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Categoria: História

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versalhes 1919

O Tratado de Versalhes nos ensina o que NÃO FAZER em política e negócios

 

Quando a Primeira Guerra Mundial acabou, em 1918, os países vencedores impuseram suas condições à Alemanha e à Áustria. Interessante é que os alemães não haviam sido derrotados no campo de batalha, simplesmente haviam ficado sem condições de continuar na guerra. Então, o país era visto como um grande perigo pelo vizinhos, que precisava ser neutralizado.

O tratado, no entanto, foi elaborado de uma forma que tentasse contentar a todas as forças vencedoras e ainda atender a ideias politicamente corretas e teóricas que estavam em voga.

Mas não estamos aqui falando apenas do passado. Há uma relação disso com o presente, e algumas lições para o futuro. É preciso ler até o final.

Vamos agora montar o quebra-cabeça:

tratado-de-versalhes


O ESCULACHO VINGATIVO

A principal demanda dos franceses era ter garantias de que, no futuro, não seriam novamente invadidos pelos alemães. Para isso, estipulou-se um valor de indenizações incrivelmente alto, e parte do potencial industrial alemão foi transferido para a França.

Essas indenizações causaram um grande caos econômico na Alemanha, e a miséria instalada começou a tornar a cobrança constrangedora para os ingleses e os franceses. Diante da pobreza, muitos alemães passaram a imigrar para os países vizinhos, que passaram a ter novos problemas com isso.

Havia ainda outro problema: a Inglaterra considerava importante ter seus parceiros na Europa continental em condições de retomar o comércio. Então, a Alemanha escangalhada passou a ser um fardo.

Essas indenizações e sanções aplicadas foram motivadas, majoritariamente, por raiva e vingança, especialmente por parte dos franceses. Porque, na verdade, apenas impuseram um imenso sofrimento aos alemães comuns, sem realmente impossibilitar que o país reconstruísse sua capacidade industrial e a produção de armas, assim que a cobrança fosse aliviada.

A miséria na Alemanha acabou alimentando uma profusão de movimentos revolucionários, que pipocavam pelo país todo, em muitos casos pregando uma vingança contra todos os que haviam imposto aquela humilhação aos alemães. Um desses grupos era – vocês devem ter imaginado – o partido nazista.

pobreza na alemanha


MUITO BONITO NO PAPEL

Aqui temos um caso de idealismo aplicado pela metade. Havia, na época, uma noção de que os povos que buscam independência deveriam tê-la, pelo direito de gerir suas próprias vidas nacionais. Assim, surgiram vários pequenos países espalhados por toda a Europa. Alguns, pobres demais para se manter. Outros, vizinhos de nações grandes e agressivas (como a Alemanha ou a Rússia), já nasceram sabendo que seriam engolidos na próxima guerra que acontecesse.

As fronteiras desses novos Estados foram desenhadas, em muitos casos, como forma de punição aos países derrotados e, no caso daqueles próximos da Rússia, como “camada de absorção” para o caso de um ataque dos comunistas recém-empossados no poder por lá.

Depois de redesenhado o mapa da Europa, alguns líderes (especialmente a delegação dos EUA, que queria uma espécie de federação europeia de nações etnicamente homogêneas) propunham a transferência de populações entre os países. Isso não foi feito, e o resultado foram nações com “minorias” étnicas e culturais muito grandes que identificavam-se com os países vizinhos, pedindo anexação aos territórios deles. Um estopim perfeito para novas tensões e, claro, guerras.


AS PESSOAS ACEITAM SER PISADAS SÓ ATÉ CERTO PONTO

Quando o Império Otomano entrou na guerra ao lado da Alemanha e da Áustria, ele já estava em franca decadência. Não lembrava em nada aquela força que derrotara o Império Romano do Oriente quatro séculos antes.

Com a derrota na guerra, foi estabelecida a partição das possessões turcas: Palestina, Transjordânia, Lìbano, Iraque, Irã, tudo. O gigante otomano estava morto, neutralizado como potência militar e comercial. Nas antigas dominações, foi mais fácil estabelecer governos coloniais, porque o domínio otomano não era adorado pela maioria dos dominados.

