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Milagres Econômicos e Décadas Perdidas

 

Antes de mais nada, um alerta: o texto a seguir não vai satisfazer a quem busca um argumento para atacar um ou outro governo. Tampouco tenho a intenção de isentar quem quer que seja pelas mancadas cometidas. Este é um texto sobre um fenômeno cíclico da economia brasileira.

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O Milagre Econômico Brasileiro, no auge do regime militar, não teve nada de “milagroso”. Pareceu obra divina para quem aproveitou para crescer nele. Mas ele tem causas explicáveis. Houve um pesado investimento estrangeiro no Brasil, combinado com a realização de imensas obras de infraestrutura pelo governo. Com mais estrutura, veio mais indústria. Com mais indústria, tivemos mais empregos. E mais empregos significam mais consumo.

Bom. O Milagre Econômico era, naturalmente, algo com início, meio e fim. Há um limite para a expansão do consumo, à medida que as pessoas passam a ter as coisas (ninguém coleciona geladeiras, por exemplo) e assumem cada vez mais despesas. As grandes obras públicas, feitas com dinheiro emprestado, deram origem a uma enorme dívida interna e externa, e é óbvio que a conta um dia teria que ser paga.

Só que nem o governo, nem os empresários, e muito menos a classe trabalhadora encararam aquilo como temporário. O endividamento (governamental e privado) e o inchaço da máquina pública evidenciam uma aposta na continuidade da bonança por décadas. Os investimentos por parte do empresariado também. Os pobres, no mesmo embalo, continuaram emigrando do interior para a cidade, inspirados na ideia de que lá, “oportunidade não falta”.

Quando o inevitável aconteceu, tivemos os anos 80, apelidados sintomaticamente de “década perdida”. Inflação, desemprego, recessão, moratória. O êxodo rural, ao invés de resultar em mais e mais histórias de jovens que “vencem na vida” na cidade, passou a inchar favelas.

Levaríamos vinte anos para sair da ressaca do “milagre”, e nos livrarmos da hiperinflação, já nos anos 90.

Corta a cena para a primeira década do século XXI. Após anos de estabilidade e com um cenário mais confiável para os negócios, proporcionados pelo Plano Real, iniciaram-se os governos do PT, caracterizados pelas políticas de distribuição de renda e de acesso ao crédito para as classes mais baixas, além de um novo ciclo de grandes obras pelo país todo.

Novamente, tivemos uma expansão rápida do acesso ao consumo, acompanhada de pesados investimentos na indústria (com o crescimento, concomitante, em “valor de papel” de um monte de empresas), e um “boom” de pequenos empreendedores. O desemprego caiu, muito dinheiro circulou. As pessoas vindas “de baixo” foram entrando em nichos de consumo com os quais antes nem podiam sonhar, e jogando tudo nos cartões de crédito. Acumulando boletos.

No fim da primeira década do novo século, claro, chegamos ao ápice da expansão da bolha, ao ápice da empolgação, do ufanismo e da esperança. E mergulhamos em outra temporada de crise. Acabamos de viver outra festança, e uma nova ressaca é inevitável.

São ciclos históricos, como dá para perceber.

O caráter finito da expansão de consumo, em qualquer dos casos (e nos inúmeros outros “milagres”, grandes e pequenos, da economia brasileira e mundial) não é causado pela ação de um governo ou outro.

Ele é um aspecto objetivo e inevitável da realidade: quando as pessoas arrumam empregos e/ou têm mais acesso a crédito elas, por exemplo, compram carros. Mas isso implica na contração de algum empréstimo por vários anos, tirando aquela pessoa do mercado de compradores de carros pelos próximos anos.

Mesmo que uma utópica expansão de renda possibilitasse a compra do carro à vista, haveria um limite para o número de automóveis que uma pessoa minimamente sensata pensaria em possuir.

As empresas, no entanto, expandem a produção de automóveis sem pensar nisso, e o governo ainda incentiva essa insensatez.

Não que isso ocorra apenas com fábricas de veículos: aplica-se também a imóveis, comida, roupas, viagens à Disney, e praticamente todas as coisas que se possa consumir neste mundo.

Então, sim, todo “boom” é finito. Ele é ótimo, abre oportunidades, mas é finito.

Se ele for baseado no aumento do consumo, ele depende da entrada de uma parcela da população em um mundo do qual até então não fazia parte – pode ser o do carro na garagem, o da casa própria, o das viagens. Se for baseado em obras públicas, o saco de dinheiro um dia ficará vazio. Se for um surto de investimento de capital estrangeiro, tanto pior: basta bater um vento na Rússia ou no Japão, a bolsa despencar, para a base do avanço virar um castelinho de cartas.

Isso não faz das explosões (ou “milagres”) algo necessariamente negativo. Esta “ressaca” desastrosa acontece porque as pessoas (e organizações) passam a viver a vida como se a Era de Ouro fosse durar para todo o sempre. “E então, o país passou a crescer dez por cento ao ano, e foram felizes para sempre” – é um conto de fadas, no qual o Brasil (e boa parte do mundo) acredita piamente, de tempos em tempos.

“Tudo o que nasceu vai morrer, tudo o que foi reunido será espalhado, tudo o que foi acumulado terá fim, tudo o que foi construído será derrubado, e o que esteve nas alturas será rebaixado.” (Buda, que sabia das coisas)

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