio, como é que vamos divulgar esse material todo se não temos grana para ficar comprando espaços em jornais, rádios e sites?

E aí eu direi: não vamos COMPRAR.

Existe uma palavra, no jornalismo, que é “calhau”. Não sei se os estudantes de hoje usam esse mesmo termo, mas há dez anos atrás, nos diziam isso. Bem.

Digamos que o jornal tem que fechar à meia-noite para ser impresso. São onze e meia. O diagramador fechou aquela página malvada toda bonitinha, todos os anúncios estão ali, e todas as matérias. Mas tem aquele retângulozinho maldito que não tem conteúdo. Aí, ele sai catando uma coisa para colocar ali. E vejam que maravilha: tem uma matéria prontinha, uma nota, bem na caixa de e-mail da redação! É uma coisa que pode ser do interesse da população, uma obra, um comunicado, uma porcaria qualquer, de uma empresa que presta um serviço relevante!

Aí o cara “fecha” a página com aquela nota. E PIMBA! Não pagamos NA-DA!


O PODER DO “PODE SER”

Jornais e rádios menores fazem isso com freqüência. Os maiores, nem tanto, mas fazem. Aquela grande instituição mandou uma nota que até pode ser de interesse dos leitores. Mas ela não anuncia no jornal nem comprou espaço para botar aquele conteúdo.

Isso não quer dizer que não possa, FUTURAMENTE, vir a comprar espaços para botar publicidade institucional. Então, convém FICAR BEM com ela. E o editor resolve dar a nota, na esperança de ganhar uns pontinhos para o futuro.


A COMUNICAÇÃO POR FORA DOS GRANDES MEIOS

Fora isso, o material produzido deve ser publicado no site institucional. Em casos específicos, deve-se emitir um impresso com a matéria específica, que afeta a uma comunidade qualquer, e distribuir por aquela localidade.

Às vezes, nem é necessário: jornais do interior e jornais de bairro são sempre carentes de prestígio e credibilidade. Obter uma entrevista exclusiva com o dirigente de uma instituição cujo nome é forte e tradicional dá status, faz o veículo de comunicação parecer importante. Então, se um figurão aceita posar numa foto ao lado do diretor ou de alguém daquele veículo de comunicação, pode dizer o que deve ser dito, sem gastar nada mais do que alguns minutos do seu tempo.


A IMAGEM NÃO É TUDO, MAS É 95%

Talvez tudo isso que eu digo pareça estranho. Mas é estranho, porque dirigentes de coisas públicas ou não totalmente privadas costumam focar na política. Seu cargo depende de agradar a algum político. Ou, em alguns bons casos, depende de ser tecnicamente competente, de contentar um olho invisível que se expressa em números e metas.

Hoje, na era da informação, da democracia de massas, o espectador mais importante não é o figurão, não é o relatório: é o consumidor. Vivemos em um tempo em que tudo funciona pela lógica do Mercado. Um sujeito compra um carro da marca X e não da Y porque aquela marca lhe inspira confiança, porque ela dá a impressão de status social, etc. Ele forma o juízo dele acerca do carro, em parte – APENAS EM PARTE – pela experiência prática do rodar com ele. O resto, é subjetivo.

E o mesmo ocorre com xampu, pipoca, boné, canal de TV, a escola do filho. E com os serviços públicos e concedidos, oras!

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Hierarquia inter-edições de tamanho de letras de jornal

O assunto deste post pode parecer surpreendente para algumas pessoas, mas é importante: jornais impressos têm manchetes de capa de tamanhos variáveis, e estes tamanhos devem obedecer a algumas regras.

É preciso estabelecer uma HIERARQUIA DE TAMANHO DAS MANCHETES E CHAMADAS.

Claro, essa hierarquia, dentro de uma mesma edição, é algo simples de entender. É elementar: se em um mesmo dia o presidente da República comete suicídio, e um time de futebol conquista um título, eu vou colocar em letras enormes a tragédia, e uma chamada menor para o esporte.