No fim, resolveram abolir de vez o país e dividir seu território entre as forças vencedoras. Essa ideia de tomar a Turquia em si foi exagerada, e impraticável: os turcos puseram para correr italianos, gregos, armênios, georgianos e franceses. Depois conseguiram recuperar Istambul das mãos dos ingleses.

turcos


ACORDOS QUEBRADOS DEIXAM FERIDAS

Parte da bagunça que vemos até hoje no Oriente Médio (e de alguns genocídios) tem como pano de fundo a luta dos curdos pela independência de seu território, que hoje faz parte da Turquia, Irã, Iraque e países vizinhos. Acontece que o Tratado de Versalhes previa a criação do Curdistão.

A expectativa criada pelo Tratado reavivou a luta daquele povo, que continua até hoje, e contribui muito para a instabilidade política da região.


NUNCA MENOSPREZE UM PARCEIRO

Os italianos lutaram ao lado da Tríplice Entente na Primeira Guerra Mundial. Serviram, principalmente, para segurar o poder do Império Austro-Húngaro, uma força de primeira grandeza até então, e que acabou se desmantelando no fim do conflito. E havia a crença, nos círculos políticos e no imaginário popular, de que a Itália ganharia território e poder após a vitória.

O alinhamento italiano era previsível: um velho conflito de fronteira no norte da Itália e sul da Áustria, que envolvia um pedaço da atual Eslovênia tornava as relações com o vizinho do norte conturbada. Os italianos queriam empurrar suas fronteiras ali, e havia também a certeza de que chegara a hora de o país ter colônias na África, como tinham todos os seus parceiros de luta.

Só que, no fim das contas, os italianos saíram do mesmo jeito que entraram. Não foram contemplados, nem levados em consideração no acordo final.

Inglaterra, EUA, França e os outros colegas da mesa dos vencedores acreditavam que a Itália não tinha poder de barganha para fazer nada, nem importância estratégica.

Mais uma vez, criou-se um ressentimento que seria muito bem explorado por Benito Mussolini – empossado quatro anos depois do fim da Primeira Guerra.

Mussolini então garantiu o tal império colonial italiano na África (Eritreia, Líbia, Etiópia e Somália), e foi esperto o bastante para explorar a fraqueza dos mini-países surgidos da repartição da Europa, invadindo a Albânia. Pensou, então, que poderia sentar-se à mesa das potências europeias. Mais uma vez esnobado por elas, foi conversar com Adolf Hitler. E o resto é história.

Na foto, os "quatro grandes" do Tratado de Versalhes: Presidente Woodrow Wilson (EUA), e os primeiros-ministros David Lloyd George (Reino Unido), Georges Clemenceau (França) e Vittorio Emanuele Orlando (Itália).
Na foto, os “quatro grandes” do Tratado de Versalhes: Presidente Woodrow Wilson (EUA), e os primeiros-ministros David Lloyd George (Reino Unido), Georges Clemenceau (França) e Vittorio Emanuele Orlando (Itália).


UM TRATADO QUE É UMA AULA

Percebem o tripé de mancadas do tratado? O deboche e a crueldade do vencedor. O projeto idealista bolado em uma sala, sem uma real experiência de pesquisa em campo, junto aos povos e à realidade. A traição a um aliado visto como sendo de segunda grandeza.

Estes são enganos seguidamente cometidos na política (como os fatos recentes demonstram), nos negócios, e na vida.

É só olhar ao redor, para o mundo de hoje. Por exemplo, embargos comerciais e tentativas de “quebrar” um país desafeto resultam normalmente em ressentimentos e na ascensão de líderes totalitários que saibam explorar este sentimento. É só acompanhar o noticiário internacional para constatar.

Teorias maravilhosas no papel, que não encaixam direto no mundo das pessoas reais e imprevisíveis, são coisa comum: de regimes inteiros de governo até planos econômicos furados. Inclusive no Brasil! Partidos (especialmente de esquerda) que não ganham apoio das massas justamente por falta de realismo. Programas governamentais que passam absolutamente incompreendidos pelo povo.

O desprezo por parceiros considerados “inofensivos” é no entanto, o item mais repetido de todo o Tratado até hoje. Especialmente no mundo dos negócios. Na política, também. Ainda esta semana a Presidência do Brasil passou a ser ocupada por um político visto até ali como fraquinho de votos e “figurativo”. Como a Itália, que procurou a Alemanha, ele foi buscar apoios. E achou.

Alguém um dia me perguntou por quê me interesso tanto pelo passado. Ora, porque com ele se aprende muito sobre o presente. E sobre o futuro.

batalha de collecchio

As lições dos soldados da Batalha de Collecchio para nossas vidas

 

Este post é, em sua maior parte, a reprodução de um texto alheio, do coronel Hiram Reis e Silva. Achei interessante reproduzí-lo porque ele traz um exemplo do bom e do mau comportamento de quem vence uma disputa. E é uma demonstração cabal do princípio já ensinado por Sun Tzu em “A Arte da Guerra” (há dois mil e quatrocentos anos atrás):

“Quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele, caso contrário, ele lutará até a morte.”  

E também é uma lição sobre honra entre adversários, mesmo que mortais. Sobre a honra que o vencedor deve ter, acima de tudo.


batalha de collecchio

O relato começa em Abril de 1945. Os soldados da Força Expedicionária Brasileira iam acompanhados de milicianos da resistência italiana, e encontraram uma força alemã muito mais numerosa, acompanhada de tropas regulares da Itália fascista. Iniciava-se a Batalha de Collecchio.

O general Dionísio (general na época do relato, não na época da guerra), conta que foi preciso solicitar reforços. Então, três oficiais alemães apresentaram-se, para tratar de sua rendição.

“No início nem sabia bem se eles queriam se entregar ou se estavam pensando que nós nos entregaríamos, face ao vulto das tropas deles, que por sinal mantinham um violento fogo para mostrar seu poderio.”

Uma vez esclarecido que eram os alemães que iriam render-se, “pediram três condições: que conservassem suas medalhas; que os italianos das tropas deles fossem tratados como prisioneiros de guerra (normalmente os italianos que acompanhavam os alemães eram fuzilados pelos comunistas italianos das tropas aliadas) e que não fossem entregues à guarda dos negros norte-americanos.

A exigência com relação aos negros devia-se ao fato de que, obviamente, estes sentiam ódio dos nazistas e descontavam neles toda a raiva que sentiam de seus próprios superiores brancos.

Eu perguntei ao interprete do lado alemão (nos entendíamos em uma mistura de inglês, italiano e alemão), por que queriam se render, com tropa muito superior aos nossos efetivos e ocupando uma boa posição do outro lado do rio.

Ele me respondeu que a guerra estava perdida, que tinham quatrocentos feridos sem atendimento, que estavam gastando os últimos cartuchos para sustentar o fogo naquele momento e que estavam morrendo de fome.

Que queriam aproveitar a oportunidade de se render aos brasileiros porque sabiam que teriam bom tratamento.

Combinada a rendição, cessou o fogo dos dois lados. Na manhã seguinte vieram as formações marchando garbosamente, cantando a canção ‘velhos camaradas’, também conhecida no nosso Exército.


 

A calma foi perturbada por um episódio que demonstra bem a importância de ter todo o pessoal envolvido em uma operação, trabalhando em harmonia e controlando os impulsos:

“Um nosso soldado, num impulso de momento, não se conteve e arrancou a Cruz de Ferro do peito de um sargento alemão. O sargento, sem olhar para o soldado, pediu licença a seu comandante para sair de forma, pegou uma metralhadora em uma pilha de armas a seu lado e atirou no peito do brasileiro, largou a arma na pilha e entrou novamente em forma antes que todos se refizessem da surpresa. Por um momento ninguém sabia o que fazer. Já vários dos nossos empunhavam suas armas quando o oficial alemão sacou da sua e atirou na cabeça do seu sargento, que esperou o tiro em forma, olhando firme para frente. Um frio percorreu a espinha de todos, mas foi a melhor solução.”

Uma lição importante fica aqui: vencer o inimigo não significa humilhá-lo. Só as pessoas muito pequenas e medíocres aproveitam para “esbaldar-se” e humilhar os inimigos caídos.