Mas pouca gente se dá conta de que é preciso estabelecer uma hierarquia entre edições. Tem uma história curiosa dos anos 70, que teria ocorrido em um jornal qualquer… eu ouvi esse causo na faculdade, não lembro que jornal era. Mas era assim: um diagramador queria usar letras gigantes na capa para uma conquista do time do coração dele e do editor-chefe. Mas o chefe não deixou. “Esse corpo de letra aí eu estou guardando para noticiar a queda da ditadura militar”.

O que quer dizer? Quero dizer que, se o jornal sempre usar letras monstruosas, coloridas, colossais, para tudo, os leitores vão começar a ver o destaque como algo banal. Então, estabeleça um limite, do qual as manchetes só passarão para noticiar fatos realmente marcantes. Assim, mesmo quem não é leitor contumaz de jornal (ou do SEU jornal), vai saber que NAQUELE DIA vale a pena ler.

Olhem o exemplo abaixo. O cara ocupou MEIA CAPA de um JORNAL STANDARD. Esse jornal aí, pendurado na banca, era pouco menos que um outdoor!

Mas a manchete justificava:

capa_da_morte_do_getulio

O uso de letras monstruosamente grandes assim em QUALQUER manchete, o uso delas no dia a dia do jornal, inviabiliza que uma edição com algo realmente bombástico seja percebida desta forma pelos potenciais leitores.

Use com moderação.

capa confusa

Cinco erros comuns de diagramação de capas de jornal

Criar a capa de um jornal não é uma tarefa trivial, tanto é que vemos verdadeiras atrocidades, especialmente em jornais menores, do interior. Eu já falei sobre os segredos e dicas para fazer uma capa bem feita, primeiro esclarecendo para quê serva a capa, e depois, falando sobre a identidade visual que o jornal deve perseguir.

Embora o jornal impresso esteja, segundo os especialistas, com os dias contados, ele ainda é forte. O problema é que, hoje em dia, não temos mais um banco de profissionais dedicados à arte de montar páginas de jornais com excelência. Bons profissionais existem, mas vão progressivamente sumindo do mercado.

No interior, onde a imprensa de papel deve demorar mais tempo a morrer, às vezes o trabalho é feito por pessoas com pouca experiência. E é para elas que elaboro esta checklist de mancadas que precisam ser evitadas.

A lista não está em ordem de importância. É simplesmente uma maneira de torná-la compreensível.


1 – Confundir o leitor – Às vezes, temos na capa uma matéria meia-boca com uma bela foto, e outra matéria bombástica sem foto. Ou temos duas matérias que merecem capa. E é preciso, após desenhar a capa, dar uma parada para olhar e tentar imaginar o quê o leitor entenderá. 

Em um caso clássico de confusão PROPOSITAL, um jornal colocou uma manchete dizendo “Maluf eleito!”, com uma enorme foto do político. Abaixo, havia outra matéria, com uma enorme manchete: “É fogo!” Foi a forma de atacar o candidato vencedor sem levar processo.

Infelizmente, em 99% das vezes, as implicações e mal entendidos não são propositais. Abaixo, vemos um caso: há uma matéria sobre um festival de humor, e outra sobre abusadores de crianças. Considerando que boa parte dos transeuntes apenas dará uma olhada na capa, o palhaço que posou para a imagem provavelmente terá bastante dor de cabeça:

capa com mancada de combinado


2 – Não separar direito conteúdo de propaganda. É um erro mortal. Um pedaço da capa deve ter publicidade, e o outro, as manchetes e chamadas. Bem distintos. Jamais separe o conteúdo editorial em “quadrinhos” cercados de propaganda, nem vice-versa.


3 – Combinar cores que não combinam. Se sua manchete vai ser vermelha, o fundo não pode ser preto. Se o fundo for preto, a letra não pode ser marrom. Destaque. Nunca esqueça: destaque!