Hiram prossegue assim:

“Ao ouvir esta história, eu já tinha mais de dez anos de serviço, mas não pude deixar de me emocionar. Não foram as tragédias nem as atitudes altivas o que mais me impressionaram.

O que mais me marcou foi o bom coração de nossa gente, a magnanimidade e a bondade de sentimentos, coisas capazes de serem reconhecidas até pelo inimigo. Capazes não só de poupar vidas como também de facilitar a vitória.

É claro que isto só foi possível porque os alemães estavam em situação crítica; noutro caso, ninguém se entregará só porque o inimigo é bonzinho, mas que a crueldade pode fazer o inimigo resistir até a morte, isto também é real.”


 

Fonte: http://www.sangueverdeoliva.com.br/novo/index.php?option=com_content&view=article&id=463:guerra&catid=2:cronicas&Itemid=4

 

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Milagres Econômicos e Décadas Perdidas

 

Antes de mais nada, um alerta: o texto a seguir não vai satisfazer a quem busca um argumento para atacar um ou outro governo. Tampouco tenho a intenção de isentar quem quer que seja pelas mancadas cometidas. Este é um texto sobre um fenômeno cíclico da economia brasileira.

pra-frente-brazil

O Milagre Econômico Brasileiro, no auge do regime militar, não teve nada de “milagroso”. Pareceu obra divina para quem aproveitou para crescer nele. Mas ele tem causas explicáveis. Houve um pesado investimento estrangeiro no Brasil, combinado com a realização de imensas obras de infraestrutura pelo governo. Com mais estrutura, veio mais indústria. Com mais indústria, tivemos mais empregos. E mais empregos significam mais consumo.

Bom. O Milagre Econômico era, naturalmente, algo com início, meio e fim. Há um limite para a expansão do consumo, à medida que as pessoas passam a ter as coisas (ninguém coleciona geladeiras, por exemplo) e assumem cada vez mais despesas. As grandes obras públicas, feitas com dinheiro emprestado, deram origem a uma enorme dívida interna e externa, e é óbvio que a conta um dia teria que ser paga.

Só que nem o governo, nem os empresários, e muito menos a classe trabalhadora encararam aquilo como temporário. O endividamento (governamental e privado) e o inchaço da máquina pública evidenciam uma aposta na continuidade da bonança por décadas. Os investimentos por parte do empresariado também. Os pobres, no mesmo embalo, continuaram emigrando do interior para a cidade, inspirados na ideia de que lá, “oportunidade não falta”.

Quando o inevitável aconteceu, tivemos os anos 80, apelidados sintomaticamente de “década perdida”. Inflação, desemprego, recessão, moratória. O êxodo rural, ao invés de resultar em mais e mais histórias de jovens que “vencem na vida” na cidade, passou a inchar favelas.

Levaríamos vinte anos para sair da ressaca do “milagre”, e nos livrarmos da hiperinflação, já nos anos 90.

Corta a cena para a primeira década do século XXI. Após anos de estabilidade e com um cenário mais confiável para os negócios, proporcionados pelo Plano Real, iniciaram-se os governos do PT, caracterizados pelas políticas de distribuição de renda e de acesso ao crédito para as classes mais baixas, além de um novo ciclo de grandes obras pelo país todo.

Novamente, tivemos uma expansão rápida do acesso ao consumo, acompanhada de pesados investimentos na indústria (com o crescimento, concomitante, em “valor de papel” de um monte de empresas), e um “boom” de pequenos empreendedores. O desemprego caiu, muito dinheiro circulou. As pessoas vindas “de baixo” foram entrando em nichos de consumo com os quais antes nem podiam sonhar, e jogando tudo nos cartões de crédito. Acumulando boletos.

No fim da primeira década do novo século, claro, chegamos ao ápice da expansão da bolha, ao ápice da empolgação, do ufanismo e da esperança. E mergulhamos em outra temporada de crise. Acabamos de viver outra festança, e uma nova ressaca é inevitável.

São ciclos históricos, como dá para perceber.

O caráter finito da expansão de consumo, em qualquer dos casos (e nos inúmeros outros “milagres”, grandes e pequenos, da economia brasileira e mundial) não é causado pela ação de um governo ou outro.

Ele é um aspecto objetivo e inevitável da realidade: quando as pessoas arrumam empregos e/ou têm mais acesso a crédito elas, por exemplo, compram carros. Mas isso implica na contração de algum empréstimo por vários anos, tirando aquela pessoa do mercado de compradores de carros pelos próximos anos.

Mesmo que uma utópica expansão de renda possibilitasse a compra do carro à vista, haveria um limite para o número de automóveis que uma pessoa minimamente sensata pensaria em possuir.

As empresas, no entanto, expandem a produção de automóveis sem pensar nisso, e o governo ainda incentiva essa insensatez.

Não que isso ocorra apenas com fábricas de veículos: aplica-se também a imóveis, comida, roupas, viagens à Disney, e praticamente todas as coisas que se possa consumir neste mundo.

Então, sim, todo “boom” é finito. Ele é ótimo, abre oportunidades, mas é finito.

Se ele for baseado no aumento do consumo, ele depende da entrada de uma parcela da população em um mundo do qual até então não fazia parte – pode ser o do carro na garagem, o da casa própria, o das viagens. Se for baseado em obras públicas, o saco de dinheiro um dia ficará vazio. Se for um surto de investimento de capital estrangeiro, tanto pior: basta bater um vento na Rússia ou no Japão, a bolsa despencar, para a base do avanço virar um castelinho de cartas.

Isso não faz das explosões (ou “milagres”) algo necessariamente negativo. Esta “ressaca” desastrosa acontece porque as pessoas (e organizações) passam a viver a vida como se a Era de Ouro fosse durar para todo o sempre. “E então, o país passou a crescer dez por cento ao ano, e foram felizes para sempre” – é um conto de fadas, no qual o Brasil (e boa parte do mundo) acredita piamente, de tempos em tempos.

“Tudo o que nasceu vai morrer, tudo o que foi reunido será espalhado, tudo o que foi acumulado terá fim, tudo o que foi construído será derrubado, e o que esteve nas alturas será rebaixado.” (Buda, que sabia das coisas)

Kruschev

A gestão por metas e a lição das vaquinhas de Riazan

 

Em organizações muito grandes, não dá para os administradores principais terem acesso e convivência com todos os trabalhadores e setores envolvidos. Em operações nas quais parte do trabalho é terceirizado, a gestão do trabalho e da produtividade torna-se ainda mais complicadas.

Então, é racional pensar que instituições de grandes dimensões tenham um sistema de indicadores e uma tabela de metas para avaliar se, no fim das contas, o gigante está todo movendo-se junto e de acordo com a visão de quem tem a missão de definir rumos.

O problema é que, em muitos casos, esta “gestão por números” acaba tornando-se não apenas o elemento central, mas a obsessão de quem está no topo da pirâmide organizacional. Hoje, veremos um exemplo histórico sobre os perigos disso, e aprenderemos algumas lições.


UM POUCO DE CONTEXTO

Para os que não estão familiarizados com a História do século XX: em 1917, a Rússia, país mais atrasado da Europa na época, foi palco de uma revolução socialista. O novo governo estatizou fábricas, transportes, terras, tudo, e praticamente todo o povo passou a trabalhar diretamente para o Estado soviético.

Como não havia liberdade de mercado, o governo funcionava como uma imensa empresa com dezenas de milhões de empregados. Para gerir essa coisa gigantesca, foram criados os Planos Quinquenais, que eram peças de planejamento e estabelecimento de metas para os próximos cinco anos. Neles, estabeleciam-se prioridades e metas. Mais ou menos como ocorre hoje nas grandes empresas.

Este sistema funcionou mais ou menos bem nos primeiros anos: embora o governo Stalin tenha exercido uma violenta repressão a todos os que não seguissem seus planos, e o país tenha sido devastado pela Segunda Guerra Mundial, os russos conseguiram firmar-se como uma superpotência, rivalizando com os EUA.

Mas o país ainda era varrido, de tempos em tempos, por ondas de escassez e fome. Com a morte de Stalin, um careca chamado Nikita Kruschev assumiu o poder, e ele era absolutamente obcecado por produção agropecuária. Entre outros feitos, iria reconstruir a Ucrânia e tornar cultivável um pedaço enorme do Cazaquistão.