Abaixo, um jornal no qual eu mesmo colaborei, e no qual derrapamos na curva das cores. Perceba como ficou ruim para ler a manchete, e imagine que alguém tente ler isso na rua, com o jornal pendurado na banca, debaixo do sol que reflete o verde do fundo:

capa sem contraste


4 – Fotos minúsculas. Se a sua foto para a capa é ruim, não use-a. Bote a manchete em cima de um fundo com alguma cor, ou use outra imagem. Não dê ao leitor a impressão de que há um quadrinho borrado no canto ao lado do texto.

jornal com fotinho


5 – Manchetes-TCC. E por TCC estou falando de Trabalho de Conclusão de Curso, ou seja, um texto mega-longo que é praticamente uma matéria. Resuma. Frases curtas. Chamadas. Impacto! Abaixo, um exemplo de NÃO FAZER:

jornal com manchete grande


E por enquanto é só, pessoal!

Ah, antes que eu me esqueça: uma dica que já dei em outro artigo, e que não cansarei de repetir até o fim dos meus dias (ou dos jornais impressos, o que vier primeiro): não cometa o erro supremo de enganar o leitor! Não faça na capa uma chamada mentirosa sobre uma matéria, que levará o coitado do público a abrir as páginas, com avidez nos olhos, para em seguida perceber-se vítima de um embuste. Em duas ou três edições, isso acaba com a credibilidade da publicação.

Agora, sim, agradeço a todos que leram mais este artigo até o final, e espero que ele tenha sido útil. Até o próximo!

 

dois_jornais

O que a capa diz sobre a identidade do seu jornal

Hoje, vou dizer a vocês que, sem sombra alguma de dúvida, o tipo de desenho DIZ MUITO SOBRE QUEM É O JORNAL E PARA QUEM ELE FOI ESCRITO.

Muitas pessoas no ramo da comunicação infelizmente ignoram isso, e acabam optando por um desenho simplesmente por ser bonito ou se parecer com o de outro veículo totalmente diverso, que o diretor gostou. Mas há alguma ciência por trás do design da primeira página de um jornal.

Um exemplo rápido, só para a gente começar:

dois_jornais

De um lado, temos o Correio do Povo, um jornal de 120 anos de idade, respeitado, histórico, focado em um público que considera-se educado e que lê notícias com mais de 10 linhas de texto. É um jornal que traz até coisas de literatura e cadernos sobre história (explico para quem não conhece). Note que há texto na capa, notas, e praticamente todo o espaço é branco, com letras pretas. Há uma fonte serifada daquelas clássicas, parecida com o Times New Roman, e tudo parece mais “sério” do que na capa do lado.

A outra é uma capa do Diário Gaúcho, o jornal mais barato e de maior circulação no Rio Grande do Sul. É um jornal popular, desses que os trabalhadores leem no ônibus, todo mundo dá aquela olhada, e faz grande sucesso entre guardinhas em geral. A capa tem muito menos texto, as fotos são maiores e em profusão, e a manchete principal é maior, mais berrante, e é uma frase de impacto (inclusive, usando o tempo do verbo incorreto, porque o sujeito em questão JÁ FOI para a cadeia). Gostosas seminuas, prisões, mortes, celebridades e futebol normalmente dominam a capa.


Tipologia

Nesses dois casos, além da distribuição das matérias (alinhadas em um, e “carnavalesca” no outro), das cores e tudo mais, precisamos também atentar para as FONTES escolhidas. A tipologia. Eu ainda vou falar muito sobre tipologia aqui no blog. Ela é importante, e é um assunto de grande interesse (meu, e deveria ser de vocês também). De fato, eu ia fazer minha monografia da faculdade sobre isso, mas por falta de literatura a respeito do assunto, optei por outra coisa.