Mas foi no governo dele que aconteceu o insólito caso das vacas de Riazan, que veremos agora.

Kruschev


O ESTABELECIMENTO DE METAS

Kruschev queria aumentar a produção de carne. Seus especialistas e cientistas duvidavam das possibilidades de um grande salto neste setor, mas tanto o líder quanto os administradores regionais e os camponeses estavam empolgados.

Alexei Larionov, o primeiro secretário do Oblast de Riazan, prometeu DUPLICAR sua produção de carne no próximo ano. Depois, ele reuniu-se com os administradores das divisões do oblast, e alguns deles, mais empolgados ainda, chegavam a prometer triplicação do volume de carne. O bom senso passava longe.

Este tipo de entusiasmo parece absolutamente irracional mas, se pararmos para pensar, hoje em dia não apenas temos executivos que agem como Larionov, como também temos palestrantes e escritos de livros que fazem fortunas insuflando entusiasmo vazio nas pessoas.

Haviam russos sensatos, claro: o próprio jornal Pravda, na época, criticou o irrealismo. Mas isso não deteve os super-heróis agrícolas.


O PLANO NA PRÁTICA

Todas as medidas realistas e práticas para engorda e reprodução aceleradas do gado foram tomadas mas, nos primeiros meses, ficou evidente que, embora se pudesse entregar um aumento significativo da produção ao longo do ano, não se iria alcançar a duplicação dela, como prometido.

Começaram então a abater até o gado leiteiro, e os animais destinados à reprodução. Como isso obviamente levaria a região à ruína, os dirigentes locais começaram a confiscar os animais criados de forma particular pelos camponeses, nas fazendas de cooperativas autônomas (os kolkhozes) e até arredores de suas casas.

Como nem isso resolveu o problema, e tanto os administradores como a população de Riazan estavam decididos a não ficar “mal na foto” diante do resto do país, iniciou-se uma prática de re-contabilizar a carne já produzida.

Digamos, o agricultor Vladimir. Pois bem, Vladimir vendia a carne de suas vacas ao armazém do governo, que contabilizava aquele peso em carne na soma da produção de Riazan. Depois, repassava a carne para os supermercados. Chegando lá, o próprio Vladimir comprava aquele montão de carne, guardava um pouco para seu consumo, e apresentava o restante naquele mesmo armazém.

Assim, ele produziu 300 quilos de carne e esta carne foi contada na primeira passada no armazém. Na segunda, foram mais 150. E às vezes havia uma terceira passada.

Como o preço no supermercado tinha que ter algum aumento para cobrir despesas do próprio estabelecimento, este sistema levou boa parte dos produtores de Riazan a contrair dívidas. O próprio governo do Oblast começou a financiar a prática, usando o dinheiro que deveria ser usado em novas máquinas agrícolas e sementes.


O RESULTADO TRIUNFANTE

No dia 16 de Dezembro de 1959, o oblast de Riazan anunciou o cumprimento da inacreditável meta de produção. Larionov recebeu uma medalha de Herói Socialista do Trabalho, e o país todo só comentava este retumbante sucesso.

Alexei fez um bonito discurso prometendo, para 1960, triplicar a produção. Toda a Rússia acreditou: aquele homem era capaz!

Não que os russos da época fossem burros: nós, brasileiros ou americanos, já vimos casos emblemáticos de administradores aparentemente superpoderosos, que prometem margens de lucro astronômicas e todo mundo acredita porque, afinal, “ele sabe fazer as coisas acontecerem”. Ou alguém aí não vê certa semelhança entre Alexei Larionov e, digamos, Eike Batista?

kruschev leite


CAINDO NA REALIDADE

Riazan faliu. Alexei Larionov cometeu suicídio. Incrivelmente, até hoje não é incomum vermos gestores que conhecem bem o sistema inumano e numérico de contagem dos indicadores que servem para aferição, e com uma planilha na mão, dão a impressão de sucesso enquanto plantam as sementes do fracasso.

Embora Riazan tenha cumprido a meta de 1959, o gado havia sido dizimado pelo abate excessivo. Os rebanhos correspondiam a 65% do que eram no ano anterior. Se de 1958 para 1959 a produção havia triplicado, de 1959 para 1960 ela caiu para um quinto do que era antes.

Os camponeses tinham dificuldades até para alimentar suas próprias famílias. E aqueles que tiveram o gado particular confiscado tentaram resgatar o valor dos títulos que haviam recebido. Tomaram um previsível calote, de modo que entraram numa espécie de semi-greve que derrubou ainda mais a produção de grãos e alimento para os animais. Os anos 60 seriam difíceis para aquele povo.


A LIÇÃO APRENDIDA

Nikita Kurschev aprendeu alguma coisa com o desastre de Riazan – algo que todo líder deve saber: não dá para administrar simplesmente olhando indicadores de cumprimento de metas em uma tela de computador. É preciso sair, falar com os trabalhadores, sentir o clima e enxergar a realidade da organização no dia a dia.

Tanto que seu governo é lembrado como uma época de progresso para o país. Ele foi o líder soviético que mandou o primeiro satélite e o primeiro homem ao espaço, e mais importante que isso, começou a direcionar o foco da indústria do país no atendimento às necessidades dos cidadãos. A qualidade de vida melhorou e o governo começou a abrandar a censura e a perseguição aos opositores.

Por um momento, chegou a parecer que a URSS poderia dar certo. Kruschev, no entanto, era afoito e entrou em choque com gente demais. Em 1964, foi derrubado por um golpe.

guerra dos farrapos

Revolução Farroupilha e o orgulho pela falta de “bom senso”

 

Como todo brasileiro que já cursou o Ensino Médio deve saber, em 1835 explodiu no Rio Grande do Sul aquela que seria conhecida como Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, basicamente opondo boa parte da população gaúcha (sob liderança de alguns estancieiros), contra o resto dos gaúchos e toda a imensidão do recém-fundado Império do Brasil.

E há uma imensa – interminável – polêmica a respeito dos resultados desta luta. Gaúchos gostam de dizer que não houve derrota nem vitória, apenas um tratado dando fim à contenda. Brasileiros galhofeiros dos demais Estados preferem apontar para a evidente desvantagem dos sulistas e a impossibilidade de vencerem a guerra.

E é fato: quando o Tratado de Ponche Verde foi assinado, a República Rio-Grandense encontrava-se exaurida de recursos e de capacidade de combate. Enquanto o imenso Brasil tinha condições de continuar. Foi um tratado inevitável para os gaúchos, e conveniente para o governo central. Só que o tratado contemplou muitas das exigências dos revolucionários.

Aliás, o governo central anistiou os revolucionários e ainda pagou as dívidas contraídas pelo governo republicano. A província pulou para o centro da cena política nacional, e até passou a ter mais autonomia. Não por acaso, a bandeira dos revoltosos tornar-se-ia, depois, a bandeira do Estado do Rio Grande do Sul.

A descrição mais correta, portanto, é essa: o Brasil obteve uma vitória militar inegável, enquanto o Rio Grande do Sul obteve uma vitória política.

Mais do que isso, a guerra conseguiu unir os grupos sulistas em uma identidade cultural, enquanto povo. 

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MUITO MAIS CORAGEM E SORTE DO QUE JUÍZO

A desvantagem militar da República Rio-Grandense, e o fracasso da tentativa de independência em relação ao Brasil ainda mexe com os brios da gauchada e serve de mote a piadas. Mas não deveria ser assim.

A população do Brasil em 1835 girava em torno de 5 milhões de habitantes. A do Rio Grande do Sul não passava de duzentos mil. Ou seja, os rio-grandenses eram apenas 4% do total de brasileiros. Regiões inteiras do Estado eram desabitadas (os imigrantes que ocupariam a Serra só iriam chegar no final do mesmo século).

Era um conflito tão absurdamente desigual que o esperado seria o esmagamento rápido do levante, e uma derrota humilhante das forças gaúchas.

Mas não. A derrota, inevitável desde o início para o minúsculo Sul, nem foi completa. Demorou dez anos. Acabou assinada com montes de condições, depois de um conflito sangrento de dez anos, no qual a diminuta república sulista resistiu de forma surreal ao gigante imperial.