De qualquer forma, minha teoria em 2004… e até hoje… é que a tipologia diz MUITO sobre o impresso. Notem como o jornal para pessoas mais “sérias” usa letras serifadas, parecendo algo feito há décadas. Parecendo um livro. Bom. Este tipo de letra favorece este tipo de jornal, porque ele vai ter textos longos e aprofundados.

Já o outro, o “popularzão” opta por fontes mais “modernas”, e provavelmente tem textos bem mais curtos e genéricos.


 

Assunto e linguagem

Também o texto que vai na capa e a ESCOLHA DAS MATÉRIAS DIGNAS DE CAPA diz muito sobre o jornal. Esses dois exemplos aí são do mesmo dia. Veja que um optou por botar uma matéria de economia, e o outro, sangue. Até a forma como as frases são escritas é diferente.

Não há uma fórmula perfeita para criar essas frases. Elas têm conexão com o público, com o tempo, com o uso da lingua. Um certo “feeling” do que combina ou não combina. E não é algo fixo. Veja abaixo essa capa dos anos 40:

capa_rompimento_com_o_eixo

A frase parece ter saído da boca do Mestre Yoda, com os elementos em ordem que hoje não se usa mais. Mas na época, passou seu recado.

Por isso composição das FRASES diferencia tudo.

A gente não pega um Correio do Povo, por exemplo, e lê nele uma manchete do tipo “Homem traído enfiou a cabeça do Ricardão no forno a lenha”. Mas no Diário Gaúcho, provavelmente já houve manchetes piores.

O jornal Meia Hora (que eu uso, sim, muito, como exemplo aqui no site – porque por mais que se possa questionar seus critérios jornalísticos, é um periódico que faz capas lendárias) é famoso por usar trocadilhos e frases de duplo sentido. Além de debochar dos sujeitos envolvidos em suas manchetes. Isso passa uma ideia de pouca seriedade e muito escracho… que é EXATAMENTE o que o jornal faz.

meia_hora_horrendo

Claro, não estou aqui dizendo que necessariamente um jornal SEJA aquilo que ele PARECE SER, mas, se queremos fazer um trabalho profissional, devemos ao menos saber o que estamos fazendo e qual imagem queremos passar.


Agora, falemos de uma coisa muito útil: O USO DAS CORES É ESSENCIAL, E NÃO PODE SER DESPERDIÇADO.

Se vocês estão fazendo um jornal COLORIDO, ou ao menos, com a CAPA COLORIDA, então NÃO diagramem uma capa “estilo preto e branco”, só com textos em preto, e fotos. Isso é desperdício do recurso.

Não saiam por aí colorindo as letras como um arco-íris, porque isso, claro, vai avacalhar a capa. Mas permitam-se usar cores de fundo. Elas são MUITO ÚTEIS.

O uso de cores de fundo e nas letras diz bastante sobre o TIPO DE EMOÇÃO que se quer despertar no leitor. Vou mostrar duas capas do lendário Meia Hora, só para a gente olhar:

meia_hora_duas_capas

Aqui, vemos um fundo cor-de-rosa na matéria sobre o novo programa da Fátima Bernardes (claro que usaram um trocadilho besta, mas e daí?). Já na matéria policial horrível da outra capa, o fundo é preto. Dá a impressão de algo pesado, terrível.

Colocar uma foto, por exemplo, do “casal telejornal” com um fundo preto daria ao leitor a impressão de que a manchete é sobre algo terrível. Até poderia angariar um pouco mais de venda na banca, mas daria ao público a impressão de um embuste, destruindo qualquer chance de fidelização daquele leitor.

É importante não criar e destruir expectativas nas capas de um jornal, caso se pretenda fazê-lo durar. Jornais impressos ainda são vistos como veículos confiáveis e tradicionais, e brincar com a cara do leitor não é boa ideia.

O assunto “capa” ainda voltará a ser tratado. Aguardem!