É de se admirar – e motivo de orgulho – não apenas a força de vontade incrível por parte desses “gauleses irredutíveis” na própria luta mas, antes de mais nada, a coragem desses sujeitos que proclamaram a independência de um Estado tão pequeno e então despovoado como o nosso, sabendo que teriam que lutar contra o maior império da América Latina, e um dos maiores do mundo, na época (e hoje).

Claro, estamos falando de uma insurreção liderada por fazendeiros, foi um empreendimento basicamente de parte da elite local e da maçonaria.

Pode parecer um esforço imbecil e desnecessariamente arriscado, mas é também uma demonstração absoluta de coragem e testosterona, do tipo que só estamos acostumados a ver em filmes de ação ou naqueles épicos exagerados.

O feito em si, sua consequência prática, acaba ofuscado pelo fato impressionante de ter simplesmente acontecido.

Existe alguma coisa facinante e admirável na coragem do kamikaze; dos “300 de Esparta”; do bandido de filme de faroeste italiano, que sai de seu covil atirando contra toda a cavalaria do Texas; Jack Sparrow entrando, espada na mão, dentro da boca do Kraken; desse impulso ao mesmo tempo bravo, inexplicável, mal calculado (ou melhor, não calculado), essa falta de bom senso primordial que move os atos estupidamente heróicos e descabidos.

No fundo, este sentimento faz parte da essência do gaúcho. Na dúvida, ele olha para o passado e se espelha na lenda criada em torno daquele movimento. Prova disso está nas repetições desse mesmo tipo de gesto em 1930 e 1961, porém sem pregar separtismo algum, e com bem mais sucesso.

 

Italy-fascism

Por quê os líderes fascistas eram geralmente ex-socialistas?

Texto originalmente publicado no site Covil da Discórdia.


 

Em outro post, escrevi sobre o surgimento da concepção de “relações de trabalho” típica dos regimes fascistas e, mais tarde, de muitas democracias como as da Europa, e até aqui, no Brasil.

Resumidamente, pode-se dizer que a ideia de sindicatos oficiais, legalizados e submissos a uma legislação, veio para canalizar de forma ordenada e controlável as demandas do movimento operário, e os interesses patronais, e dar ao Estado o papel de mediador teoricamente imparcial.

Obviamente, o regime fascista e seus assemelhados consistiam não apenas nesta concepção de relação entre corporações, mas também de outros fatores, como militarismo, poder centralizado e, no caso da Alemanha, um discurso altamente racista. Mas este artigo é especificamente sobre o arranjo social, a forma como o Estado servia de amortecedor, juiz e garantidor das regras do conflito entre – usemos termos clássicos – burguesia e proletariado.

Estamos falando de uma construção que, enquanto evitava a abolição da propriedade privada, fazia também uma clara oposição ao capitalismo liberal. Embora Estados adeptos deste modelo tenham usado suas forças policiais e militares basicamente contra grupos comunistas, eles também eram antiliberais. Limitavam o poder de “livre negociação” dos empregadores com com os empregados através de leis como salário mínimo, jornada de trabalho, etc.

Esses novos regimes apresentavam-se como “amigos dos trabalhadores”. E a solução apresentada por eles parecia uma forma de “capitalismo com dignidade”, na época. Dava a impressão, sob a ótica da época, de ser uma solução de meio-termo.

Italy-fascism

Não por acaso, Mussolini e muitos outros líderes e teóricos desta nova concepção vinham de um background socialista, e até mantinham os jargões e o discurso básico dos movimentos de esquerda. Porém, trabalhavam em conciliação com as elites e, no caso italiano, sob a chancela da igreja e da monarquia.

O conflito ideológico dos socialistas com o fascismo era, inicialmente, parecido com o que eles têm até hoje com os social-democratas: ao manter o capitalismo aliviando o sofrimento e garantindo alguns direitos à classe trabalhadora, o sistema estaria esvaziando o ímpeto revolucionário dela, domesticando-a.

Depois, evoluiu para um antagonismo direto e mais feroz, até que liberalismo e regimes com características herdadas do fascismo (o espanhol, por exemplo) passassem a ser colocados do mesmo lado (como sinônimos, no extremo oposto do socialismo) obedecendo à lógica da Guerra Fria.